segunda-feira, 14 de novembro de 2005

Adélia Prado faz reflexão sobre a morte e o inefável

Em "Quero Minha Mãe", autora constrói narrativa
fragmentada e poética sobre uma mulher doente


Cada doença esconde em si mesma sua inexplicável cura? Cada morte deixada de herança carrega consigo uma redenção? Cada ato cotidiano - o destrinchar de um frango, uma conversa despretensiosa na cozinha, um passarinho que a atravessa e se esconde atrás da geladeira - encerra a beleza de toda uma vida?

Adélia Prado parece pensar que sim, e há quase setenta anos tem feito o favor de esmerar-se para que também o acreditemos. Desta vez, na obra que chega às livrarias na próxima semana, troca seus dóceis e líricos poemas habituais por um brado desconsolado: "Quero Minha Mãe" (Record, R$ 24,90, 84 págs.).

Trata-se de uma novela curta, construída de modo poético e fragmentário, em que acompanhamos a narrativa pouco linear de Olímpia, uma mulher que se descobre acometida por uma doença grave. Pelo seu fluxo quase caótico de sonhos, lembranças, diálogos e fatos, seguimos as voltas de seu inabalável medo da morte, agravado pela memória onipresente da longínqua morte da mãe, e a dificuldade em revelar a doença para amigos e familiares.

Olímpia não é Adélia, mas quase que poderia ser. Com ela, compartilha a forte devoção à religião, compartilha a morte precoce da mãe, a idade, a condição social, a numerosa família nuclear. Compartilha também a sensibilidade para captar o momento poético e compreender o exato instante em que o gesto vão se faz poesia. E essa é a porta que se abre para nós, leitores, e para o nosso consolo.

Sobre o inenarrável, o inalcançável, o inefável e sobre a possibilidade de buscá-los na extraordinariedade do ordinário, Adélia conversou com a Folha na tarde da última sexta. Isso pouco tempo antes de falar sobre poesia por duas horas e ser aplaudida de pé pelas cerca de 200 pessoas que a ouviram no Fórum das Letras de Ouro Preto - evento literário que se encerra amanhã na cidade mineira.

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