quarta-feira, 29 de agosto de 2007


Quase


Ainda pior que a convicção do não,
É a incerteza do talvez,
É a desilusão de um quase!

É o quase que me incomoda,
Que me entristece,
Que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.

Quem quase ganhou ainda joga,
Quem quase passou ainda estuda,
Quem quase amou não amou.

Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos,
Nas chances que se perdem por medo,
Nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna.
A resposta eu sei de cor.

Está estampada na distância e na frieza dos sorrisos,
Na frouxidão dos abraços,
Na indiferença dos "bom dia", quase que sussurrados.

Sobra covardia e falta coragem até para ser feliz.

A paixão queima,
O amor enlouquece,
O desejo trai.

Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor.
Mas não são.

Se a virtude estivesse mesmo no meio-termo,
O mar não teria ondas,
Os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.

O nada não ilumina,
Não inspira,
Não aflige nem acalma,
Apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.

Preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.

Para os erros há perdão,
Para os fracassos, chance,
Para os amores impossíveis, tempo.

De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma.
Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.

Não deixe que a saudade sufoque,
que a rotina acomode,
que o medo impeça de tentar.

Desconfie do destino e acredite em você.
Gaste mais horas realizando que sonhando...
Fazendo que planejando...
Vivendo que esperando...

Porque, embora quem quase morre esteja vivo,
Quem quase vive já morreu.


Luís Fernando Veríssimo
foto: Geoffroy Demarquet

terça-feira, 28 de agosto de 2007


De gritos


Apetece-me ser Deus de tons
para uns ais
palavra escrita

Preciso da outra louca de ti
para jogar o jogo do tom
que a palavra escrita ai não tem

O brinquedo é ai
interjeição expressão

Eu escrevo ai
e tu doas-lhe a entoação

Primeiro o ai-de-suspiro
inspira bem fundo
aguenta um pouco
expira um único ai
com força
com mais aaaa que i

Isso assim

Agora o ai-de-dor
repetido tantas vezes quanta a dor sofrida
breve
embrulhado em esgar
franzido e molhado

Isso assim

Por fim um ai-de prazer
insiste
insiste
em movimento
ritmado e batido
cada vez mais rápido
cada vez mais
mais ainda
mais
gutural-e-grunhido

Isso assim
Isso assim
Isso assim
Isso assiim

Pára
Pára
Pára
Páára jáá

Isso
assiiim
de mansinho

Sim
Acabou o jogo do tom
Fim


Daniel Sant'Iago
foto: Samantha Wolov

segunda-feira, 27 de agosto de 2007


Pensamentos que reúnem um tema


Estou pensando nos que possuem a paz de não pensar,
Na tranqüilidade dos que esqueceram a memória
E nos que fortaleceram o espírito com um motivo de odiar.
Estou pensando nos que vivem a vida
Na previsão do impossível
E nos que esperam o céu
Quando suas almas habitam exiladas o vale intransponível.
Estou pensando nos pintores que já realizaram para as multidões
E nos poetas que correm indefinidamente
Em busca da lucidez dos que possam atingir
A festa dos sentidos nas simples emoções.
Estou pensando num olhar profundo
Que me revelou uma doce e estranha presença,
Estou pensando no pensamento das pedras das estradas sem fim
Pela qual pés de todas as raças, com todas as dores e alegrias
Não sentiram o seu mistério impenetrável,
Meu pensamento está nos corpos apodrecidos durante as batalhas
Sem a companhia de um silêncio e de uma oração,
Nas crianças abandonadas e cegas para a alegria de brincar,
Nas mulheres que correm mundo
Distribuindo o sexo desligadas do pensamento de amor,
Nos homens cujo sentimento de adeus
Se repete em todos os segundos de suas existências,
Nos que a velhice fez brotar em seus sentidos
A impiedade do raciocínio ou a inutilidade dos gestos.
Estou pensando um pensamento constante e doloroso
E uma lágrima de fogo desce pela minha face:
De que nada sou para o que fui criada
E como um número ficarei
Até que minha vida passe.



Adalgisa Nery
Cândido Portinari

Comecei a semana já completamente exausta. Trabalhei no fim de semana, queimei muitos neurônios e não sei muito bem o que pretendo postar por aqui nesta semana. Costumo seguir a intuição, mas prevalece sempre a informação acima de qualquer sentimento.

Mas sei lá, acho que vou mudar. Mas não tenho muita certeza. Por defeito de personalidade, tenho normalmente muitas dúvidas a respeito de novas decisões. Penso alto, um meio estranho de tentar clarear as idéias. Também me adianta pouco tentar entender o porquê de querer mudar, vou mudar e pronto.

Nessa semana, por aqui só vai haver poesia, vou logo avisando. Mas se eu mudar de opinião durante a semana, até porque é bastante possível que a monotonia me assalte, me perdoem o aviso precipitado.

A propósito, depois dessa pública reflexão, dei um pulinho no Plan(o)alto e vi que O'Sanji postou uma poesia de Adalgisa Nery, poeta que adoro. Então é com ela que vou começar a semana.



sexta-feira, 24 de agosto de 2007


Porquês


E ela perguntou “porque me amas”?
Se sou escuro, noite e temporal,
Se sou rocha, pedra dura, erva daninha,
Escarpa que rasga e fere a paisagem?
- Se te amo, disse ele, é porque breve é a noite se tu estás,
Temporal és por um segundo,
E de toda a beleza do mundo,
Só a rocha permanece fiel na paisagem.
- Porque me queres, se a querer-te isso me leva?
Questionou-o com os olhos rasos de água.
Se sou momento e não permanente,
Se sou chama, fogo-fátuo,
Se sou margem e não centro?
Ele, olhando-lhe os olhos, chorando-lhe as mágoas:
- Quero-te, porque sem ti longos são os dias, e neles morro,
Porque eterna és em mim, e em mim guardo os momentos,
Que em ti respiro,
Que em ti eu vivo,
Que em ti repouso.


Encandescente
foto: Eddie O'Bryan

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Prêmio Jabuti

Prêmio Jabuti divulga vencedores de sua 49ª edição


A Câmara Brasileira do Livro divulgou os vencedores do 49º Prêmio Jabuti. São 20 categorias. A apuração foi realizada nesta terça-feira.

"Desengano", de Carlos Nascimento Silva, ficou com o primeiro lugar entre os romances. O livro conta a história de duas famílias de classe média no Rio de Janeiro da década de 50. O destaque fica para o encontro de Júlia, viúva, e Beto, 17 anos, amigo de infância de seus filhos.

