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terça-feira, 26 de outubro de 2010

Palavras






Escolhe-me o caminho da saudade
E um sorriso anuncia-te em meus lábios
Trazendo-me todos os sóis
Que me iluminam em teus olhos
Desato-me de qualquer solidão
Envolta pelo abraço que ainda te guarda
Demora-se o meu pensamento em ti
Quando a manhã despede-se da última hora
Mira-me um céu colorido por todo azul
Enquanto uma brisa assobia-me lembranças
Folheando as páginas em que me escreveste
Com o idioma das tuas mãos
Escuta-se um silêncio em meu olhar
Quando vens ao meu encontro
E repetimos as palavras jamais esquecidas...


Fernanda Guimarães
Philippe Pache

quarta-feira, 3 de março de 2010

Esta noite



Esta noite
no silêncio destas paredes sombrias
cheias de palavras consumidas
a lua dança com gestos de encantamento
e as estrelas sorriem de prazer

Esta noite
invento-te nesta distância magoada
onde as palavras repousam
nos lábios ausentes que riem e se alimentam
de sabores sonhados

Esta noite
arde uma fogueira de nostalgia
e o mistério absorvente da tua luz
entra em mim mansamente

Aqui
longe de ti e de tudo
sinto-me bem dentro de ti
e deixo-me ficar


António Sem
foto: Philippe Pache

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Além do olhar


Preciso que me olhes nos olhos
Que me decifres em ti
E me sintas, além do toque

Preciso que me olhes nos olhos
Que te deites desperto em mim
E me proves, além dos beijos

Preciso que me olhes nos olhos
Que te atires em meus braços
E me bebas, além dos meus cheiros

Preciso que me olhes nos olhos
Que me dedilhes com os dedos do coração
E me encantes, além dos desejos

Preciso que me olhes nos olhos
Que me dispas em teus lábios
E me conheças, além das palavras

Preciso que me olhes nos olhos
Que me arranques suspiros e tremores
E teu gosto fique em mim, depois do amor...



Fernanda Guimarês

segunda-feira, 20 de julho de 2009



aqui tens a minha sede. as águas dos rios
somente satisfazem a urgência maior
e nada diz de ti esse líquido que a sede sacia:
queria beber-te nas ondas do teu ciúme
e despedaçar-me no desejo dos teus lábios
queria alcançar a nuvem e colher a rebeldia
das gotas exaltantes dos teus beijos
queria a ribeira da tua pele como a água
que rebenta das fontes
e unidos na mesma sede alcançar o êxtase
na cintilação dos mesmos horizontes
queria o incêndio escrito na mesma sede
e morrer no martírio de doçuras de amante

aqui tens a minha sede: fogo e água da tua boca
ardendo no azul duma água murmurante.


Bernardete Costa
foto: Philippe Pache

segunda-feira, 13 de abril de 2009



Não me fales de incêndios da alma,
Nem da linguagem dos amantes.
Antes, prova dos meus olhares
Do amor que só se sabe em ti.
Já me disse incontida, desmedida,
Quando sequer te percebes em mim.
Deixa que me confesse inteira,
Muito além da voz que supões.
Estou farta de emoções sussurradas
Pronunciadas no peito como cristal
Quero-te antes de qualquer palavra
Na entonação que apenas tu adivinhas

Não me digas de qualquer alvorecer
Onde não me trazes o sol, a ternura.
São teus olhos que me despertam
E me oferecem o aroma da vida.
É a doçura inquieta das tuas mãos
Néctar que veste os meus sonhos.
O dia que vejo é este em que me tomas
Quando vens antes de mim e dos sentidos
Quando me confidencias tuas saudades
E os caminhos em que me levaste
Em tuas ausências consentidas.

Não me fales de aritméticas
Dessa memória incisiva do tempo.
Meu coração desconhece algarismos
E contagens que afastam e distanciam.
Prefere-se a juntar passos, estradas
Desaprendeu dos números, da lógica
Entende-se somente em interseções
Compreende que pontos podem ser ligados
E assim, abraça-se descobrindo retas
Somando urgentes encantos e afinidades.

Não pressuponhas as rasuras de minhas dores.
Nada sabes dos abismos dos meus silêncios,
Quando o sentir é açoite pelo não expresso.
Tenho marcas palpáveis, cuja agonia e soluço
Só me sabe o escuro em que mergulho.
Apenas adentra as portas que te abro.
Anda devagar, como se deitasses em pétalas.
Não me peças para diluir na taça do impossível
Os sonhos, os desejos, os tolos tremores
Que transbordam insones em luas prateadas.
Não me ofereças o véu do comedimento
Para cobrir a alma, a carne, os sentidos

Sim, continuarei a te fazer versos,
Ainda que te conjugue imperfeitamente
Neste meu desassossego de letras,
Tropeçando em rimas, ébria de metáforas.
Mesmo que não alcance o lume dos teus sonhos,
A profundidade do que tua alma abriga,
Deixarei o eco deste amor que me guia
Na fragrância do dizer da minha poesia.
Bebo-te nesta taça até o último trago
Onde vezes te derramas quase meu...


Fernanda Guimarães
foto: Philippe Pache

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