domingo, 25 de abril de 2010

À tua procura







"Veio-me hoje uma vontade enorme de te amar. E então pensei: vou-te escrever." Nunca esqueci esta frase de Vergílio Ferreira, que abre o livro, "Em nome da Terra". Agora percebo-a. E escrevo-te. Escrever é também renascer.
Hoje é mais um dia em que pensei em ti. Acho que penso em ti em todas as alvoradas e todas as noites em que apago a luz do candeeiro marroquino, azul turquesa, que tenho junto à cama. Um pensamento, que dia após dia, não perde força. Uma imagem desmedida, ilimitada, excessiva. Faz hoje 6 meses que nos conhecemos. Estavas de branco. Vestias um fato de linho branco. Às vezes as luzes demasiadamente ofuscantes tornavam-no bege. Numa atmosfera de sons inquietos, de cores intermitentes, olhavas-me apertadamente como se já me percorresses há muito tempo. E eu renascia cada vez que tu o fazias. E tu renascias cada vez que eu fugia. Era o nosso renascimento para um qualquer começo que estava a acontecer. Lembravas-me intensidade. Explosão. Imaginação. Soavas a amor novo, fluente e incerto.
Hoje é mais um dia em que pensei em ti. Acho que penso em ti cada vez que vou procurar-te nas pastas criadas para colocar os antigos e-mails, nas frases já lidas e gastas, que limpo do pó. "Queria muito estar contigo agora... há coisas sobre mim que precisas saber... e há coisas sobre ti que eu queria saber. Não te quero assustar. Estou, nem sei bem, um tanto surpreso. Talvez, afinal, seja bom eu viajar. Mas, sim, queria muito ver-te antes." Depois, viajaste e escreveste: "Estavas tão incrivelmente linda no aeroporto - sinto-me um menino ao pé de ti, fico sem jeito. Sinto-me vago e vazio, nem sei bem. Algo me falta. Alguém. Como vou dormir sem o teu abraço?" Essa era a pergunta que também eu fazia enquanto te esperava. E ainda não conhecia o teu abraço, o teu toque, o teu cheiro, o teu beijo. Já renascia. Era a força do sim.
Hoje é mais um dia em que pensei em ti. Acho que penso em ti cada vez que tomo banho, no gota a gota. Cada vez que deixo que as recordações caiam, me lavem e me limpem. Cada vez que a espuma do erotismo me devora. No infinito. O verbo amar alterna num quente e frio com o verbo renascer. Saudades de outrora. Sempre. Saudades rítmicas de te ouvir dizer: "Nada morre ao pé de ti, tudo é flor. Longe de ti, porém, acho que anoiteço um pouco." Noite abraçada na felicidade. Nos esses(S) molhados que pronuncias, carregas e arrastas quando falas. Gosto quando o vento me traz o teu rosto num frio gélido e a tua mão morena, morna me aperta e toca como uma nuvem. Gosto quanto te afundas nos meus olhos. Depois salvo-te desassossegadamente e renasço.
Hoje é mais um dia em que pensei em ti. Acho que penso em ti cada vez que deambulo pelas ruas desalinhadas de Lisboa. Pelos becos do Bairro Alto, que percorremos a pé, pisando poças, como dois turistas. Sem mapas, nem mochilas. De mãos dadas. Dedos enlaçados. Livres, na névoa da cidade. Depois apanho conchas, enfraquecidas de pérolas, na praia onde uma vez almoçámos e nos enchemos de areia. Escrevo o teu nome. Acho que me vais ler. Adiante, gasto o resto das conchas rosadas e escrevo o meu. E parto. Olho uma última vez para aqueles nomes curtos que ficam humidamente desenhados. Volto a passar diante de casas desmaiadas, de prédios outonais com vasos sem plantas, de ruas mais ou menos habitadas. A tua casa amareladamente escurecida e avelhada. Passo quase por ti. A vontade que o teu sorriso me abra a porta. Viro as costas. O pouco sol renascido, que brilha, conforta-me na insuficiência de não estares.
Hoje é mais um dia em que pensei em ti. Hoje é mais um dia em que partimos. Amanhã é mais um dia em que voltamos porque os dias que marcam a nossa história, vão prolongar-se no tempo efémero. Sinto e não esqueço. Nitidamente vejo-te. Endireito-me no sofá domingueiro. Gozo-o. Lá fora, numa montra mais afastada vendem-se viagens. Todos os dias, mesmo ao Domingo, cada vez que olho para a vitrina compro uma viagem. Depois viajo contigo. Pela multidão alheia, pela planície, pelos poetas, pelos teus quadros, por culturas onde não há flautas nem pastores. Não sobra tempo nem silêncio.
Os gregos não escreviam obituários. Quando um homem morria, faziam a pergunta:

"Ele viveu com paixão?"
Que vais responder?


Inês Almeida in blog Sentir Sentido
foto: Susan Burnstein

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