Em segundo lugar ficou "Vista Parcial da Noite", de Luiz Ruffato, seguido por "Pelo Fundo da Agulha", de Antonio Torres.

Na categoria reportagem, a vitória foi de Eliane Brum, com "A Vida que Ninguém Vê". O livro reúne crônicas-reportagens publicadas no jornal "Zero Hora". O segundo lugar foi para "O Nome da Morte", de Klester Cavalcanti, e a terceira posição ficou com "Políticos do Brasil", de Fernando Rodrigues. Em contos e crônicas, a vitória foi de Ferreira Gullar, com "Resmungos".

Para cada modalidade houve três jurados. Ao todo, foram inscritos 2.052 livros neste ano para a premiação.

A cerimônia de premiação do Prêmio Jabuti 2007 será na Sala São Paulo da estação Júlio Prestes, no dia 31 de outubro.

Confira abaixo a lista de vencedores nas principais categorias. A lista completa pode ser acessada no site da CBL (cbl.org.br).

Romance

1. "Desengano" - Carlos Nascimento Silva - Agir Editora
2. "Vista Parcial da Noite" - Luiz Ruffato - editora Record
3. "Pelo Fundo da Agulha" - Antonio Torres - editora Record

Reportagem

1. "A Vida que Ninguém Vê" - Eliane Brum - Arquipélago Editorial
2. "O Nome da Morte" - Klester Cavalcanti - Planeta do Brasil
3. "Políticos do Brasil" - Fernando Rodrigues - Publifolha

Biografia

1. "Anita Malfatti - Biografia e Estudo da Obra" - Marta Rossetti Batista - editora 34
2. "O Inimigo do Rei: Uma Biografia de José de Alencar ou A Mirabolante Aventura de um Romancista que Colecionava Desafetos, Azucrinava D. Pedro 2º e Acabou Inventando o Brasil" - Lira Neto - Editora Globo
3. "Paulo Freire: Uma História de Vida" - Ana Maria Araújo Freire - Villa das Letras Editora

Poesia

1. "Cantigas do Falso Alfonso El Sabio" - Affonso Ávila - Ateliê Editorial
2. "Cântico para Soraya" - Neide Archanjo - A Girafa Editora
3. "Raro Mar" - Armando Freitas Filho - Companhia das Letras

Homenagem póstuma em poesia: "A Imitação do Amanhecer" - Bruno Tolentino - editora Globo

Contos e Crônicas

1. "Resmungos" - Ferreira Gullar - Imprensa Oficial do Estado de São Paulo
2. "A Casa da Minha Vó e Outros Contos Exóticos" - Artur Oscar Lopes
3. "O Volume do Silêncio" - João Anzanello Carrascoza - Cosac Naify

Infantil

1. "Lampião e Lancelote" - Fernando Vilela - Cosac Naify
2. "João por um Fio" - Roger Mello - Companhia das Letras
3. "Felpo Filva" - Eva Furnari - Editora Moderna

Juvenil

1. "Adeus Conto de Fadas" - Leonardo Brasiliense
2. "Ciumento de Carteirinha" - Moacyr Scliar - Editora Ática
3. Empate: "Alice no Espelho" - Laura Bergallo - Laura Bergallo / "O Melhor Time do Mundo" - Jorge Viveiros De Castro - Cosac Naify



fonte:Folha Online

terça-feira, 21 de agosto de 2007

"Erros" viram arte digital em exposição

"Tilts" viram arte digital e ganham a rede


Deu pau? Antes de reclamar, saiba que tem gente por aí tentando transformar os malquistos erros informáticos em intervenção estética e até movimento artístico. É a "glitch art" (algo como "arte do tilt").

Embuste para alguns, vanguarda para outros, o termo designa obras audiovisuais alteradas em seu código-fonte (conjunto de letras e números que fazem o software rodar). Não vale, portanto, distorcer a imagem em programas como Photoshop. As obras são frutos de erros de programação aleatórios ou forçados.

"A 'glitch art' explora os limites do formato digital", filosofa o norte-americano Benjamin Berg, 31, que vive no estado de Indiana (EUA). Apesar de pagar as contas revisando livros, ele se considera um "artista das novas mídias".



Berg já publicou mais de mil trabalhos de "glitch art" na web e ainda mantém um site sobre o tema. Para ele, a estética do acidental --bastante presente em algumas vanguardas do século 20-- faz parte agora de um "movimento pós-digital, de superação dos bits".

Em 2003 a corrente sonora da "glitch art" ganhou popularidade entre internautas. Trocar arquivos de áudio era até então mais interessante do que imagens --filhotes do compartilhador de música Napster pipocavam pela rede.

Sem uma plataforma eficiente de divulgação, a "glitch art" visual só conseguiu engrenar com a popularização de portais como Flickr. Hoje, o site conta com cerca de 1.500 adeptos do "tilt" e quatro fóruns dedicados ao assunto. São mais de 3.000 imagens corrompidas à exposição.

"A 'glitch art' já era embrionária em algumas expressões, como no trabalho dos VJs, que manipulam e corrompem imagens e sons de improviso", diz o artista plástico romeno Mircea Turcan, 29, colaborador do site.

Há, porém, visões menos entusiasmadas. Para o escritor brasileiro Jesus de Paula Assis, autor de "Artes do Videogame" (ed. Alameda), vale a citação do pintor francês Marcel Duchamp (1887-1968), de que arte é tudo aquilo que você consegue convencer as pessoas a aceitarem como tal.

"No caso do Duchamp, tudo bem. Já em muitos outros casos, as portas da picaretagem ou do amadorismo ingênuo ficaram escancaradas", alfineta.



Há ainda um grupo de internautas que encara tendência como hobby. Caso do estudante de design dinamarquês Steffen Bygebjerg, 23. "É uma diversão para mim", diz. Bygebjerg utiliza um navegador on-line que distorce e quebra as imagens dos sites visitados.

Outra forma de conseguir "bugs" semelhantes é utilizando câmeras digitais com baterias fracas. As últimas fotos, sobretudo se tiradas com flash, costumam sair corrompidas.

