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sábado, 18 de julho de 2009



Para que o encontro se prolongue
na ausência do nosso cruzar
de dedos,
há uma celebração quotidiana
do teu nome fora da minha boca.
Chamo-te como se de perto
me ouvisses, é só um murmurar
fugidio para que aqui te quedes.


Lídia Martinez
foto: Nicola Novotny

sexta-feira, 26 de junho de 2009



Ó que imenso dissipar
por assim gostar de tudo.

Com o meu ser estendido,
tenso ao apelo do mundo,
pulsando seu movimento
vou erguendo esta prisão.

Os pés retidos, imóveis,
pelos choques de atração
com a alma paralisada
contendo tanta largueza
e aspectos de vastidão.

Por que ter tantos sentidos,
o sentimento tão apto
e o coração vulnerável?

Por que o sentir sem repouso
num sentir que é um rapto,
exausto de comunhão?

Uma pobreza qualquer,
pobreza em voz, em beleza,
em querer, em perceber,
uma pobreza qualquer
onde eu possa enriquecer.


Lupe Cotrim
foto: Nicola Novotny

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009


Se eu soubesse escrever como tu

e os trilhos me levassem a ti

rasgaria a minha alma, e a nu

deixaria meus olhos por aqui


No silêncio da noite me retiro

e no vai e vem de todas as marés

és tu, sempre tu, que eu respiro

no mar que me vem beijar os pés


Se as tuas palavras me ouvissem

e não me atirassem para a morte

talvez o choro fogo me impedisse

a viagem que faço para norte


Maria
foto: Nicola Novotny

sexta-feira, 1 de agosto de 2008



Nem os dias longos me separam da tua imagem.
Abro-a no espelho de um céu monótono, ou
deixo que a tarde a prolongue no tédio dos
horizontes. O perfil cinzento da montanha,
para norte, e a linha azul do mar, a sul,
dão-lhe a moldura cujo centro se esvazia
quando, ao dizer o teu nome, a realidade do
som apaga a ilusão de um rosto. Então, desejo
o silêncio para que dele possas renascer,
sombra, e dessa presença possa abstrair a
tua memória.


Nnuno Júdice
foto: Nicola Novotny

segunda-feira, 12 de maio de 2008


Cantares do Ofício de Cantar

III



Se queres saber onde começa e onde acaba a tua vida,
não procure à superfície dos dias
nem no trabalho onde consomes
pétala a pétala
a flor do tempo.
Se queres saber onde repousa a tua vida
as margens,
ah, busca as margens do dia.
Levanta as franjas da madrugada – pálpebra –
e debruça-te sobre o poço,
sobre a fonte que alimenta o rio – olho d’água.
Ali, no miolo do tempo,
nas esquinas da noite,
nos degraus da ventania,
encontrarás teu coração
pulsando amargo e alegre
no escuro.


Lucia Fonseca in Diversos Afins
foto: Nicola Novotny

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