terça-feira, 2 de março de 2010

Desculpas


Olhou para o vidro embaciado e fixou o olhar nas linhas que deslizavam na vidraça, sugestionadas pelo som do vento e pelos acordes da chuva, semelhantes às lágrimas que deslizavam tristes pela pele do seu rosto. Lá fora o frio e neve, no seu peito o frio e o gelo. Como acontecia quando era criança, e precisa de um peluche para adormecer, necessitou do seu afecto para naquela noite dormir melhor. Levantou-se descalça, semi-despida e foi invadir o seu habitáculo de papéis e relatórios, projectos e planificações. Entrou a medo, sentindo que profanava com o seu amor, a sua inocência, aquele templo sagrado. Beijou-lhe levemente o cabelo, na esperança que ele retribuísse o afecto e lhe desse um carinho que lhe restituísse a paz. O beijo não veio… a reacção ao toque dos seus lábios, também não. Recuou triste, passo a passo, com o olhar desiludido sobre aquela figura estranhamente humana que se afigurava à sua frente. Observou aquele homem que a cada instante se tornava mais irreconhecível apesar de dividir com ele a mesma casa, a mesma mesa, a mesma cama: envolto na névoa do fumo do cigarro, absorto pela imagem reflectida do computador, mão agitada sobre o rato, a outra esquecida no copo de Whisky (a combinação perfeita de todos os seus vícios). A cinza tomava conta do cigarro e os seus dedos deram dois pequenos toques mecânicos retirando o excesso para o cinzeiro de vidro, repleto de vestígios de outras horas e cigarros mortos. Levou novamente o cigarro à boca seca inalando com prazer o fumo e absorvendo todo o alcatrão e nicotina estimulante. Num suspiro deixou escapar o fumo numa nuvem entrecortada que o envolveu num abraço que deveria ser seu. Desolada com transparência a que era votada, recuou lentamente chocando com a estatueta de mármore. Um olhar irado fulminou-a com uma agressividade cortante de onde saíram palavras afiadas «-És mesmo desastrada, vai dormir.» Correu para o quarto, sem saber se fugia com medo de ser avassalada pela avalanche de lágrimas que se aproximava, se das farpas aguçadas daquela voz. Atirou-se para a cama, mergulhou os soluços que rebentavam na almofada e chorou… chorou pelos sonhos que nunca chegou a concretizar, por todos aqueles que se perderam, pela presença de um homem na sua vida que transformara num estranho, por tudo aquilo que abdicou em prol de uma história de amor. Perguntava a cada lágrima onde é que tinha errado, onde foi que o amor se transformou em indiferença, e quando é que de bestial passou a besta. A fonte das lágrimas secou no momento em que a exaustão se apoderou do trapo velho a que chamava corpo e adormeceu. Mais tarde também ele se entregou ao descanso de uns lençóis macios. Aproximou-se… devagarinho… lentamente… tentando, sem que desse por isso, absorver-lhe o calor. Olhou-a envergonhado, arrependido, e admirou uma vez mais a sua beleza. Deixou que o seu nariz, o perfume que brotava do seu corpo, autorizou os lábios a tocarem a sua boca levemente, numa carícia terna de quem quer dar mais e não sabe como, e sem dar autorização espaçou do mais íntimo de si um «-Desculpa». Os seus sentidos tinham-na avisado que ele chegara à cama, mas como não queria discutir uma vez mais, fingiu que dormia. Sentiu que o seu corpo frio a procurava, desejou ter correspondido ao seu beijo, mas os seus gestos tinham-na abandonado e não lhe obedeciam. Aquele pedido de desculpas apanhara-a incauta, acontecimento inédito, único, cuja probabilidade de se repetir era uma num milhão. O pouco que lhe dava era tanto, na vida qualquer coisa sabe melhor quando se sente a falta, por isso sorriu e rezou baixinho para que ao acordar, o homem que estava deitado ao seu lado, fosse o mesmo com que sonhava todas as noites, o mesmo que um dia conheceu, o mesmo que um dia a amou.


fonte:Blog As palavras que nunca te direi
foto: Alvin Booth

2 comentários:

Maria disse...

Definitivamente tenho que começar a visitar este blogue...
Obrigada pelo caminho que ensinaste, Cris.

Beijinho.

Cris Caetano disse...

De nada. :) Ela escreve muito bem, Maria. Adorei!

Beijinhos

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