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segunda-feira, 10 de agosto de 2009

III


amanheci ao meio do dia
vesti-me de pomba de incenso e mel
rasguei as cartas os poemas e os pulsos
abri as janelas e voei no dorso de um beijo definitivo

amei-te. sem adeus nem flores.
a montanha chamava por mim
e os meus cabelos já eram neve.

na sala fica um recado de begónias
e o último sinal da tua boca na minha saia.


Isabel Mendes Ferreira
imagem: Andreas Heumann

II



a tarde avança em lençóis de fumo
e tu não bates à minha porta.
enrolo um cigarro de lume para acabar com a dor.
tenho os ouvidos lá fora e o corpo atento

o meu coração é um bandido sem navio nem marés
perdidos os mastros não sabe gritar.

por isso sou apenas um retrato
sem perfil nem disfarce.

a tarde é uma égua e a tua demora uma navalha.



Isabel Mendes Ferreira
foto: Angelicatas

I


trago no peito uma saudade antiga
eterno segredo de embalar a ternura num berço de névoa

tenho um pomar que não cheiro
e uma música que não decifro

lá fora mora o medo e uma guitarra despenhada

trago no peito a saudade citrina de amar.


Isabel Mendes Ferreira
foto: Tommy Edwards

quinta-feira, 18 de junho de 2009



A última vez que te vi não te vi
prometi que sim que serias o sempre
o outro que me faz outra que me remete o troco de nenhuma troca
o reverso do verso que não escreves
a carta que não chega porque tu chegas de repente
quando só te espero pelo fim da tarde
e tu vens ao romper da noite
manso e sereno cheio de palavras esquecidas
no quarto de hotel onde sempre te vi e nunca te prendi

a última vez que te vi
foste o único que perdi
perdidos os laços
achados os compromissos
identificadas as teias
certas as redes
os trilhos de uma estrada que te afasta
que nos afasta.

e prometi-te um romance
uma "casa" cheia de água
uma cascata de imagens
a enorme metáfora que tu alinharias pelo fio da voz
pela cor dos quadros
pelo azul azul que um dia te amei.

a última vez que te vi
partias.
como sempre. sempre em despedida obediente.
certo e eficaz tomaste o caminho do vento
e por lá te demoras em letras e títulos e retratos
cinzentos, não como tu, que és de luz
mas como eu fiquei da última vez que te vi
ausente
batida pelas folhas em branco
apagada no cinzeiro
e sempre de frente para o rio.
a última vez que te vi
fizeste-me em flor.


Isabel Mendes Ferreira
foto: Szara Reneta

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