terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Patrimônio - Rio de Janeiro

Igreja é restaurada para celebrar os 200 anos da vinda da família real


Nem a poluição produzida em 100 anos pelos veículos que passam pela Rua Primeiro de Março conseguiu obscurecer o encanto da Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, que já foi a catedral da cidade. Sob uma espessa camada de fuligem, sobreviveu em todo o seu esplendor a pintura dourada que adorna a talha e o teto da capela principal.

Essa foi a primeira surpresa para os restauradores que trabalham desde setembro diligentemente na limpeza dos ornamentos do templo. "No teto e na parte mais alta da igreja parece que a pintura foi feita ontem", diz Wallace Caldas, consultor do projeto de restauração, enquanto aponta as delicadas guirlandas e os arcanjos de asas abertas do alto de um andaime, a 15 metros de altura. A limpeza executada por 25 técnicos é uma das primeiras etapas de um extenso programa de restauração orçado em 11 milhões de reais, bancados pela prefeitura. Até março de 2008, quando se comemora o bicentenário da chegada da família real portuguesa ao país, a expectativa é que a Igreja do Carmo recupere a glória dos tempos em que o príncipe regente dom João a consagrou capela real. "O interior sofreu poucas alterações desde o início do século XIX. Queremos recuperar a igreja, deixando-a o mais próximo possível do que ela era nessa época", diz o consultor. Será criado, também, um espetáculo de som e luz para a nave do templo.

O interior da Igreja do Carmo é uma obra-prima do rococó, característico do fim do século XVIII. A historiadora Myriam Ribeiro, da UFRJ, resume sua importância. "A Igreja do Carmo está para o rococó como o Mosteiro de São Bento para o barroco. Se um turista quiser visitar apenas duas igrejas no Rio, são essas duas que ele não pode perder." O barroco, que precede o rococó, é mais dramático e exuberante. Todos os espaços são preenchidos. No rococó, o ouro surge de uma forma mais delicada em guirlandas e em outros motivos decorativos da talha de mestre Inácio, deixando espaços para os fundos claros e desornamentados. Uma das questões com que os restauradores precisaram lidar foi justamente descobrir a cor original das paredes da igreja. "Encontramos um bege escuro e, embaixo dele, uma camada de verde. Mas, depois de mais de 100 prospecções em toda a nave, descobrimos que no início do século XIX o tom usado era o bege clarinho", diz a restauradora Yanara Haas, do Iphan.

Do lado de fora, a situação é diferente. As fachadas sofreram muitas alterações e acréscimos ao longo dos séculos. Apenas o 1º andar da fachada para a Primeiro de Março é original. "O exterior foi construído em um estilo pombalino, mais severo, enquanto o interior é rococó", diz a historiadora Myriam. A torre situada na esquina com a Rua Sete de Setembro, onde está uma escultura de bronze de Nossa Senhora da Conceição, é das primeiras décadas do século XX. Essa torre chegou a ceder e sua estabilidade foi motivo de preocupação. "Fizemos um levantamento estrutural e constatamos que ela está estável, apesar de ter se deslocado 56 centímetros do seu eixo", diz a técnica do Iphan. A restauração da torre e da fachada iniciou-se há dois anos. Agora, é a vez da fachada lateral, muito danificada ao longo dos anos. Muitos elementos decorativos perdidos são reconstituídos em uma oficina no canteiro de obras. A limpeza da fachada lateral também revelou uma curiosidade: os restauradores descobriram que em parte dela foi usada uma pintura semelhante à textura do granito. Isso apesar de a própria pedra ter sido utilizada nas paredes.



A história da antiga Sé é longa, e na semana passada foi iniciada uma pesquisa arqueológica em busca de vestígios em seu subsolo. No primeiro dia de escavações, encontrou-se sob o piso do altar-mor uma moeda de ouro portuguesa datada de 1785 com as imagens de dona Maria e Pedro III. Os pesquisadores agora torcem para encontrar remanescentes da capela original, uma modesta ermida para Nossa Senhora do Ó, erguida no século XVI e cedida para os religiosos do convento do Carmo. Na segunda metade do século XVIII, quando o Rio se tornava a capital e a exploração do ouro de Minas Gerais estava em seu auge, começou a ser construída a igreja. O escultor Inácio Ferreira Pinto posteriormente fez suas talhas. Nos primórdios, só o altar-mor era dourado. "Com a chegada da família real, o restante também recebeu douramento", explica Wallace Caldas.



Dom João designou a igreja como capela real e catedral, condição que se manteve até 1976. Nos moldes da corte portuguesa, ele estimulava o trabalho de compositores como o padre José Maurício Nunes Garcia, um dos pioneiros da música erudita no país. O Carmo serviu de cenário para acontecimentos históricos como o casamento de dom Pedro e Leopoldina da Áustria, em 1817, e da coroação de dom Pedro I, em 1822. Dom Pedro II também foi coroado em seu altar principal, o mesmo local em que a princesa Isabel foi batizada e se casou. O templo guarda ainda parte dos restos mortais de Pedro Álvares Cabral. "Por seu valor histórico, a Igreja do Carmo vai ser o ícone das comemorações dos 200 anos da vinda da família real ao Brasil", diz o secretário municipal das Culturas, Ricardo Macieira, que promete para o ano que vem a publicação de treze livros, duas exposições e um espetáculo na Praça Quinze sobre a mudança da corte portuguesa para os trópicos. Festas e comemorações têm data para se iniciar e acabar. A recuperação da Igreja do Carmo é garantia de preservação de uma relíquia da cidade.


fonte:Veja Online

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