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segunda-feira, 11 de abril de 2011

por Eugenio





Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Eugénio de Andrade

. . .


Eu estou bastante angustiada nesta semana, mesmo cansada, cansada da incompreensão do ser humano. Não aconteceu nada relativo a mim, mas e daí? Não devo me importar?

Percebo o ser humano criticando, debochando, cheio de razão, agindo como o dono da verdade. Se fazendo ele próprio de vítima sem perceber que ele age da mesma forma que o outro que é alvo de sua crítica. Falta compreensão e falta auto-análise em tudo.

Estou cansada e perdendo a fé num mundo melhor.




sexta-feira, 1 de abril de 2011

Lembrando Jorge de Sena






Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como só a presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?
Diz-me asim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.


Jorge de Sena


fonte:Copiado de minha amiga, Ana Paula Barros
foto: Olgun Yürekler

segunda-feira, 21 de março de 2011

Quintana, para começarmos bem a semana

Das Utopias





Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!



Mario Quintana
foto:Nayda Mason

segunda-feira, 14 de março de 2011

Aguaviva






Qué cantan los poetas andaluces de ahora?
Qué miran los poetas andaluces de ahora?
Qué sienten los poetas andaluces de ahora?
Cantan con voz de hombre pero, dónde los hombres?
Con ojos de hombre miran pero, dónde los hombres?
Con pecho de hombre sienten pero, dónde los hombres?
Cantan, y cuando cantan parece que están solos
Miran, y cuando miran parece que están solos
Sienten, y cuando sienten parece que están solos
Qué cantan los poetas, poetas andaluces de ahora?
Qué miran los poetas, poetas andaluces de ahora?
Qué sienten los poetas, poetas andaluces de ahora?

Y cuando cantan, parece que están solos
Y cuando miran , parece que están solos
Y cuando sienten, parece que están solos
Y cuando cantan, parece que están solos
Y cuando miran , parece que están solos
Y cuando sienten, parece que están solos
Pero, dónde los hombres?

Es que ya Andalucía se ha quedado sin nadie?
Es que acaso en los montes andaluces no hay nadie?
Que en los campos y mares andaluces no hay nadie?
No habrá ya quien responda a la voz del poeta,
Quien mire al corazón sin muro del poeta?
Tantas cosas han muerto, que no hay más que el poeta
Cantad alto, oireis que oyen otros oidos
Mirad alto, vereis que miran otros ojos
Latid alto, sabreis que palpita otra sangre
No es más hondo el poeta en su oscuro subsuelo encerrado
Su canto asciende a más profundo,
Cuando abierto en el aireya es de todos los hombres

Y ya tu canto es de todos los hombres
Y ya tu canto es de todos los hombres
Y ya tu canto es de todos los hombres
Y ya tu canto es de todos los hombres

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Como?







Sardônico sorriso com bruxismo
Teus dentes caem como grãos de arroz,
Não há dor maior que o teu niilismo
Já não sabes se é teu fim atroz.

Punhos serrados com testa franzida,
Goela seca pela aleivosia,
Estóico dromedário da tua vida,
Corcunda prenhe de tua teimosia

Lutar já não consegue, moribundo!
Pedir ajuda já não tem ouvido.
As drogas já não mais surtem efeitos.

Como chegou até ali sem dentes
Com a cara de um ser bicho sem sementes?
Insana sanidade sem direitos.



Cristiano Melo in blog Braços Abertos
foto:Olgun Yürekler

segunda-feira, 20 de julho de 2009



aqui tens a minha sede. as águas dos rios
somente satisfazem a urgência maior
e nada diz de ti esse líquido que a sede sacia:
queria beber-te nas ondas do teu ciúme
e despedaçar-me no desejo dos teus lábios
queria alcançar a nuvem e colher a rebeldia
das gotas exaltantes dos teus beijos
queria a ribeira da tua pele como a água
que rebenta das fontes
e unidos na mesma sede alcançar o êxtase
na cintilação dos mesmos horizontes
queria o incêndio escrito na mesma sede
e morrer no martírio de doçuras de amante

aqui tens a minha sede: fogo e água da tua boca
ardendo no azul duma água murmurante.


Bernardete Costa
foto: Philippe Pache

terça-feira, 14 de julho de 2009



Este amor que nos jorra - jorra e queima
em paixão que flutua ou já guerreia
contra si próprio se tornado cinza,
contra o destino se tornado areia...

