terça-feira, 11 de outubro de 2005


Era uma vez ...

Era uma vez uma menina. Todas as noites se sentava à janela.
O rosto pequeno apoiado nas mãos pequenas. O rosto pequeno dentro de uma concha mãos.
Todas as noites procurava a lua. E à lua dizia de sonhos e desejos.


Quando a lua não era inteira, quando se fechava em quartos, pedia desejos pequenos do tamanho da lua e contava de pequenas aventuras que queria ter.
E os sonhos eram breves.
Quando a lua estava cheia, plena, brilhante, pedia desejos grandes, desejos do tamanho do mundo que queria ver.

Desejos do tamanho dos passos enormes que queria dar.
E o sonho era enorme, grande como a pessoa que queria ser.
Nessas noites a lua brilhava mais. E guardava desejos e sonhos e mais cheia ainda ficava.
Quando a lua era nova, transparente, guardava os sonhos, calava-os.
Não iria contar desejos e sonhos a uma lua papel transparente, vidro fino, que se quebraria quando os sonhos a tocassem e quebrando-se os quebraria.


- Escreve os teus sonhos, disse-lhe uma noite a mãe, a lua não se lembrará deles quando mudar de quarto. Toda a gente pede desejos à lua.
Mas se os escreveres, nunca se apagarão. Uma folha branca não esquece as palavras que a tornaram página. E mais tarde devolver-te-á palavras e sonhos como se os tivesses sonhado naquele instante.


E encheu folhas e folhas de sonhos. E virou costas à janela e à lua.
E os sonhos eram todos grandes porque o branco da folha é sempre igual.
Não havia pausas nos sonhos porque nenhuma folha é transparente e todos os desejos são sonhos que noutra página se realizam.
E nenhum se quebrava. Porque não ditos. Porque escondidos em folhas.


Muito tempo passou fora da janela da menina.
Um dia, olhou em volta, e viu-se fechada num quarto forrado de cadernos empilhados. Cadernos que formavam paredes. Paredes de cadernos que forravam paredes de cadernos.
Procurou um espelho e viu os olhos de uma criança num rosto de gente grande. Um rosto cheio de rugas que não reconheceu.
Rodeara-se de tantos sonhos escritos. Vivera tantos sonhos em folhas que tornara páginas, que fora da janela o tempo passara e esquecera-se de o viver.

Encandescente
"Retrato de Denise" - Candido Portinari

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