No entanto, o instrumento mais popular da "glitch art" é o programa hexplorer, um editor de arquivos binários de visual futurista. Modo de funcionamento: abra uma foto no programa e mexa em seus códigos à esmo. Mas não se esqueça de gravar uma cópia do arquivo antes de se arriscar. O processo é irreversível.


fonte:Folha Online

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Rock around the world

Há 30 anos Elvis Presley se tornou uma lenda


O mito de Elvis Presley, alimentado por dezenas de vozes e suposições sobre uma segunda vida em qualquer lugar do mundo, foi retomado devido à proximidade do aniversário de 30 anos de sua morte, em 16 de agosto. E agora há quem jure que o rei do rock n'roll esteja vivendo com um falso nome na Argentina.



A última edição da versão latino-americana da revista "Rolling Stone" reabriu o caso, alegando que há em Buenos Aires anúncios pelas ruas, colados nos postes de luz no estilo "Procura-se", com foto da estrela do rock como estaria hoje, com 72 anos. O cartaz convida qualquer um que tenha informações sobre ele para registrá-las em um site na Internet.

O argentino Jorge Daniel Garcia, que em 1977 era soldado, conta que na base militar de Palomar, na Província de Buenos Aires, chegou de Memphis, nos Estados Unidos, um Boeing 747, o primeiro avião daquele tipo que aterrissava no país, e que havia uma limusine à espera de um homem.



A história contada pela revista é a de que após a morte oficial de Elvis, um homem chamado John Burrows, com uma extraordinária semelhança com o cantor norte-americano, foi notado enquanto adquiria um bilhete aéreo para Buenos Aires. Elvis, dizem, usava aquele pseudônimo para viajar, e teria usado para uma viagem ao Departamento Federal de Investigação (FBI) de Washington.

Foi naquela ocasião que, de acordo com diversas testemunhas, Presley encontrou em segredo o presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, informando-o a respeito da conduta ilegal de outras celebridades da época e oferecendo os próprios serviços na luta contra as drogas.

Após anos de colaboração com os serviços secretos, e devido à importância de sua contribuição para eliminar bandas mafiosas, Elvis foi "desaparecido" para salvar sua vida e transferido para a Argentina, "em uma zona a oeste na Província de Buenos Aires", onde moraria hoje em dia com uma nova identidade.



Segundo os que acreditam nessa tese, Elvis não estaria enterrado nos jardins de Graceland, sua casa em Memphis que se tornou um verdadeiro santuário do rock, como declarado oficialmente, mas seria o protagonista de um dos planos para a proteção de testemunhas mais elaborados de todos os tempos.

n.r.: E a família agradece ao marketing recebendo pelos direitos autorais.


fonte: UOL e ANSA

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Amo música. E prometo a mim mesma que na próxima encarnação vou ser bailarina, nesta vida não deu por pura falta de paciência...

Adoro todas de Chico Buarque e como estou ouvindo uma das dele agora, resolvi partilhar por aqui para recordar uma música antiga e lindíssima.




Tanto amar



Amo tanto e de tanto amar
Acho que ela é bonita
Tem um olho sempre a boiar
E outro que agita

Tem um olho que não está
Meus olhares evita
E outro olho a me arregalar
Sua pepita

A metade do seu olhar
Está chamando pra luta, aflita
E metade quer madrugar
Na bodeguita

Se seus olhos eu for cantar
Um seu olho me atura
E outro olho vai desmanchar
Toda a pintura

Ela pode rodopiar
E mudar de figura
A paloma do seu mirar
Virar miúra

É na soma do seu olhar
Que eu vou me conhecer inteiro
Se nasci pra enfrentar o mar
Ou faroleiro

Amo tanto e de tanto amar
Acho que ela acredita
Tem um olho a pestanejar
E outro me fita

Suas pernas vão me enroscar
Num balé esquisito
Seus dois olhos vão se encontrar
No infinito

Amo tanto e de tanto amar
Em Manágua temos um chico
Já pensamos em nos casar
Em Porto Rico

Chico Buarque

As cores da natureza

Inseto da Amazônia


Expedição desbrava área quase inexplorada da Amazônia e descobre animais como este inseto, que na imagem caminha sobre uma folha de papel.




fonte:UOL
foto: Mario Cohn-Haft

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Fotos de Horacio Coppola no Instituto Moreira Salles

Mostra revisita passado portenho


Numa tarde chuvosa do final dos anos 20, o fotógrafo Horacio Coppola e o escritor Jorge Luis Borges faziam um de seus usuais passeios pelas ruas da capital portenha. Coppola parou diante de uma poça. Ajustou a câmera e disparou. No espelho d'água, estava refletida a silhueta de uma casa do bairro de Palermo. Quando viu a foto do amigo revelada, Borges pontificou: "Isso é Buenos Aires".



A mostra "Visões de Buenos Aires", que será inaugurada amanhã no Rio de Janeiro e virá a São Paulo em novembro, reúne as melhores imagens do fotógrafo e cineasta Horacio Coppola, hoje com 101 anos. A maior parte das fotos foi tirada entre os anos 20 e 30 e integrou um álbum comemorativo dos 400 anos da cidade, feito por encomenda para o governo argentino, em 1936.



Estão ali o célebre bairro da Boca, a avenida de Mayo, o paseo Colón e a calle Corrientes, num momento especial da história argentina. A retomada do crescimento industrial e a chegada de migrantes transformavam Buenos Aires em uma fervilhante metrópole. Nela se vêem ruas de comércio apinhadas, gente elegante subindo e descendo de bondes ou simplesmente parada na frente de teatros, na beira das fontes ou no fundo dos cafés.



"Coppola tinha uma vocação para a síntese, uma preocupação com a geometria que são sinais de sua modernidade estética", disse à Folha o professor de literatura hispano-americana da USP Jorge Schwartz, curador da exposição. "Vistas hoje, as fotos mostram como Buenos Aires sempre foi uma cidade atípica, que captou o tempo vivido", diz o estudioso, que também nasceu na Argentina.



Os personagens retratados por Coppola refletiam a intensa transformação da sociedade, numa década que começara com um golpe militar, mas mostrava uma surpreendente recuperação econômica. A cidade via crescer a agitação de grupos sindicais e de militantes anti-fascismo, que se alimentavam da repercussão dos resultados da Guerra Civil Espanhola. Enquanto surgiam editoras, revistas, e a vida intelectual ganhava novo fôlego diante do fantasma dos totalitarismos, morria Carlos Gardel, encerrando um ciclo no universo cultural do país.