Este amor é dilúvio - é fora e dentro
mesmo se sabendo que é candeia
a esmorecer em bruma, ao fogo lento
de nos deixar a dor quando se enleia

à nossa desrazão, ao fim do entendimento,
à ambígua amarração de luz e de tormento
nestas bolsas de sal às vezes cheias.

Este amor é de carne - é foz patente
de um rio sempre a crescer, sempre na esteira
do que tão perto está mesmo se ausente.


João Rui de Sousa
foto: Brigitte Carnochan

quinta-feira, 9 de julho de 2009


Porque


Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.



foto:Simona Andrei

sexta-feira, 3 de julho de 2009



há muito tempo,... imaginei a tua vinda...
... quando me chamaste pela primeira vez,... e me disseste: prepara o caminho para o meu rosto. abre-te de par em par, como se fosses uma enorme folha de uma planta carnívora, distende-te todo como um animal dócil e devorador,...
assustas-me por me quereres assim,... interrompes um pacto antigo que fiz com esta vida cómoda: a de poder sobreviver em troca de um pouco de ternura, das refeições às horas,... na certeza de estar construindo a obra que esperam de mim. tu vens de súbito tratar-me como...
...dizer-me que tudo começa agora, que deixaste crescer os cabelos para mim,...
como pudeste saber que era eu a pessoa certa? e sê-lo-ei?... como pudeste adivinhar que atravessei desertos,...? não receias a minha voracidade, este apetite...?
eu sei,... estou aqui porque tu me insinuaste que querias possuir o meu olhar, com uma determinação clandestina...


Vitor Oliveira Jorge
desconstruído por O'Sanji e por Euzinha
foto: Gerdana Lozanova

sexta-feira, 26 de junho de 2009



Ó que imenso dissipar
por assim gostar de tudo.

Com o meu ser estendido,
tenso ao apelo do mundo,
pulsando seu movimento
vou erguendo esta prisão.

Os pés retidos, imóveis,
pelos choques de atração
com a alma paralisada
contendo tanta largueza
e aspectos de vastidão.

Por que ter tantos sentidos,
o sentimento tão apto
e o coração vulnerável?

Por que o sentir sem repouso
num sentir que é um rapto,
exausto de comunhão?

Uma pobreza qualquer,
pobreza em voz, em beleza,
em querer, em perceber,
uma pobreza qualquer
onde eu possa enriquecer.


Lupe Cotrim
foto: Nicola Novotny



Sou voraz não me apego
ao abrigo da alma

Sou o corpo o incêndio
só o fogo
me acalma


Maria Teresa Horta
foto: Victor Zamanski

quinta-feira, 18 de junho de 2009



A última vez que te vi não te vi
prometi que sim que serias o sempre
o outro que me faz outra que me remete o troco de nenhuma troca
o reverso do verso que não escreves
a carta que não chega porque tu chegas de repente
quando só te espero pelo fim da tarde
e tu vens ao romper da noite
manso e sereno cheio de palavras esquecidas
no quarto de hotel onde sempre te vi e nunca te prendi

a última vez que te vi
foste o único que perdi
perdidos os laços
achados os compromissos
identificadas as teias
certas as redes
os trilhos de uma estrada que te afasta
que nos afasta.

e prometi-te um romance
uma "casa" cheia de água
uma cascata de imagens
a enorme metáfora que tu alinharias pelo fio da voz
pela cor dos quadros
pelo azul azul que um dia te amei.

a última vez que te vi
partias.
como sempre. sempre em despedida obediente.
certo e eficaz tomaste o caminho do vento
e por lá te demoras em letras e títulos e retratos
cinzentos, não como tu, que és de luz
mas como eu fiquei da última vez que te vi
ausente
batida pelas folhas em branco
apagada no cinzeiro
e sempre de frente para o rio.
a última vez que te vi
fizeste-me em flor.


