sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

Frans Post em exibição no Louvre

O pintor holandês criou audaciosas imagens de uma viagem ao Brasil

Em 1637, Frans Post, pintor holandês sobre quem nada se sabia antes daquele ano, chegou ao Brasil, território que a Holanda havia acabado de tirar de Portugal. Post acompanhou o recém nomeado governador, o príncipe Johan Maurits van Nassau-Siegen, que queria que ele fornecesse um registro pictórico da terra que descobririam juntos. Se foi esta a intenção, o príncipe deve ter ficado surpreso. Os sete quadros que sobreviveram dos sete anos de Post no Brasil, em exibição no Louvre até 2 de janeiro com outros pintados posteriormente, não têm a menor semelhança com registros topográficos.

Frans Post pinta a Recife do século 17 em quadro encomendado por Maurício de Nassau

De fato, não se parecem em nada com pinturas da época. É como se a visão de um mundo novo e estranho tivesse tornando irrelevantes todas as convenções da época, para o artista fascinado.

Ainda não foi descoberta nenhuma pintura de Post anterior a sua partida, aos 24 anos. Qualquer que tenha sido seu estilo, é improvável que tivesse muito em comum com "Itamaracá", a primeira de suas paisagens brasileiras, de 1637.

Post pintou a ilha, vista do outro lado da vasta confluência de vários rios, meses depois de sua chegada. A composição revolucionária de camadas sobrepostas se amplia indefinidamente, cortada apenas pelos limites da moldura.

Trilhas de nuvens flutuam paralelas ao corpo de água, aumentando a impressão de imensidão além da compreensão humana. O vazio cinzento da margem tem o início de uma faixa fina de vegetação.

Apesar de delineá-la com afetuoso detalhe, Post apresenta a natureza observada como ela é, com um frescor que apenas artistas do século 19 eventualmente redescobririam. Uma pequena pedreira cria um rombo dourado no morro verde no horizonte, sem qualquer preocupação com a harmonia artificial à custa da observação. O pintor simplesmente dinamitou a arena artística.

O próximo trabalho é mais tranqüilo. "Carro de Boi", datado de 15 de agosto de 1638, tem um ambiente de Paraíso Perdido. A faixa prateada de um rio meandra ao largo e minúsculas casas de telhas vermelhas se aninham aos pés de um morro baixo. No primeiro plano, o carro puxado por dois bois e os trabalhadores negros de shorts parecem ter sido tirados de um idílio rural. Duas árvores exóticas com folhagens finas acrescentam à sensação de mundo irreal, de inocência sonhadora.

Nenhum traço disso permanece em "Forte Ceulen no Rio Grande", completado duas semanas depois. O pretexto para o quadro é a arquitetura militar, mas o verdadeiro tema é a imensidão, que agora assombrava Post.

De volta à Holanda em 1644, Post logo perdeu seu maravilhoso dom inventivo e sua capacidade de dizer muito mostrando pouco. Começou a acumular detalhes descritivos, fazendo de suas paisagens imagens sem sentido com pouca atenção à composição. No máximo, são bonitinhas.

Eventualmente, ele se repetiu em variações que não acrescentaram nada às versões iniciais. Tendo atingido alturas extraordinárias, Post caiu em crassa banalidade.

É verdade que ainda sabemos pouco sobre sua obra e não muito sobre o homem. Dos 18 quadros conhecidos feitos no Brasil, apenas sete são identificados. No entanto, todos foram presenteados ao rei Louis XIV da França, em 1679, e aparentemente ainda estavam na posse real e meados do século 18.

"Forte Frederik Hendrik" apareceu, subitamente na Sotheby's, New York, em 1995 e o admirável "Cidade de Frederik na Paraíba", em 1997, quando arrecadou US$ 4,5 milhões (em torno de R$ 10 milhões). Olhe em volta. A próxima descoberta pode ser sua.

A matéria na íntegra aqui.


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