Coppola passou um tempo na Europa, onde estudou na Bauhaus. De volta à sua cidade natal, passou a integrar o grupo de artistas que se reunia em torno da figura de Victoria Ocampo e da revista "Sur". Foi então que passou a conviver mais com Borges. "A influência do escritor foi marcante para que ele passasse a prestar mais atenção aos subúrbios, aos bairros afastados do centro", diz Schwartz.

Parte dessa preocupação também está nas imagens da mostra: esquinas silenciosas, os barcos ancorados na Boca ou as luzes da noite portenha refletidas na água esparramada pelas chuvas. Coppola mora hoje em seu velho apartamento na calle Esmeralda, e sai pouco de casa.

Fez questão de comparecer, porém, à homenagem que o Malba (Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires) lhe fez em julho do ano passado, no seu aniversário de cem anos. Na ocasião, o fotógrafo explicou sua fórmula de longevidade em entrevista ao jornal "La Nación". "Vivo num estado de permanente contemplação, essa é uma das razões da minha existência e, sobretudo, da minha felicidade."


fonte:Folha de S.Paulo

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Finge


Finge que não me conhecias,
Que por acaso na rua me viste
E sem escolha me escolheste
E sem escolha me elegeste
Tua
De entre todas as mulheres.
Finge que ao ver-me os olhos te perdeste
E ao dares-me a mão descobriste que em mim estavas perdido
Mas que em mim estava o caminho
E me disseste:
- Vem. Quero encontrar-me.
Finge que ao ver-me nua
Nu te viste,
E tão tu e exposto te sentiste
Que com a minha pele te cobriste
Que a minha pele vestiste
Sabendo que tua
Era a minha pele.
Finge que me quiseste tanto que impotente te sentiste
Ante um desejo tão profundo e desmedido
Que insaciados ficaram os sentidos,
E que o teu corpo se tornou súplica
Sofreguidão
Fome do meu.
...
Finge que sem escolha me escolheste.


Encandescente
foto:Lylya Corneli

Como odeio banalidades!


Eu, que sou mais banal e vulgar, que a mais banal das mulheres.
Eu, que sou tão comum, que nem preciso olhar-me ao espelho,
Igual que sou a tantas outras, com que me cruzo,
E das quais não me distingo.
Odeio banalidades!
Odeio as frases feitas de quem pergunta:
- Olá como está? E não quer saber.
Odeio os bons dias, as boas tardes, as boas noites,
Ditos sem pensar, ou a pensar em coisa nenhuma,
Ou a pensar noutra coisa qualquer que não o desejo,
Que o dia, a tarde, ou a noite,
Corram bem e sejam bons.
Eu odeio frases feitas!
Odeio vizinhas à janela!
Odeio as amigas e amigos nos cafés, nos bares, nos autocarros,
Com vidas tão fúteis e pequeninas que dissecam as dos outros.
Que cortam a casaca dos melhores amigos,
Pedaço a pedaço.
Achando que os amigos, são os melhores amigos, e nunca cortariam as deles,
Mas cortam!!
E são más-línguas, maus caracteres, sem carácter!
Eu odeio vizinhas a bisbilhotar à janela!
E as pessoas que passam?
As pessoas anónimas que percorrem as ruas em zig-zag evitando pedintes e mãos que se estendem?
E que colam a mala ao corpo achando que ser pobre é ser ladrão.
E se aconchegam na roupa comprada na Zara, ou nos mercados de rua.
Mas muito sua!
E são caridosos, piedosos, apiedados,
Compreensivos com a desgraça alheia se não tiverem de dar um cêntimo,
E a caridade for só da boca para fora!
Eu odeio a caridade hipócrita da multidão!
E os gajos?
Os gajos mesmo gajos!
Os gajos na verdadeira acepção da palavra!
Os que se sentam em esplanadas ou se encostam em montras esperando as mulheres,
As deles.
E discretos apreciam pernas e cus das outras,
As que passam.
E lambem os beiços, e coçam os tomates, e pensam ou dizem:
- Esta gaja é muita boa!
Como odeio a frase ”esta gaja é muita boa”!
Dita por gajos que em casa têm mulheres que nem olham,
E às quais nem falam.
E que na cama despacham sexo e mulher,
Despejando o desejo das gajas boas que comeram com os olhos na rua.
Ah! Como eu odeio estes gajos!
E as gajas?
As santinhas, as pudicas, as que têm sempre na ponta da língua um:
Ai credo, um julgamento, uma condenação.
As que são contra o aborto, contra a pílula,
Contra tudo o que seja sexo!
Escrito, pintado, feito, falado.
E quando têm “maus pensamentos” correm às sacristias:
- Sr. Padre, sonhei que estava a fazer sexo oral. Confessam.
Como se sexo oral fosse um pecado capital,
Esquecendo que só o peixe morre pela boca.
E lavam as mãos nas pias,
E cumprem todas as penitências,
Mas falam do sexo da vizinha que é uma descarada.
E são donas de verdades absolutas.
E nunca têm dúvidas.
E só dizem…
B A N A L I D A D E S!
Ah! Como odeio falsas santinhas e ratas de sacristia!
E eu?
Eu que sou banal, normal, vulgar,
Odeio a vulgaridade!
Mando à merda quem me chateia!,
Escrevo asneiras se me dá na gana!,
Para um sacana sou sacana e meia!,
E como eu odeio sacanas!
Aqueles de falas mansas e que parecem uns santos,
E dão a roupa toda e ficam em pêlo,
Pelos outros.
E em casa vão ao pêlo às mulheres
E deixam-nas:
Negras de pancada,
Negras de dor,
Negras de pavor.
Ah …Se eu pudesse dava um tiro nos cornos desses sacanas!
E a outros:
Aos abusadores, aos ladrões de inocências,aos que roubam infâncias e semeiam pesadelos.
A esses, castrava-os!
Aos do passado, aos do presente, aos do futuro.
Já que a justiça não castra senão a esperança de justiça!
…
Eu, que sou mais banal e vulgar, que a mais banal das mulheres.
Eu, que por fora ninguém distingue, ou olha duas vezes ao passar.
Odeio banalidades!


