segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Sobre Florbela Espanca


Sempre que coloco aqui no Nuvens algum soneto de Florbela Espanca, percebo que a poesia dessa mulher toca fundo a todos, homens e mulheres.

Não sei exatamente em que ano tomei conhecimento de sua obra, mas o primeiro livro que ganhei a seu respeito, foi de minha tia, irmã mais velha de minha mãe que me conhece o suficiente para me dar sempre presentes de sonho; e foi assim que passei a ter o livro "Florbela Espanca - Fotobiografia por Rui Guedes", Publicações Dom Quixote - Portugal e Livraria Paisagem - Brasil. Nesse livro, Rui Guedes reúne fotos (muitas) de Florbela, assim como todos os documentos, lugares e pessoas que estiveram ligados a ela durante toda a sua vida. E como ele próprio ressalta: "...a sua vida, e mesmo antes e depois dela."

Depois desse, ganhei o livro "Florbela Espanca - Sonetos", da Bertrand Editora, de um apaixonado, digamos assim, por mim e por Florbela. Neste livro estão incluídos todos os sonetos publicados em "Livros de Mágoas", "Livro de Soror Saudade", "Charneca em Flor" e "Reliquiae", além do estudo crítico de José Régio, escritor português, nascido em 1901, em Vila do Conde. E é sobre alguns trechos desse estudo crítico que pretendo aqui compartilhar. José Régio começa seu estudo chamando a poesia de Florbela de poesia viva. Então, vamos a isso:

"Literatura viva é aquela em que o artista insulflou a sua própria vida, e por isso mesmo passa a viver de vida própria. Sendo esse artista um homem superior pela sensibilidade e inteligência, e pela imaginação, a literatura viva que ele produza será superior; inacessível, portanto, às condições do tempo e do espaço. Ora, não é verdade que perfeitamente se ajusta o essencial destes dizeres à obra de Florbela?
Eis o que desde o início pretendo frisar: a obra de Florbela é a expressão poética de um caso humano. Decerto para infelicidade da sua vida terrena, mas glória do seu nome e glória da poesia portuguesa. Florbela viveu fundo esses estados quer de depressão, quer de exaltação, quer de concentração em si mesma, quer de dispersão em tudo, que na sua poesia atingem tão vibrante expressão. Mulheres com talento vocabular e métrico para talharem um soneto como quem talha um vestido; ou bordarem imagens como quem borda a missanga;..."

"Mas voltemos atrás: ao tempo em que Florbela nascia e nascia Mulher. Donde vinha, vindo a este mundo? Mais tarde se revelará na sua poesia, como uma verdadeira intuição obsessiva e não o capricho literário que também é, o pós-sentimento de ter vivido em outros mundos, em outras vidas, em outros países: de ter sido não só quaisquer das figuras romanescas sonhadas pela fantasia dos poetas ou vitralizadas pela história e a lenda - princesa, infanta, monja - mais ainda árvore, flor, pedra, terra; senão nuvem, som, luz..."

"Impossível lermos Florbela Espanca sem reconhecermos uma sua inquietação, uma sua insatisfação, que vão se manifestando como irremediáveis. Foi ao que chamei a sua insaciabilidade. A princípio, ou de longe em longe através de toda a sua obra, decerto ainda alvorecerem os sonhos e as expectativas, ou chispam as rubras horas de sensualidade feliz, ou resplandecem momentâneos oásis de orgulhosa plenitude. Muito poderosos (ou muito violentos) são os instintos pagãos de Florbela. Ainda bem que se não temeu ela de os cantar em versos de admirável intensidade!"

"Numa personalidade contraditória e rica (pelo menos aparentemente contraditória), e 'sendo a si tão contrário o mesmo amor' segundo Camões, decerto seriam compreensíveis tais fluxos e refluxos do sentimento, tal diversidades de atitudes, se novos dados não viessem reforçar a hipótese que estou desenvolvendo: impossibilidade de Florbela achar satisfação no amor. Um é esse mistério do desencontro que já impressionou Jorge de Sena. Versos como aqueles - os mais ardentes ou os mais espirituais - que ora realmente são, ora só o parecem, de encontro amoroso, várias outras poetisas os escreveram; embora sem a superioridade literária dos de Florbela. Já de modo nenhum me parecem correntes versos como estes:

Tens sido vida fora o meu desejo
E agora, que te falo, que te vejo,
Não sei se te encontrei ... se te perdi ...


ou:

Deus fez-me atravessar o teu caminho ...
- Que contas dás a Deus indo sozinho,
Passando junto a mim, sem me encontrares?


ou:

E eu ando a procurar-te e já te vejo! ...
E tu já me encontraste e não me vês! ...


E entre muito mais sobre Florbela Espanca, José Régio termina o seu estudo crítico com as seguintes palavras: "O seu nome é hoje glorioso, e a sua glória não é das que duram o dia em que nascem".

. . .


"É esta a história da minha tristeza. História banal, como quase toda a história dos tristes." - Florbela Espanca



fonte:"Flobela Espanca - Sonetos", Bertrand Editora

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