terça-feira, 31 de outubro de 2006

Resposta ao comentário da Fernanda

Para que meus dois leitores não se sintam "perdidos" neste post, explico que Fernanda, um nome que tanto pode ser real ou fictício como também é difícil afirmar que seja de um homem ou de uma mulher - "coisas" da internet... -
fez um comentário duro a respeito do povo português no post onde dou a notícia de que em 2008 será criado o Museu Mar de Língua Portuguesa em Lisboa.


Olá Fernanda, boa tarde!

Espero que a tua raiva e nojo sejam por você ter sofrido algum desgosto com um português ou uma portuguesa e com isso - nem assim, para mim, desculpável - tenha ganho um verdadeiro horror a tudo que tenha relação com Portugal, caso contrário é mesquinho. As tuas palavras são totalmente preconceituosas. E preconceito é coisa que me causa asco!

Não te conheço, não sei se teu nome é realmente Fernanda, se é mulher, idade, se é do Rio, de Pernambuco, Bahia, São Paulo etc, nada! Parto do princípio que você é tão brasileira quanto eu sou, e por isso sinto muito que um país que propaga tanta liberdade, tanto de atitudes quanto miscigenação como o Brasil, que é tão democrático a ponto de reeleger um presidente cujo staff está totalmente envolvido em corrupção, possa ainda em pleno séc. 21 ter idéias tão tacanhas, tão retrógradas da sua parte, Fernanda, com relação a outros povos, neste caso, aos portugueses.

Acredito que você se nivela a estes mesmos portugueses a que se refere no comentário - além de eu ter a certeza que são uma minoria pouco culta e inteligente dos mesmos - que afirmam que nosso português é tão mal falado quanto escrito e que "nos" chamam de macacos etc e tal... enfim, até na culta França existe quem não saiba qual é a capital do Brasil, mas isso você não deve nem imaginar.

Você não deve ter conhecimento da quantidade de cantores brasileiros que vendem discos e fazem anualmente shows em Portugal sempre com casa cheia. Nesse mês, Chico Buarque, que não acho que fale assim um português tão diferente do meu se apresenta em Lisboa, ingresso caro e um montão (montão soa feio, mas existe no nosso português-brasileiro) de portugueses e portuguesas estão lá, assistindo o nosso Chico. Esse "povinho português", como você diz, prestigia o artista brasileiro.

E livros? Você tem idéia do número de escritores brasileiros que são lidos em Portugal além do Paulo Coelho? E admire-se! Brasileiros aqui, sim, Fernada. Em terra brasilis consomem livros de autores portugueses, além de autores cabo-verdianos, angolanos etc. Você algum dia leu alguma notícia sobre a Feira Internacional de Literatura de Paraty? Estes não tem nojo nem ódio como o seu.

Se a ministra portuguesa recusou comparações com o nosso museu, é problema dela e do jornalista da agência lusa que a entrevistou - em bom português - com a intenção de gerar polêmica e conseguiu, pelo menos deste lado do Atlântico. Não só acredito como tenho de te informar que o enfoque do museu português será certamente diferente do nosso, a nossa cultura é bastante diferente apesar de termos a mesma língua. E é esse o grande barato de existirem portugueses, russos, chineses, franceses, japoneses, alemães, iraquianos, brasileiros etc. A diferença cultural! Caso contrário para que sair daqui para ali? Que enfadonho um mundo tão igualzinho de costumes, idéias, sabores, cores. Chato, Fernanda, muito chato!

Quem sai ganhando e para mim é o mais importante, é a língua portuguesa. A minha, a sua, a dos portugueses e de alguns povos africanos. Pela sua beleza e riqueza, a língua portuguesa merece ser conhecida e reconhecida em toda a parte do mundo e não apenas em São Paulo. O povo português ganha um museu que deve existir em qualquer país de língua portuguesa.

E existe palavra com mais significado e sentimento que saudade? Só existe em português. Fernanda, onde você vê "cópia barata" eu vejo uma belíssima iniciativa cultural. E é o máximo que posso comentar. Não conheço o projeto do museu. Por enquanto sei da idéia e aprovo.

Fernanda, tenho certeza que não vou mudar seu pensamento, aliás o tempo já me ensinou que o preconceito é feio, sujo, mas existe e olha que sou branquinha, branquinha. O preconceito não tem cor, classe social, nacionalidade ou sexo. Existe, infelizmente. Mas nunca poderia ficar calada. Em primeiro lugar porque o blog é meu e nele escrevo o que me dá vontade de escrever e sinto nojo a todo preconceito, acho inadimissível, mas não posso curar o mundo dessa praga.

Bem, tudo isso é para você compreender - caso queira, também se não quiser, tanto faz - que este ódio é apenas seu, isolado e não afeta em nada aos portugueses. Não vou apagar seu comentário. Serve de exemplo. É mais um preconceito velado, além do que existe em relação aos negros no Brasil. Tendo dinheiro, tudo pode ser "perdoado".

Quando converso com estrangeiros que adoram várias cidades do Brasil e continuam vindo aqui a passeio, eles não são capazes de acreditar que no Brasil ainda exista brasileiros pensando no Brasil como colônia portuguesa.

Amo ter nascido aqui, amo ser descendente de portugueses e ter DUAS nacionalidades. Adoro me considerar uma cidadã do mundo, que viaja menos do que gostaria, por falta de grana. E não há muito mais o que dizer, Fernanda. Só que, juro... há documentos comprovando...e na Biblioteca Nacional tenho certeza de que você poderá encontrá-los. O Brasil é independente, republicano e democrático.

Cristina Caetano


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