Isabel Mendes Ferreira
foto: Szara Reneta

terça-feira, 16 de junho de 2009



podes colher de mim
tudo quanto precisares
alimento-me só de saudade
um corpo que deixou de tremer por mim
suar por mim
em todas as superfícies
a dor que causa é só comparável
ao prazer que foi quem de gerar


Alberte Momán
foto: William Ropp

domingo, 7 de junho de 2009



Aquele que o meu coração ama
ergueu-se do meu leito e nele esqueceu
as repetidas promessas de um regresso
em que aos meus olhos ensinaria
a única maneira de esconder
o prenúncio de invisíveis desertos

aquele que o meu coração ama
afogou em noites de leite e mel
o rasto dos oásis que
teciam a sede do desejo no meu peito
e bebeu neles as horas de um destino que
me acenava de muito longe

aquele que o meu coração ama
partiu às cegas sem descobrir
as húmidas palavras que se espalham
à sombra dos ciprestes
contando os minutos que faltam
para a vertigem do corpo onde o aguardo


Alice Vieira
foto: Susan Burnstein

quarta-feira, 27 de maio de 2009



Tengo miedo de verte
necesidad de verte
esperanza de verte
desazones de verte.
Tengo ganas de hallarte
preocupación de hallarte
certidumbre de hallarte
pobres dudas de hallarte.
Tengo urgencia de oírte
alegría de oírte
buena suerte de oírte
y temores de oírte.
o sea,
resumiendo
estoy jodido
y radiante
quizá más lo primero
que lo segundo
y también
viceversa.


Mario Benedetti
foto: Jana Stolzer

segunda-feira, 25 de maio de 2009



Para que o encontro se prolongue
na ausência do nosso cruzar
de dedos,
há uma celebração quotidiana
do teu nome fora da minha boca.
Chamo-te como se de perto
me ouvisses, é só um murmurar
fugidio para que aqui te quedes.


Lidia Martinez
foto: Elena Retfalvi



quarta-feira, 20 de maio de 2009



Estou à tua espera.

Estou sempre à espera
De esse outro
Que me consome
Que me enche de sonho
E controvérsia.

O outro é TU-EU
Paradoxal oxímoro
Impossibilidade ansiosa.

Amar é uma tempestade de areia
Uma bruma vítrea.

Não menos que Penélope
Espero
Vagarosa e muda
Em minhas tarefas.



Ana Hatherley
foto: Jim Presley

segunda-feira, 18 de maio de 2009


... aquele que o meu coração ama
partiu às cegas sem descobrir
as húmidas palavras que se espalham
à sombra dos ciprestes
contando os minutos que faltam
para a vertigem do corpo onde o aguardo


Alice Vieira
foto: Brigitte Carnochan
blog Plan(o)alto

quarta-feira, 13 de maio de 2009



Belo é o amor


Pode o amor ser apenas um momento

intensamente vivido sofrido chorado

Pode o caminho ser íngreme e duro

o difícil é fácil se a dois caminhado

Pode o rio mudar o rumo e nascer na foz

percorrer os montes e no silêncio desaguado

Podemos dar-nos as mãos e assim abraçados

Caminhar para o futuro sem esquecer o passado...

Belo é "o amor feito caminho em nós, no silêncio"...




Maria in O Cheiro da Ilha
foto: Andreas Heumann



Vem ver-me antes que eu morra de amor — o sangue
arrefece dentro do meu corpo e as rosas desbotam
nas minhas mãos. Da minha cama ouço a tempestade
nos continentes; e já quis partir, deixar que o vento
levasse a minha mala por aí; fiz planos de correr mundo
para te esquecer — mas nunca abria a porta.

Vem ver-me enquanto não morro, mas vem de noite —
a luz sublinha a agonia de um rosto e quero que me recordes
como eu podia ter sido. Da minha cama vejo o sol
tatuar as costas do meu país; e já sonhei que o perseguia,
que desenhava o teu nome no veludo da areia e sentia
a vida pulsar nessa palavra como um músculo tenso
escondido sob a pele — mas depois acordava e não ia.

Vem ver-me antes que morra, mas vem depressa —
os livros resvalam-me do colo e o bolor avança
sobre a roupa. Da minha cama sinto o perfume das folhas
tombadas nos caminhos. O outono chegou. E o quarto
ficou tão frio de repente. E tu sem vires. Agora
quero deitar-me no tapete de musgo do jardim e ouvir
bater o coração da terra no meu peito. Os vermes
alimentam-se dos sonhos de quem morre. E tu não vens


Maria do Rosário Pedreira
foto: Alin Ciortea

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