domingo, 18 de dezembro de 2005

"Fotoportátil", livro de bolso

Forma, imagem e palavra, em abordagem crítica, integram coleção que pretende capturar a história da fotografia brasileira



Com a idéia de inovar e ampliar o olhar nacional para a fotografia contemporânea, a editora CosacNaify, de São Paulo, lançou os seis primeiros livros de bolso da série Fotoportátil. O projeto tem como base o formato econômico de coleções como a francesa Photo Poche e a 55 da Phaidon.

Eder Chiodetto, coordenador do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) e idealizador do projeto e a design gráfica Elaine Ramos concretizaram a idéia de Augusto Massi, da CosacNaify, ao unirem ousadia gráfica e editorial nessa coleção. Segundo Chiodetto, a série começou pelo final, “mostrando o estágio atual da fotografia brasileira apoiada em contemporâneos que possuem trabalho representativo em diversas áreas, mas com um olhar que filosofa sobre o ato fotográfico... a idéia é fazer incursões até o século 19.”

Diferentemente da maioria das publicações do gênero, a Fotoportátil tem uma abordagem ensaística ao oferecer fotos em seqüência intencional ao formato do livro, e não uma reunião de fotos esparsas. Um texto, no final do livro, abre novas perspectivas que “podem levar a fotografia para conexões com a literatura”, proporcionando ao mercado uma abordagem crítica.

A retrospectiva histórica da coleção pretende vasculhar o passado, “sempre mantendo o pé no que há de novo”, selecionando “a fase dos cartões postais do século 19, os primeiros fotógrafos imigrantes, o início do fotojornalismo e da fotografia de publicidade, o modernismo dos 1940/1950, a fotografia da ditadura, a inserção nas artes plásticas, a interação com outras linguagens...”, segundo Chiodetto, até o que possibilitou a fotografia no Brasil ter suas características próprias.

Os primeiros livros publicados são de artistas reconhecidos, mas que ainda não tinham um livro pessoal (exceto Ângela Rennó), para além dos motivos de serem representativos, o projeto procura romper com a pobreza editorial de livros de fotografia: escassos, caros e com raras produções de reflexão.

O suporte da obra também inova e oferece mais leituras. O formato pocket poderia engessar a apresentação das fotos, cortadas pela lombada ou com tamanhos pequenos, mas Elaine desenvolveu um suporte contínuo (além de barato), a sanfona, onde é possível “ter fotos grandes em um livro pequeno com uma interferência sutil, apenas a dobra”. Com a experiência dos primeiros volumes publicados, a design explica que a diversidade de ocupação do suporte tem sido impressionante, “nesse formato a seqüência entre as fotos fica mais evidenciada, o que leva a edição a construir uma narrativa, e não incluir um pouco de cada coisa que o fotógrafo fez”.

O formato, que possibilita uma narrativa ao artista, também convida o leitor a criar outras seqüências, ao manusear a sanfona, esticando-a e comprimindo-a, para diferentes combinações e leituras, tornando-o agente tátil que interfere na obra. As sanfonas inauguram-se com dois pólos contemporâneos, de maneira a balancear a representatividade fotográfica, como conta Elaine.

Com diferentes enfoques, o filosofar a fotografia agrega cada livro, criando narrativas além das que são propostas em cada um. Chiodetto, ao traçar a proposta do projeto, o insere na história que a coleção vai a busca: “Propomos um mosaico onde cada um deverá se mover pelos seus próprios olhos, pela sua sensibilidade... A história da fotografia brasileira é feita de sobressaltos e de muitas influências externas...[que] foram devoradas, canabalizadas e transformadas em linguagem original e provocadora, como manda o receituário da antropofagia... o objetivo é deixar que a coleção absorva essas histórias de subversão que geram sua linha evolutiva.”

Foto:Deborah Bregantino

0 comentários:

Blog Widget by LinkWithin
 
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.