segunda-feira, 20 de março de 2006

Sem futuro

Documentário mostra realidade de meninos do tráfico

A exibição do documentário "Falcão: meninos do tráfico", do rapper MV Bill e do produtor Celso Athayde, no domingo à noite pelo Fantástico, da TV Globo, trouxe à tona o debate sobre o que pode ser feito para mudar a vida de meninos envolvidos com o tráfico de drogas. O documentário trouxe revelações impactantes sobre a entrada de "soldados" cada vez mais jovens no crime. Os menores falaram abertamente sobre consumo de drogas, corrupção policial e assassinato de delatores.

- Quem sabe fazer de hoje um marco zero de uma grande mobilização nacional, com educação, trabalho, investimento em cultura, participação, atividades esportivas, disputar cada menino desses com o crime organizado - sugeriu o secretário nacional de Direitos Humanos, Paulo Vanucci.

Os falcões - nome dado aos jovens encarregados de vigiar a favela e avisar a chegada de rivais e da polícia - mostram consciência sobre os perigos de trabalhar para o tráfico. Num dos depoimentos mais impressionantes, um garoto de aproximadamente 10 anos fala sobre a falta de perspectivas e a rotatividade dos jovens no crime:

- Se eu morrer, nasce um outro que nem eu, pior ou melhor. Se eu morrer, vou descansar, é muito esculacho nessa vida - declarou.

- Estamos tratando com homens pequenos. Não há mais infância, não há mais criança. É triste, é muito triste - disse o sociólogo Gláucio Soares.

Um dos dados que chamou a atenção dos especialistas foi o fato de a maioria não ter conhecido o pai ou então ter o pai morto.

- Esses meninos, não tendo esse pai, eles ficam como se não tivessem um espaço de inclusão na sociedade. E o tráfico vem a oferecer esse lugar - analisa a psicóloga Lulli Milman.

- A morte prematura vai fazendo com que essas gerações fiquem sem referências masculinas positivas e todo o afeto e a confiança da pessoa se concentra na figura da mãe. É a mãe e mais ninguém - acredita sociólogo Ignácio Cano.

O documentário não faz uma análise sobre a vida destes menores envolvidos com o crime e deixa que os próprios protagonistas digam como é e o que pensam de seu dia-a-dia.

- Em várias falas, aparece claramente a idéia de que essa é uma vida errada. Essa não é a vida certa. Essa não é a vida que eu não quero para o meu filho - comentou o antropólogo Rubem César Fernandes, da ONG Viva Rio.

Sem esperanças, as mães não têm reação e deixam a escolha dos meninos um caminho que pode ser breve.

- Entra se quiser. Eu deixo bem explicado. E quando o meu filho crescer, eu vou querer falar o que o pai dele foi, como o pai dele era. E vou falar para ele: 'se tu acha que isso é o certo e quiser seguir o que o teu pai seguiu, o caminho é esse daí, a morte - declarou uma mãe com o bebê no colo.

Contrastando com a imagem distorcida de poder que os meninos têm do mundo do crime, a realidade da impotência de um sobrevivente que, além de ter sido preso, está há 19 anos em uma cadeira de rodas. Ele afirma que ninguém consegue nada no mundo do crime.

- Porque se você consegue no crime, quem vai desfrutar ou é a tua mulher ou é familiar, porque você não desfruta nada em uma cadeia. No crime, eu não arrumei nada. Arrumei o quê? Só prejuízo mesmo, uma cadeira de rodas. Dezenove anos em uma cadeira de rodas. Então, ao meu ver, era melhor a 'menorzada' estudar, trabalhar. Porque, pô, é uma vida ingrata. Uma vida ingrata pra caramba. Um sofrimento brabo.

Inácio Cano ressalta a importância desta imagem.

- É uma imagem muito importante, que tira todo esse glamour dessa vida. Mostra que esse negócio não compensa. O documentário mostra que é um problema nacional. Se a gente não reagir a isso, pode ser um problema que apareça em todas as áreas metropolitanas do país como já aparece em muitas delas.

A versão do documentário com 58 minutos foi retirado de 217 horas de imagens gravadas entre 1998 e 2003 em comunidades de vários estados, que não são identificados. Dos 16 personagens principais, que aparecem com os rostos borrados digitalmente ou escondidos por uma tarja preta, 15 morreram e tiveram os enterros registrados pela equipe. Segundo Athayde, o único sobrevivente está preso.

n.r.: Pode parecer piegas, mas chorei ouvindo alguns relatos. Não me sinto co-responsável - como li alguém dizer no jornal de hoje - mesmo fazendo parte da sociedade brasileira. Nunca dei meu voto por paixão ou por ideologia.

As soluções são muitas, e acho que bastante conhecidas de nossa sociedade, porque ao longo do tempo temos ouvido muitas por parte de especialistas.

Falta uma política de planejamento familiar e com isso é necessária a separação de Igreja-Estado, falta o ensino público de base, falta inclusive o espaço físico das escolas: há um caso em São Paulo onde estudantes dividem há mais de um ano as salas de aula com desabrigados, são por isso, obrigados a estudar por turnos além de dividir a mesma sala de aula com outros colegas de classes mais adiantadas.

Como não-especialista posso descrever inúmeras soluções básicas para o problema da falta de perspectiva dessas crianças que há muito tempo só encontram soluções para seus problemas no tráfico de drogas, só quero dizer com isso que o que precisa ser feito é conhecido, mas começar a fazer é um outro assunto, já que falta a vontade em fazer.

Por parte dos políticos é necessário levarem seus eleitores mais a sério e de nossa parte, como eleitores - e obrigados à sê-lo - é hora de sermos menos condescendentes, menos passivos e exigirmos o direito à educação à cidadania.



fonte: Glogo Online

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