quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Grafiteiros pixam Paris

por Alê Youssef



Localizada em um grande e moderno prédio em Montparnasse, bairro de alto padrão de Paris, a Fundação Cartier - braço socio cultural da chiquérrima marca de jóias e relógios - destaca-se por financiar e promover grandes exposições de arte contemporânea.

Com filas que dão a volta no querteirão do prédio, o hit do ano da Fundação é a grande exposição que conta a história do graffiti, desde as primeiras intervenções a assinaturas dos “escritores” do metro de New York, passando pela evolução das “tags” e desenhos, influência que tal arte exerceu em artístas como Keith Haring e Basquiat, chegando até hoje em dia quando grafiteiros fazem enorme sucesso no mundo. O brasileiro Vitché é um dos exemplos.

Do ponto de vista histórico, a exposição é uma das mais completas que vi, pois reúne fotos e vídeos de entrevistas com os verdadeiros precursores do graffiti como Joe 182, Snake 1, MICO, Riff 170, Pistol 1, Flint Gennard. Todos eles assinavam seus nomes pelas paredes e vagões do metrô nova iorquino. Era o início da grafia que depois se tranformaria nas letras mais gordinhas que caracterizam as famosas “tags” de hoje em dia. A intervenção era muito parecida com que Juneca, Bilão, Pessoinha e outros “escritores” brasileiros faziam no final dos anos 70, início dos 80.

Outra grande atração da exposição é a maravilhosa porta do banheiro do estúdio de Jack Stewart, professor e artista responsável por documentar e divulgar todo o movimento do graffiti. Durante o processo de criação do seu famoso livro ‘Subway Graffiti: an aesthetic study of graffiti” Stewart entrevistou todos os grandes artístas da época em seu estúdio e a porta de seu banheiro transformou-se em uma verdadeira relíquia da street art mundial, pois reúne 190 assinaturas e tags de 80 dos mais famosos artístas.

Mas ao lado de tanta história, a grande sensação da mostra é paulistana da gema. Com direito a destaque na fachada do fashion prédio da Cartier, work shop para interessados e seções de cinema com vídeos específicos, o que mais atrai o público e gera debate e discussão é a pixacão, que os franceses explicam como termo brasileiro para um tipo de graffitti único em São Paulo.

O pixador convidado foi Djan Ivson da Silva, a.k.a, Cripta, que além da fachada, pixou várias paredes do interior da exposição. Cripta, aliás, foi quem auxiliou João Wainer e Roberto T. Oliveira, no espetacular documentário “Pixo”, que lota a sala de exibição da Fundacão Cartir toda vez que passa. A reação do público às escaladas espetaculares e às cenas de prisão de pixadores é sensacional.

O debate sobre o estilo verdadeiro e “roots” da nova arte que nasce em São Paulo, da sua veia selvagem e por isso mesmo autêntica e da busca pela visibilidade, contagia todos os que passam pela exposição. Jovens, idosos, moradores de Paris, turistas, aficcionados por arte ou curiosos, todos tentam entender esse movimento impressionante que toma conta das ruas e das fachadas dos prédios da capital paulista.

Ao ver tudo isso acontecer foi impossível não sentir uma mistura de orgulho e frustracão. Orgulho pois trata-se de um assunto muito próximo e cotidiano sendo debatido em alto nível dentro de uma respeitável fundação de apoio à arte. Frustração pois sei o quão distante dessa realidade estamos na terra em que todo esse movimento acontece. Em São Paulo, cidade que cada vez mais se afirma como berço de nova arte contemporânea, o poder público e as fundações privadas ainda não olharam como deveriam para a nova arte que todo dia ferve em nosso underground. A Prefeitura ainda apaga obras de OsGemeos, por exemplo.

Acima, foto da fachada com pixo de Crita. Abaixo, as paredes das escadas da Fundação também pixadas.




fonte: Revista TRIP

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