domingo, 26 de setembro de 2010

São Cosme e São Damião






Hoje (na Igreja Católica) é dia de São Cosme e São Damião e é habitual no Brasil, pelo menos aqui no Sudeste, presentearem, no dia 27, crianças com doces. E a propósito de crianças eu me lembrei de uma situação pela qual passei.

Semana passada rumei ao Largo do Machado com minha mãe, que compra alguns docinhos para distribuir nesse dia. Ela, como sempre, sumiu da minha vista e quando dei conta estava no fundo da loja e fui ao encontro dela, nisso apareceu um menino de no máximo 7 anos, muito franzino, um pouco sujo, com o rosto mais triste que eu algum dia vi numa criança e por mero acaso, ou não, naquela loja cheia, ele se misturava às pessoas e chamou a minha atenção, mas não chamou a atenção de nenhum segurança, e sem perceber foi caminhando ao meu lado observando todas as prateleiras, enquanto eu, arrasada com aquela carinha triste, o observava.
Chegamos ao fim da loja, avistei minha mãe e ele ainda sem me ver parou, olhando pro lado oposto ao meu e não resisti. Me abaixei e perguntei-lhe:

- Você quer alguma coisa? Eu compro pra você. E ele, olhou pra mim e assentiu com a cabeça.
- O que você quer? E ele foi até a prateleira que mal alcançava e tentou puxar uma caixa com chicletes, enquanto as outras por cima quase caíam.
- Pode puxar, que eu seguro as outras.
- É pra eu vender, disse ele.
- Tudo bem, vamos ali pagar isso.
No caixa minha mãe perguntou-lhe se não ia comer aquilo.
- Vou sim.
Ainda brincou com a situação, dizendo que era bom que ele não vendesse tudo e comesse vários chicletes, na tentativa de tirar um sorriso do rosto daquele menino, mas não.

Ele agradeceu, saiu com o saco plástico amarelo com a caixa com chicletes pela loja afora sem sorrir. Não me senti bem porque não resolvi o problema dele, não fiz uma boa ação, porque boa ação seria eu ter condições de dar um emprego aos pais desse menino onde pudessem ter um salário decente que lhes dessem uma vida melhor. Tenho consciência de que tive a sorte de nascer numa família que pode pagar colégios bons e caros para mim, além de outras coisas, mas eu poderia ter nascido como aquele menino, apenas tive mais sorte do que ele num país com graves problemas sociais. Mas ao menos, aquele menino triste "matou" uma vontade naquele dia.

As crianças precisam ter seus simples desejos realizados. Paciência se era um doce, paciência se não era um prato de comida que seria bem melhor para alimentar aquela criança. As crianças precisam, além de uma boa refeição, de sonhos, de brinquedos, de desejos fúteis concretizados e aquele menino que não tem nada e vai continuar assim.

Não foi a primeira criança a quem satisfiz uma vontade e infelizmente não será a última, mas que algum dia, pelo menos, eu veja um sorriso no rosto de alguma dessas crianças. Até hoje não tive essa sorte.

. . .


São Cosme e São Damião, os santos gêmeos, morreram em cerca de 300 d.C. Sua festa é celebrada em 27 de setembro. Somente a igreja Católica comemora no dia 26 de setembro pois, segundo o calendário católico, o dia 27 de setembro é o dia de São Vicente de Paulo.

Há várias versões para suas mortes, mas nenhuma comprovada por documentos históricos. Uma das fontes relata que eram dois irmãos, bons e caridosos, que realizavam milagres e por isso teriam sido amarrados e jogados em um despenhadeiro sob a acusação de feitiçaria e de serem inimigos dos deuses romanos.

Segundo outra versão, na primeira tentativa de matá-los, foram afogados, mas salvos por anjos. Na segunda, foram queimados, mas o fogo não lhes causou dano algum. Apedrejados na terceira vez, as pedras voltaram para trás, sem atingi-los. Por fim, morreram degolados.

O dia de São Cosme e Damião é celebrado também pelo Candomblé, Batuque, Xangô do Nordeste, Xambá e pelos centros de Umbanda onde são associados aos ibejis, gêmeos amigos das crianças que teriam a capacidade de agilizar qualquer pedido que lhes fosse feito em troca de doces e guloseimas. O nome Cosme significa "o enfeitado" e Damião, "o popular".

Estas religiões os celebram no dia 27 de setembro, enfeitando seus templos com bandeirolas e alegres desenhos, tendo-se o costume, principalmente no Rio de Janeiro, de dar às crianças (que lotam as ruas dos subúrbios em busca dos agrados) doces e brinquedos.

. . .


Quando eu era pequena, minha mãe cantava pra mim uma música da qual só lembro parte e ela também já não se lembra de toda a letra:

"Cosme, Damião, Doum, Crispim, Crispiniano

Caboclinhos felizes, desta data ainda me lembro

Crispim, Crispiniano, Doum, Doum, vinte e sete de setembro."


2 comentários:

Ana disse...

Já tentei deixar aqui um comentário mas não foi possível.

A tua história deixou-me com um nó na garganta.
Esse menino já perdeu o sorriso, tal como perdeu a infância.
Mas o teu gesto foi terno.
Fizeste o que podias.
Endireitar o mundo não está ao nosso alcance.

Beijinho

Cris Caetano disse...

É, eu sei, Ana... mas acho que nunca mais esquecerei a expressão insuportavelmente triste daquele menino.

Beijinhos

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