terça-feira, 13 de dezembro de 2005

"Trilogia" Encandescente


Cartas ao Pai Natal I - A solteirona

Querido Pai Natal
Pelo quinquagésimo sexto ano seguido te peço:
Manda-me um homem
E não mais um par de meias
Que não é desse calor que preciso.
Pode ser cego
Eu guio-lhe a mão
Pode ser surdo e mudo
Eu falo pouco
Pode ter marreca
Inventamos uma nova posição
Pode ser coxo
Na cama não se nota
Pode ser um sem abrigo
Dou-lhe banho, cama, comida
Mas manda-me um homem!
Não me deixes morrer virgem
Sem experimentar os prazeres do sexo.
Sem companhia na cama
Excepto a da minha gata a Xana.
Desta que com desespero se assina:
A ainda virgem Virgolina.


(Dezembro 2004)

Encandescente
"Caluniada, detalhe da Verdade e o Remorso" - Sandro Boticelli




Cartas ao Pai Natal II - A radical feminista


Pai Natal
Tu que és o símbolo decadente de uma sociedade machista
E que entregas as prendas só porque és homem.
Tu que oprimes e subjugas a Mãe Natal
Ela sim, um símbolo para a humanidade
Mas que não distribui prendas, só porque é mulher.
Pai Natal
Contesto também Jesus e o Natal
Porque o milagre não foi a natalidade
Mas a virgindade de Maria
Desde a fecundação até à maternidade
O que prova a dispensabilidade do homem
Até como instrumento para a fecundação.
Pai Natal exijo como presente:
A castração dessa parte da humanidade
Que assenta o domínio sobre a mulher na virilidade
Para assim ficarmos em pé de igualdade
E ficar provado que a força não está no sexo
Mas na capacidade de liderança, no intelecto,
Na determinação, na força de vontade e de vencer
Qualidades que tens de reconhecer
Só se encontram todas juntas na mulher.
Despeço-me, enviando cumprimentos solidários à Mãe Natal
E sabendo que não me concederás a alegria
De, como desejo, viver um dia
Num mundo onde os homens sejam capados e assexuados.
Assino-me orgulhosamente:
Mulher, Maria.


(Dezembro 2004)

Encandescente
"Cinco Banhistas" - Paul Cezanne




Cartas ao Pai Natal III - A ninfomaníaca


Meu muito... Muito... Querido...
Pai Natal...
Desculpa a carta apressada
Mas estou muito ocupada
E rodeada de assuntos pendentes...
Peço-te o mesmo que pedi noutros Natais:
Homens no sapatinho...
Podes mandar dez, vinte, trinta..
Homens nunca são demais!
Renovo também o convite
Para que me faças uma visita
Tu, e os teus ajudantes
Serão muito bem recebidos
E cabemos todos aqui
Na minha nova e enorme cama...
Despeço-me agora
Estou um bocadinho apertada
Um assunto longo e bicudo por mim chama
E requer a minha imediata atenção...
Desta que anseia por ti...
E pelos teus ajudantes...
Assinado:
Assunção

(Dezembro 2004)

Encandescente
"Dormeuse,1934" - Tamara de Lempicka


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