terça-feira, 14 de outubro de 2008


Derradeiro Apelo


Estas serão as minhas últimas palavras
aos teus sentidos,
serão o meu apelo derradeiro
Tanto te disse, tanto te escrevi!
Como encontrar agora período preciso,
a perfeita expressão,
para te revelar este silêncio estranho
que me começa a ungir
o exausto coração?!

Vieste-me na hora dadivosa,
na hora imortal
da frutificação:
dei-te toda a doçura dos meus pomos
e voltaste-me as costas
com prazer...
Mas eu bendigo essa tua fome
que saboreou os frutos
que haviam de mais tarde
apodrecer

Foste a montanha azul
que me atraiu os passos;
em cujas arestas agressivas
rasguei meus sonhos,
despenhando-me...

Porém, daqui, da alfombra deste vale
de desfalecimento,
como teus longes me seduzem ainda,
como me apareces belo,
que saudade de ti,
minha montanha azul!
Sou olhos e não tenho visão;
sou boca e tudo me parece insípido;
o meu tato não sente
os espinhos que colhe
na solidão em que me deixaste;
e em vão as rosas da primavera
abrem os lábios
ao meu olfato

Só a tua lembrança
conserva vivo
um pouco do meu ser

Só a tua saudade
prende-me ainda
à beleza da vida

Onde estás?!
Onde estou?!

Sou um corpo
que espera a alma
para acabar de morrer


Gilka Machado
foto: Geoffroy Demarquet

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