Encandescente
foto:Sweetcharade

Revolução cultural

Tropicália - O Movimento que Não Terminou


O ano é 1967. O encontro mítico: Hélio Oiticica e Caetano Veloso. Oiticica era um agente provocador das artes brasileiras e Caetano, um cantor jovem disposto a pôr suas idéias em circulação. Em abril, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro recebia a exposição Nova Objetividade Brasileira, e nela Oiticica apresentava a instalação Tropicália, um ambiente em forma de labirinto com plantas, areia, araras, um aparelho de TV e capas de Parangolé (um tipo de obra de arte feita para ser usada como roupa). Depois de "Tropicália, a obra", surge "Tropicália, a música".

Caetano Veloso com um parangolé de Hélio Oiticica


"Ouvi primeiro o nome Tropicália, sugerido como título para minha canção, do cineasta Luís Carlos Barreto, que me ouviu cantá-la em São Paulo e se lembrou do trabalho de um tal Hélio Oiticica. Resisti a pôr em minha música o nome da obra de um cara que eu nem conhecia", lembra Caetano Veloso. Depois da canção, "Tropicália, o disco". Lançado em 1968, o LP Tropicália: ou Panis et Circenses reúne Gilberto Gil, Caetano, Tom Zé, Gal Costa, Os Mutantes e Nara Leão. Tropicália foi ainda a moda colorida, um jeito feliz de namorar e um programa de domingo pela televisão. Surgia, assim, "Tropicália, o movimento".

"Tropicália", de Hélio Oiticica, durante exibição na Whitechapel Gallery - Londres, 19


A história continua, 40 anos depois, com "Tropicália, a exposição". Tropicália Uma Revolução na Cultura Brasileira (1967-1972) chega ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (o mesmo onde Hélio Oiticica, morto em 1980, aos 43 anos, exibiu sua obra fundadora) neste mês, após ter passado pelos Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra. A exposição foi elaborada pelo Museu de Arte Contemporânea de Chicago e o Museu do Bronx, de Nova York, na esteira da redescoberta do trabalho e do pensamento de Oiticica a partir de meados da década passada.

Mutantes, Gal Costa, Jorge Ben, Caetano e Gil no programa "Divino, Maravilhoso",1968


Os tropicalistas brasileiros conseguiram algo raro e poderoso na cultura: uma inesperada trapaça com o tempo. Hoje, a Tropicália interessa ao mundo. Do mesmo modo que Marcel Duchamp faz mais sentido para a arte agora do que Pablo Picasso (com sua concepção de que uma idéia é já uma criação artística), o Tropicalismo ganha neste início de século um caráter mundial.

Caetano Veloso e Os Mutantes (ao fundo, Rita Lee) na lendária boate Sucata, Rio de Janeiro


Num mundo cada vez mais multicultural e interativo, a colagem de gêneros e a participação do espectador preconizadas pela Tropicália fazem total sentido. Assim, para o curador da exposição, o argentino Carlos Basualdo, o Tropicalismo é algo que continua e oferece várias possibilidades. Por isso há na mostra o consagrado e o novo, e assim os brasileiros Oiticica e Lygia Clark estão confortáveis ao lado da artista contemporânea francesa Dominique Gonzalez-Foerster. E há também uma aproximação entre Gilberto Gil e Caetano Veloso com estrelas jovens da música pop atual, como o norte-americano Beck e a banda inglesa High Llamas.

Dina Sfat e Grande Otelo em "Macunaíma" (1969), de Joaquim Pedro de Andrade


A exposição Tropicália - O Movimento que Não Terminou estará no MAM-Rio até o dia 30 de setembro



fonte:UOL e Bravo! Online

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Vic Muniz - "Beautiful Earth"

Artista paulistano nos principais museus do mundo


O artista paulistano Vik Muniz, tem obras nos principais museus de arte contemporânea do planeta e colecionadores ávidos por suas fotos, que reproduzem meticulosos desenhos feitos a partir de matérias-primas como chocolate, poeira, brinquedos e sucata.



Muniz divide agora suas conquistas no livro "Reflex, Vik Muniz de A a Z" (Cosacnaify, 187 págs., R$ 85). Misto de memórias e reflexões sobre a arte, o livro foi escrito originalmente em inglês e lançado em 2005 nos EUA, onde ele vive.


Obras do artista poderão ser vistas em duas mostras em São Paulo: uma foi inaugurada no dia 1 deste mês, no Paço das Artes, e outra, na galeria Fortes Vilaça, que o representa no Brasil. Suas fotografias cada imagem ganha 12 tiragens são comercializadas por valores entre US$ 5.000 e US$ 30 mil (R$ 9.500 e R$ 57 mil).





fonte:UOL

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Amigos da blogosfera

Sou naturalmente chamenguenta e dizem minhas amigas e amigos que adoro me preocupar com eles e cuidar deles. Até concordo.

Se somem, não me zango, fico apenas troncha de saudades e torcendo pelo seu regresso. Sinto falta da convivência, gosto muito de falar e escrever, mais ainda de pensar e retrucar.

E esse blá blá blá todo tem a ver com um amigo muito sagaz e inteligente do blog "O Beco dos Bytes", o Carlos, que andou sumido desta vida blogueira por uns tempos e me deixou levemente órfã. Sou internet/dependente, celular/dependente e blog/dependente.

Meu computador me deixou fora de órbita por uns dias e quase surtei, mas valha a grande amizade de amigas que moram muito perto e que me permitiram, uma vez ou outra, porque não sou muuuuito abusada - só um pouco - navegar pela internet em seus computadores.

Mas o Carlos voltou e para quem conhece, vou colocar aqui o seu último post para dar a notícia de seu retorno e para quem não conhece, fica a perceber que vale a pena conhecê-lo.

Vamos a isto? O post leva o título:

As charges do domingo





fonte:O Beco dos Bytes

Bom e salgado

Álbum de luxo relança primeiras histórias do Homem-Aranha


As primeiras histórias do Homem-Aranha já foram publicadas mais de uma vez no Brasil. Mas não no formato de luxo lançado, nesta virada de semana (Panini, R$ 53). A edição, de 250 páginas, foi feita com papel especial, em cores e com capa dura.

A obra integra a coleção "Biblioteca Histórica Marvel", que relança material clássico da editora norte-americana. Esta edição traz histórias do surgimento do herói. A estréia foi na revista "Amazing Fantasy", de agosto de 1962.

O criador do personagem, Stan Lee, diz na introdução do álbum de luxo que o Homem-Aranha só não foi publicado inicialmente num título próprio porque competia com vários anti-rótulos heróicos.

O personagem dialogava com a fraqueza: vivia com a tia, era adolescente (faixa etária reservada até então aos parceiros dos grandes heróis), era excessivamente problemático.

