segunda-feira, 26 de novembro de 2007


Plano


Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor que se despeja no copo da vida, até meio,
como se o pudéssemos beber de um trago.
No fundo, como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na boca.
Pergunto onde está a transparência do vidro, a pureza do líquido inicial,
a energia de quem procura esvaziar a garrafa;
e a resposta são estes cacos que nos cortam as mãos,
a mesa da alma suja de restos, palavras espalhadas num cansaço de sentidos.
Volto, então, à primeira hipótese. O amor.
Mas sem o gastar de uma vez, esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.


Nuno Júdice
imagem: Amoureux-de-Vence, de Marc Chagall

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