domingo, 12 de março de 2006

Rompendo o silêncio

Ingrid Saldanha levou oito pontos no nariz e ficou com o olho roxo porque seu marido se irritou no trânsito e bateu nela. Salma Vilaverde levou um murro no queixo porque comprou um armário sem avisar. Sandra Farias foi espancada porque o companheiro a viu no portão com um primo. Tammy Santiago pediu a separação quando descobriu que o marido estava de caso com uma menina de 16 anos. Ele negou e passou a espancá-la. Tammy apresentou queixa na delegacia e acabou dando a senha para que sua filha adolescente tomasse coragem de revelar que o padrasto abusava dela. Ingrid, Salma, Sandra e Tammy vivem a milhares de quilômetros umas das outras. A primeira no Rio de Janeiro, a segunda a 70 quilômetros de Porto Alegre, a terceira em Olinda, a última em Goiânia. Têm profissões diferentes – jornalista, produtora cultural, funcionária pública, comerciante – e histórias de vida que poderiam jamais se cruzar. O que as reúne nesta reportagem é a decisão de romper o silêncio, o poderoso e cúmplice silêncio que permite a maridos espancadores continuar aterrorizando a vida de milhões de mulheres em todo o mundo.

Pesquisa da Organização Mundial da Saúde divulgada no ano passado mostra que no Brasil 29% das mulheres relatam ter sofrido violência física ou sexual pelo menos uma vez na vida, sendo que 16% classificaram a agressão como violência severa – ser chutada, arrastada pelo chão, ameaçada ou ferida com qualquer tipo de arma. Apesar disso, 25% não contaram a ninguém sobre o ocorrido e 60% não saíram de casa sequer por uma noite em razão da violência. Menos de 10% recorreram a serviços especializados de saúde ou segurança. A experiência internacional nessa área indica que, em média, a mulher leva dez anos para pedir socorro. O filósofo britânico John Stuart Mill (1806-1873) escreveu em seu célebre ensaio A Sujeição das Mulheres que o recurso à força física por parte dos homens era, no fim do século XIX, o único resquício do tempo das cavernas que ainda resistia ao avanço da civilização. É trágico constatar que no começo do século XXI a brutalidade atávica do forte contra o fraco continue a ser tão prevalente na relação dos casais.

As protagonistas das histórias publicadas aqui têm em comum também o fato de pertencer a um grupo social que normalmente considera-se imune a esse tipo de problema. A mulher que apanha, diz o senso comum, é sempre pobre e ignorante, assim como seu marido ou companheiro. Não é o que mostra um cruzamento estatístico produzido especialmente para VEJA pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio de Janeiro. Com base nos boletins de ocorrência registrados nas delegacias fluminenses no ano passado, o ISP revela que 30% das vítimas e dos agressores concluíram pelo menos o ensino médio.

A violência não escolhe a classe cultural ou social da vítima, estudos indicam que a mulher de classe média é capaz de identificar a violência mais cedo, porque tem um nível de instrução que lhe dá acesso a conceitos como agressão psicológica, assédio moral e chantagem emocional. Mas é raro denunciar uma agressão à polícia, devido a vergonha com a repercussão de sua história tanto no círculo familiar como no profissional. Acrescenta-se o mêdo de ser julgada por ter dado "motivos" a seu agressor, que é um dos comentários mais comuns a serem ouvidos por mulheres que se queixam de agressões, sendo muitos deles vindo de outras mulheres. A falta de apoio é extremamente comum, porque ainda a nossa sociedade se baseia no velho ditado de que "em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher".


n.r.: Ingrid Saldanha é esposa do ator da novela "Bang-Bang", Kadu Moliterno

fonte: Veja Online

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