Lee conta que insistiu. Lançou a história do adolescente tímido e estudioso que é picado por uma aranha radioativa, acidente que confere a ele poderes extraordinários.

Peter Parker, alter-ego do herói, tenta aproveitar os poderes para ganhar dinheiro, e não no combate ao crime. Tem a chance de impedir a fuga de um assaltante, mas não o barra.

É o mesmo criminoso que, depois, iria assassinar o tio de Parker, Ben. Da tragédia, ele aprende a lição que irá motivar sua carreira de super-herói: com grandes poderes, vem grandes responsabilidades.

A história é a base de parte do primeiro filme do Homem-Aranha, lançado em 2002.

A persistência de Lee deu resultado. O lado anti-herói do personagem gerou empatia. A revista vendeu bem –até demais- e o herói conquistou um título próprio em março do ano seguinte, "Amazing Spider-Man".

Os primeiros dez números da série compõem o restante do álbum da Panini, programado para ser vendido em lojas especializadas em quadrinhos e livrarias.

As histórias marcam a estréia de vilões que passaram a acompanhar o herói desde então, como o Abutre, Doutor Octopus, Homem-Areia e o Lagarto. Os desenhos são de Steve Ditko, co-criador do personagem.

As histórias, nesta primeira década de século 21, podem parecer ingênuas. Mas são clássicas. Mostram o ponto de partida do herói, que se tornou uma das maiores vendas da Marvel, algo que continua até hoje.


fonte:Blog dos Quadrinhos

sábado, 4 de agosto de 2007


O amor, um dever de passagem


Fui envenenado pela dor obscura do Futuro,
Eu sabia já que algo se preparava contra o meu corpo,
agora torço-me de agonia nos versos deste poema.
Esta é a terra outrora fértil que os meus dedos dilaceram.
Os meus lábios são feitos desta terra,
são lama quente.
Vou partir pelo teu rosto para mais longe.
A minha fome é ter-te olhado e estar cego.
Agora eu sei que te abres para o fogo do relâmpago.
Tenho a convicção dos temporais.
Já não sei nem o que digo nem o que isso importa.
Guia dos meus cabelos rasos, da melancolia,
da vida efémera dos gestos.
Nesse dia fui melhor actor do que a minha sinceridade.

A cesura enerva-me no estômago.
Cortei de manhã as pontas dos dedos mas sei já que
elas crescerão de novo a proteger as unhas.
Talvez a vida seja estranha.
talvez a vida seja simples,
talvez a vida seja outra vida.
A linha branca da Beleza é a minha atitude que se transforma.
A violência do sono sobe
sobre o meu conhecimento.

Fui algures um horizonte na secessão das pálpebras.


Nuno Júdice
foto:Sweetcharade

n.r.:Voltei!!!

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Classe media sem apoio do governo se torna excluida digital

A CPU pifou e o tecnico do computador sumiu.

Estou tirando ferias forcadas.

Beijinhos a todos!


quinta-feira, 19 de julho de 2007

Eça de Queiroz em Quadrinhos, ou Banda Desenhada

"A Relíquia", clássico do escritor português Eça de Queirós, ganha versão HQ


Quando se fala de um grande escritor da literatura mundial, logo se pensa em alguém muito sério, cuja obra deve ser sempre elogiada, jamais alterada. Mas o cartunista Marcatti não teve medo quando lhe propuseram fazer uma adaptação para os quadrinhos de um dos principais livros do português Eça de Queirós, "A Relíquia", um clássico do século 19. Isso porque, para enfrentar o desafio, o desenhista brasileiro escolheu uma arma que o próprio Eça usava à beça e que se tornou um dos segredos de sua excelente literatura: a ironia.



Com traço afiado e um sarcasmo sombrio, Marcatti conseguiu dar nova vida aos personagens do romance, realçando nas linhas de seus rostos as dúvidas, agonias e incertezas que sentem ao longo da história.

"A Relíquia" conta a trajetória de Teodorico Raposo. Um jovem recém-formado e órfão, que vive sob a tirânica asa de uma tia muito religiosa que provêm o seu sustento e, ainda, guarda sua cobiçada herança.



Eça de Queirós (1845-1900) foi um mestre da chamada prosa realista e fazia duras críticas à sociedade portuguesa e à Igreja. Em "A Relíquia", estes estão representados, justamente, pela avarenta tia Patrocínio e os religiosos e intrigueiros de plantão que a cercam. Teodorico é enviado pela tia a fazer uma peregrinação à Terra Santa. A viagem, inspirada nas visitas que Eça fez ao Egito e a Israel quando tinha 23 anos, é transformadora. O jovem vê lugares diferentes, conhece comerciantes oportunistas, prostitutas e cientistas que mudam seu modo de ver o mundo. Mas eis que Teodorico tem a brilhante idéia de ludibriar a tia, fabricando uma réplica da coroa de espinhos de Jesus para dar-lhe de presente. Cria-se uma imensa confusão, que causa a desgraça de Teodorico e o leva a cometer uma transgressão violenta, que Eça descreve de modo ousadíssimo para a época.



Marcatti usou imagens da Lisboa do século 19 para desenhar os cenários da HQ e criou uma linguagem interessante a partir de uma adaptação do português falado em Portugal. "A Relíquia" em HQ é uma recriação inteligente da obra desse incrível escritor, cujo estilo guarda semelhanças ao de nosso Machado de Assis. Mas, lembre-se, por melhor que seja o quadrinho, nada substitui o livro original. Aproveite essa porta aberta por Marcatti e conheça de verdade Eça e seus incríveis personagens.




A RELÍQUIA
Adaptação do cartunista Marcatti para obra de Eça de Queiróz
Editora Conrad
R$ 32 (224 págs.)



fonte:Folha de S.Paulo

Engraxate brasileiro inspira filme em Nova York

O editor e o engraxate


Como tantos outros brasileiros em Nova York, Aguilar Benício trabalha como engraxate para os bacanas de Wall Street. Não numa engraxataria, que ele não é mané. Os brasucas descolados, como Gil, arrumam emprego de engraxate particular para os que Tom Wolfe chamava de "mestres do universo" em seu "A Fogueira das Vaidades" (VanityFair).



