segunda-feira, 13 de outubro de 2008

O Rio... De quem mesmo?

por Ricardo Noblat




Carlos Lacerda, governador do extinto Estado da Guanabara, disse uma vez: "Eu mudo de idéia sempre que encontro uma melhor do que a minha". A frase esperta ganhou uma versão popular também atribuída a ele: "Quem tem idéia fixa é louco".

Ora, mas por que resgato Lacerda? Para falar mal de Eduardo Paes, candidato do PMDB a prefeito do Rio.

Nada demais que Paes tenha pedido desculpas a Lula por chamá-lo de “líder da quadrilha” do mensalão. Na época, era deputado federal do PSDB e membro da CPI que investigou o escândalo.

Nascera para a política na escolinha do professor Cesar Maia. Saltara do PV para o PFL e PTB. Mais tarde, por seu desassombro cívico, foi promovido a secretário-geral do PSDB. Aderiu ao PMDB quando vislumbrou a chance de ser candidato a prefeito do Rio com o apoio do governador Sérgio Cabral.

Ao concluir que fora injusto com Lula, tinha mais era que pedir desculpas. Sabe como é: no calor de uma discussão dizemos coisas das quais nos arrependemos depois. Acontece no âmbito das melhores famílias.

Paes foi um dos poucos políticos que tentaram envolver Lulinha, filho de Lula, com a operação de compra e venda de votos montada pela cúpula do PT. Uma vez que nada restou provado contra Lulinha, seria compreensível que remetesse à mãe dele, dona Maria Letícia, uma carta de retratação. Sabe como é mãe...

O comportamento de Paes só é censurável à luz da oportunidade – ou do oportunismo se preferirem. E é isso que faz toda a diferença.

O mensalão foi denunciado pelo ex-deputado Roberto Jefferson no dia 6 de junho de 2005 – lá se vão três anos, quatro meses e alguns dias.

Em agosto do ano passado, o Supremo Tribunal Federal indiciou 40 pessoas acusadas de fazerem parte da “sofisticada organização criminosa” que quis se apossar de parte do aparelho do Estado. Lula não foi denunciado. Tampouco Lulinha.

Quer dizer: Paes teve tempo de sobra para pedir perdão a Lula, Lulinha e a dona Marisa Letícia. Por que só o fez na semana passada? Por que só agora quando corre o risco de ser derrotado por Fernando Gabeira (PV) no segundo turno da eleição para prefeito do Rio?

Na verdade, o pedido de desculpas e a carta enviada a dona Marisa Letícia foram o preço pago de bom grado por Paes para poder posar alegre ao lado de um Lula visivelmente constrangido. E para que Lula gravasse um vídeo onde cobra votos para ele.

Depois de ter sido humilhado, e de ter-se deixado humilhar, Paes protagonizou um memorável show de cinismo. “Se enviei carta a alguém, é carta pessoal”, esquivou-se. “Não teve nenhum pedido de desculpa”. E por fim “Ninguém quer surfar na popularidade do presidente. Ninguém tem a ilusão de que a população é gado e nem massa de manobra”.

Menos, Paes! Mais respeito à inteligência alheia! Se não lhe interessa tirar proveito da popularidade de Lula por que a foto sorridente ao lado dele e de Cabral? E por que o vídeo?

A eleição carioca está indefinida. A mais recente pesquisa do Instituto Datafolha registrou empate técnico entre Paes e Gabeira com uma minúscula vantagem em favor do último.

Continua de pé a receita infalível do ex-governador Leonel Brizola para se ganhar eleição majoritária no Rio: atraia mais votos na zona oeste e perca de pouco na zona sul.

Paes investe pesado na zona sul, onde Gabeira lhe roubou votos. A zona oeste parece menos refratária a Gabeira do que ele imaginava embora mais receptiva a Paes.

Com 38 anos, Paes foi a novidade do primeiro turno da eleição. A novidade do segundo é Gabeira com 67 anos. Paes saiu na boa da direita para a esquerda. Gabeira ficou mais ou menos onde sempre esteve. A direita foi que se mexeu na direção dele.

Convencido da derrota de Marta Suplicy (PT) em São Paulo, Lula quer fingir que ganhou no Rio se Paes de fato ganhar. Se der Gabeira, José Serra, aspirante à vaga de Lula, dirá – e com razão - que venceu no Rio e em São Paulo.

(Em tempo: espero que Paes não se sinta ofendido com o comentário acima. Se eu concluir que fui injusto com ele, daqui a três ou quatro anos lhe pedirei desculpas.)



fonte:Blog do Noblat

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