segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Ninguém se envergonha mais

por Martha Medeiros


"As pessoas que frequentam o noticiário não são representantes de toda a sociedade, apenas de uma parcela dela. Mas pela projeção que recebem, ficamos tentados a traçar o perfil do novo homem e da nova mulher baseados em seu comportamento, e é por essas e outras que estamos com a impressão de que a vergonha sumiu do mapa.

Lembro de meus pais dizendo que não era vergonha nenhuma chorar, ter medo ou ter dúvidas. Me instruiam para jamais sentir vergonha de perguntar, pois quem pergunta, diziam eles, pode passar por ignorante uma vez, mas quem não pergunta permanece ignorante a vida inteira. Era sobre essas vergonhas que falávamos em casa, porque roubar, mentir ou se vulgarizar estava fora de pauta. Nossas vergonhas eram inocentes se comparadas com a falta de constrangimento que viria a imperar mais tarde.

A julgar pelo que se vê por aí, alguém ainda sente vergonha? Fazendo um apanhado do que se noticiou nas últimas semanas, dá pra acreditar que as pessoas ainda sintam alguma espécie de pudor? Um presidente do Senado é soterrado por denúncias, seus pares aprovam o arquivamento das investigações e ninguém fica nem vermelho. Um ex-presidente que jamais deu contribuição intelectual ao país e que nunca publicou um livro é empossado numa Academia de Letras e não vê nenhum vexame nisso. Um piloto de Fórmula 1 provoca um acidente de propósito, colocando pessoas em risco e corrompendo o espírito esportivo, e tudo não passa de uma consequência da máfia que rege o esporte hoje: o que antes era saudável, agora só existe para ser rentável.

Dopings, blefes, corrupção, empulhação. Tudo acontece pela falta de hábito de negar-se ao erro. “Não, eu não vou continuar num cargo que desonrei”. “Não, eu não vou concorrer a uma vaga numa entidade que está fora do meu círculo de atuação”. “Não, eu não aceito protagonizar uma farsa, mesmo que meu contrato não seja renovado”.

Danem-se os contratos. Danem-se os holofotes. Danem-se as ambições. Há momentos em que o caráter está em jogo e não se pode negociar.

Lembrei agora, numa escala bem menor de importância, dessa nova onda de se autografar revistas eróticas. Não vejo problema em uma mulher ou homem posarem nus, mas me pergunto se um livreiro não fica encabulado de aceitar que uma ex-BBB, por exemplo, utilize um recinto ocupado por obras de Guimarães Rosa, Machado de Assis e Clarice Lispector para distribuir dedicatórias na própria bunda. Ninguém vê nada de constrangedor nisso? Pelo visto, nada. É apenas a outra face da honradez: assumir o ridículo de seus atos e envaidecer-se deles. Também já não provoca vergonha aparecer na capa de uma revista e dizer que encontrou o amor eterno, e dali a dias deixar-se fotografar com outro amor pra sempre, e na edição seguinte ser flagrada aos beijos com, agora sim, um amor definitivo, e assim ir expondo frivolamente seus enganos quanto à intensidade de suas paixões. É a outra face da honestidade: o recato é que passou a ser condenável.

Como eu dizia, é só uma parcela do todo. Ainda há quem sinta vergonha de se exibir de forma descontrolada, vergonha de aceitar qualquer coisa por dinheiro, essas vergonhas benéficas, que ajudam a manter uma certa moralidade. E no caso de se fraquejar, que ninguém é perfeito, confio que ainda há quem faça um mea-culpa, apague a luz, fale baixo e não coloque o nariz pra fora de casa tão cedo, pois essa é a única face da humildade, creio que não há outra."

. . .


Aqui em casa foi parecido. Me ensinaram a não sentir vergonha em fazer perguntas, e não ter vergonha em chorar não foi necessário, porque sempre choraram na minha frente por vários motivos, então, derramar lágrimas era a coisa mais natural do mundo. Mas falávamos de outras vergonhas, como mentir, roubar ou mesmo sobre o que era vulgar. Também me ensinaram a pedir desculpas pelos erros que provavelmente iam surgir, mas nunca me ensinaram a negá-los, e talvez, por todos estes princípios, eu hoje seja capaz de sentir vergonha alheia.



fonte:Revista do jornal O Globo

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