São os proprietários das corretoras de valores do distrito financeiro de Nova York e seus funcionários, para os quais um dos símbolos de status máximo, maior mesmo que as camisas monogramadas ou as abotoaduras, é ter um engraxate ali, à disposição, ao estalar dos dedos. Sendo bom, a chance de o profissional em questão ser brasileiro é grande. Sendo ótimo, é provável que você esteja falando de Gil.

"Gil" existe no livro "Confessions of a Wall Street Shoeshine Boy" (confissões de um garoto engraxate de Wall Street, de Harper Collins), que o jornalista Doug Stumpf lança nesta semana nos EUA. É a história de um engraxate de Santo André (SP) que presencia sem querer um caso de "inside trading", o uso de informação privilegiada para ganho ilegal com ações, e acaba se envolvendo num enrosco com perseguições, falcatruas, sexo, Bahamas e ameaças de morte.

Seria ficção? Mais ou menos. A Folha reuniu Stumpf e sua "musa inspiradora" para um almoço no Brazil Grill, em Manhattan. "Gil" não é Gil, é o carioca Murilo Junior, da Penha, e prefere ser chamado de "Flamenguista". E o caso existiu mesmo. Certo? Mais ou menos.

A conferir.



fonte:Folha de S.Paulo

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Tragédia no aeroporto de Congonhas

"Quem puder evitar viajar, deve evitar", diz relator da CPI do Apagão Aéreo

O local do acidente nesta manhã


Em 29 de setembro de 2006, um Boeing da Gol se chocou no ar com um jato Legacy e caiu em Mato Grosso. Todos as 154 pessoas (informações iniciais eram de que haveria 155) a bordo do avião morreram; os ocupantes do jatinho nada sofreram. O acidente, junto da greve branca dos controladores de vôo que gerou o apagão aéreo original, foram só dois dos estopins de um colapso que já estava anunciado.

Parentes das vítimas buscam informações no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre


Segunda-feira passada(dia 16) um avião da companhia aérea Pantanal, vindo de Araçatuba (interior de São Paulo), derrapou, por volta das 12h45, no Aeroporto de Congonhas, na capital paulista. O incidente ocorreu logo após o pouso e deixou a pista principal fechada durante cerca de 15 minutos.

Bombeiros resgatam corpos no local na manhã desta quarta


Ontem, a tragédia anunciada se confirmou. Um airbus A320, que vinha da cidade de Porto Alegre com destino a São Paulo, o vôo JJ 3054 da TAM, com 175 passageiros a bordo mais tripulação, não conseguiu realizar a manobra de aterrisagem na pista e derrapou no fim da tarde de ontem, terça-feira (dia 17), quando pousava no aeroporto de Congonhas (zona sul de São Paulo) e depois de ter ultrapassado as pistas da Av. Wahington Luís, bateu contra um depósito da empresa que fica do lado oposto da avenida. O choque provocou um incêndio de grandes proporções.

Em RS, familiares dos passageiros tomaram conhecimento da lista por uma rádio local


As equipes do Corpo de Bombeiros retiraram, até as 12h30 desta quarta-feira (18), 157 corpos de vítimas do acidente do vôo JJ 3054 da TAM, com isso, sobe para 160 o número de mortos confirmados no desastre. Deste total, três pessoas morreram em hospitais, segundo o coronel Manoel Antonio da Silva Araújo, do Corpo de Bombeiros.

Parentes das vítimas choram após escutar nomes das pessoas que estavam a bordo


Nove vítimas já foram identificadas pelo Instituto Médico-Legal até o início da tarde. O Instituto Médico-Legal (IML) orientou parentes de vítimas a procurarem a equipe que está no salão de autoridades do Aeroporto de Congonhas, na Zona Sul de São Paulo. A recomendação é que eles levem o maior número possível de documentos e informações que possam facilitar a identificação das vítimas.



O coronel Manuel Antonio da Silva Araújo, comandante da operação e comandante-geral do Corpo de Bombeiros, aponta duas dificuldades principais ao resgate: o desgaste físico dos bombeiros e a situação do local do acidente. "A retirada dos corpos é a parte mais difícil. Os bombeiros são seres humanos, que já estão ficando exauridos. Estamos substituindo-os aos poucos. Além disso, é um trabalho muito desgastante. Os corpos estão muito presos às ferragens", disse Araújo.



...


O deputado Marco Maia (PT-RS), relator da CPI do Apagão Aéreo na Câmara, afirmou em entrevista ao UOL News que "quem puder evitar viajar, deve evitar". Ele pede "calma e paciência" à sociedade brasileira, pois "temos uma situação de caos eminente no sistema em decorrência do acidente, da crise e dos reflexos que isso tem". Nesse momento delicado, o deputado afirma que é importante "ter todo cuidado para garantir a segurança dos vôos brasileiros". Ele admite ainda que existem falhas na gestão do sistema aéreo nacional e afirma que o Executivo precisa tomar ações mais concretas para resolver a crise, que já dura de 10 meses.

...


n.r.: Ao mesmo tempo em que a sociedade brasileira está chocada e em luto pela tragédia, era a hora de sermos menos passivos com relação aos nossos direitos e exigirmos que definitivamente o governo se responsabilize totalmente pela crise instalada a quase um ano no setor aéreo e que de uma vez por todas tome medidas claras e definitivas para solucionar um problema que se arrasta sem soluções. Além disso, coragem por parte das autoridades para avaliarem a construção de um novo aeroporto em São Paulo, visto que as obras de remodelação no aeroporto de Congonhas não foram suficientes, devido ao tipo de aeronaves que costumam transitar neste aeroporto.


fonte:G1, Folha Online, UOL

terça-feira, 17 de julho de 2007

O fim das verdadeiras loiras

Vai ser pouco depois de 2200, na Finlândia, que nascerá a derradeira loira do planeta. Esta afirmação foi repercutida por diferentes veículos de comunicação, desde o "New York Times" até à BBC. Desde 2002, contudo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) - citada como a fonte deste estudo que anuncia "a extinção do gene que caracteriza os verdadeiros loiros" - não se cansa de clamar que ela "nunca conduziu pesquisas sobre este assunto".


Apesar dessas ressalvas, a brincadeira não deixa de ter fundamento. O planeta conta 6,5 bilhões de indivíduos, dos quais cerca de 1 bilhão na África e 4 bilhões na Ásia (da Turquia ao Japão), segundo o Population Reference Bureau (Centro de Estatísticas e Informação sobre População, Saúde e Meio-ambiente, com sede em Nova York). Em 2050, a população mundial terá aumentado para 9 milhões de humanos. Os 3 bilhões de pessoas suplementares serão principalmente oriundos da África, da Ásia e da América do Sul.

