terça-feira, 7 de março de 2006

Arte gótica e celebração de imagens de espíritos

Tate Britain Art Gallery London
"The Nightmare", do pintor Henry Fuseli é destaque da mostra


O poeta Philip Larkin foi o autor da famosa afirmação de que os ingleses descobriram o sexo em 1963, mas uma nova exposição na galeria de arte Tate Britain sugere que tal descoberta se deu bem antes, em 1782, o ano no qual londrinos curiosos se aglomeraram na exposição de verão da Real Academia para examinar com assombro, confusão e deleite a pintura "The Nightmare" ("O Pesadelo"), de Henry Fuseli.

No local, em meio aos usuais retratos e paisagens, o quadro de Fuseli mostrava o corpo prostrado de uma moça adormecida, com um ogro ou íncubo de aparência depravada sentado sobre o seu peito, e a cabeça de um cavalo cego aparecendo ameaçadoramente através de cortinas de veludo vermelho. O que isso poderia significar?

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Demorou uma década até que o chefe da Igreja da Inglaterra procurasse esclarecer as coisas ao denunciar Fuseli como um dos "libertinos da pintura". Fuseli, naturalmente, repeliu a acusação, insistindo que jamais criaria obras para "a multidão excitável".

Mas a verdade é que "The Nightmare" tinha tudo a ver com sexo: com a sua cabeça jogada para trás, e os braços pendendo frouxamente e de forma sensual para fora da cama, a moça certamente sonhava com sexo.

Fuseli também parece ter acrescentado o seu próprio trocadilho. O "mare" de "nightmare" ("pesadelo") é derivado do alemão "mara", que significa um espírito atormentador que aplica pressão sobre o peito de um indivíduo que dorme.

Assim, Fuseli pode ter tido a intenção de fazer uma espécie de gracejo ao retratar juntos o "mara" - o demônio que aparece na pintura - e uma "égua" ("mare", em inglês) na forma de uma cabeça de cavalo. Ah, o material onírico.

"The Nightmare" logo se transformou em uma imagem popular, sendo copiado por outros artistas e reproduzido em pinturas. De fato, uma cópia do quadro foi pendurada na parede do consultório de Freud em Viena. E, atualmente, o original --que foi emprestado para a mostra pelo Instituto de Arte de Detroit - está atraindo novamente multidões como a peça central da exposição "Gothic Nightmares: Fuseli, Blake and the Romantic Imagination" ("Pesadelos Góticos: Fuseli, Blake e a Imaginação Romântica"), que ficará no Tate Britain até 1º de maio.

Não se trata de uma exposição de sexo. trata-se de uma exploração do mundo da fantasia, do misticismo, do horror e da perversidade sexual que encontrou expressão na arte e na literatura na Grã-Bretanha entre 1770 e 1830 e que, alimentado por romances, filmes e mesmo música popular, ficou mais tarde conhecido como gótico.

Na literatura, o trabalho icônico foi o "Frankenstein", de Mary Shelley, em 1818. Nas artes visuais, a tendência se traduziu em pinturas e desenho com temas fortes, homens musculosos inspirados nas figuras de Miguelangelo e ninfas nuas, assim como em uma miríade de fadas e demônios. De uma certa forma, esses trabalhos foram uma reação contra o racionalismo do Iluminismo. E, por um outro lado, eles representaram uma busca por uma mitologia unicamente britânica.

Mais sobre a exposição aqui.
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