Logo, a freqüência dos loiros, que são raros fora dos países ocidentais - mesmo se eles podem ser encontrados de maneira esporádica na África do Norte e no Oriente Médio - vai diminuir. E isso acontecerá tanto mais que essa cor de cabelos, assim como os olhos azuis, se deve a genes recessivos. "Para ser loiro, é preciso herdar dois genes que comandam esta característica, sendo que um provém do pai, e o outro da mãe", lembra o geneticista Axel Kahn. "Se, em todo o mundo, o número de genes loiros permanece constante, ao passo que aquele de genes morenos vai aumentando, haverá uma probabilidade decrescente de que duas pessoas herdem dois genes loiros, os quais constituem uma condição impreterível para que eles sejam loiros".

Segundo Kahn, uma hipótese realista seria a "de uma intensificação das misturas das populações, e do advento de um perfil de humano mestiçado, do tipo brasileiro".

A L'Oréal, a companhia líder mundial em produtos de beleza, já se antecipou a esta evolução. Ela está construindo em Saint-Ouen (Seine-Saint-Denis, região parisiense) um centro mundial que será dedicado a pesquisas relativas a tudo o que se refere aos cabelos. Neles, 600 pesquisadores, que deverão operar a partir de 2010, trabalharão "numa nova forma de beleza, o cabelo mestiçado", explica Patricia Pineau, a diretora da comunicação deste setor de pesquisas.

Desde já, segundo uma pesquisa que foi conduzida em torno de milhares de cabeleiras, e que será publicada na revista especializada "Human Biology" neste outono, a L'Oréal recenseou oito diferentes tipos de cabelos em vez de três, na escala mundial. "Até então, distinguia-se o cabelo caucasiano, o africano e o asiático. Nós conseguimos elaborar uma classificação mais respeitosa da geografia humana, e baseada na forma e no grau de crespidão do cabelo: desde o muito rígido (Ásia, Índia, México...) até o encrespado intenso (Gana, Nordeste brasileiro). Isso deverá permitir que nos adaptemos à diversidade das cabeleiras induzida pela mestiçagem das populações".

E desde já, surge também um paradoxo: no decorrer das próximas décadas, a proporção de loiros naturais seguirá diminuindo, e, contudo, o mito poderia muito bem crescer proporcionalmente. Já, na Europa, uma mulher em cada três tinge os seus cabelos numa nuance de loiro, ao passo que, segundo Joanna Pitman, autora do livro "Les Blondes" ("As Loiras", editora Autrement, 2005), apenas "um adulto em cada vinte nos Estados Unidos e mais ou menos a mesma proporção na Europa" tem esta cor natural.

A que se deve este fascínio? Segunda esta escritora, a história remonta a Vênus/Afrodite, deusa do amor de cabeleira clara... "A partir de então, cada época conferiu [à louridão] valores que refletiam as suas preocupações. Ela tornou-se um vício durante as épocas obscuras, uma obsessão durante o renascimento, uma mística na Inglaterra elisabetana (...), uma ideologia durante os anos 1930, um sinal de convite sexual durante os anos 1950...", escreve Joanna Pitman. E em nossa época? Para a escritora britânica Marina Warner, uma especialista nos mitos, "ser loiro equivale a lembrar a cor da infância, a se envolver na busca da juventude eterna".

Para o psicanalista Samuel Lepastier, o mito da louridão é intimamente vinculado à história européia. O continente, que foi invadido por povos loiros - os dórios, os francos - associou esta cor ao vencedor: "Trata-se de um mito fundador da desigualdade das raças humanas, cuja versão a mais delirante foi o racismo hitleriano", sublinha.

Mas a atração pelo loiro se explicaria muito além do fenômeno sociológico ou cultural, segundo o antropólogo canadense Peter Frost. Para este pesquisador, que estudou as formas como o gene perdurou em certos lugares do planeta, isso estaria relacionado à "seleção sexual que privilegia as cores vivas, e também as cores raras. A atração sexual orienta-se para as variantes menos freqüentes e mais sedutoras. Com isso, instala-se um equilíbrio dinâmico que conduz a uma diversidade cada vez maior da espécie".

Diferentemente do que afirmam os lugares comuns, seria, portanto, menos a cor dos trigos que seduz do que a sua raridade num determinado grupo de população. Para ilustrar esta tese, o pesquisador canadense cita os estudos do biólogo americano Thomas Thelen. "Este último preparou três séries de slides que mostram mulheres atraentes: a primeira apresentava 6 morenas; a segunda 1 morena e 5 loiras; e a terceira 1 morena e 11 loiras. Então, ele pediu a um grupo de homens para escolher, em função de cada série, a mulher com a qual eles gostariam de se casar. O resultado do teste foi que quanto mais uma mesma morena era rara numa série, quanto mais eles a escolheram".

As sociedades nas quais predominam os cabelos de azeviche já se divertem com uma cabeleira diferente da delas, o que é o caso, por exemplo, das lolitas japonesas. "Estão criando não só tons loiros peroxidados [oxigenados], como também cabelos púrpuros ou verdes, as quais são cores absolutamente inovadoras, e cujo objetivo permanece o mesmo: chamar a atenção", assegura Peter Frost.

Ainda assim, segundo Samuel Lepastier, nada diz que o mito loiro não será substituído por algum outro, à medida que a esfera de influência do planeta for se deslocando rumo a Ásia e que outras culturas dominantes forem surgindo. A força simbólica do loiro, conforme lembra o psicanalista, é acima de tudo o fruto de duzentos anos de supremacia do mundo ocidental, desde a colonização até a expansão da cultura americana, com as suas deusas platinadas.

Os geneticistas, por sua vez, estão certos de uma coisa: o caráter "fenótipo loiro" nunca se extinguirá, diz Axel Kahn. "Ele poderá ressurgir aqui ou lá, um pouco como fazem atualmente as doenças raras". O planeta não está protegido de novas surpresas. Atualmente, populações de loiros naturais estão se desenvolvendo entre os esquimós do oeste do Ártico canadense e os aborígines da Austrália central. "Nesses dois casos, trata-se possivelmente, analisa Peter Frost, dos primórdios de uma evolução por meio de seleção sexual, parecida com aquela que conheceram os europeus".



fonte:Le Monde
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