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segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Teoria Geral do Sentimento







Conheci tipos que viveram muito.
Estão mortos, quase todos: de suicídio, de cansaço,
de álcool, da obrigação de viver que os consumia.
Que ficou das suas vidas? Que mulheres os lembram
com a nostalgia de um abraço?
Que amigos falam ainda, por vezes, para o lado,
como se eles estivessem à sua beira?

No entanto, invejo-os.
Acompanhei-os em noites de bares e insónia
até ao fundo da madrugada;
despejei o fundo dos seus copos,
onde só os restos de vinho manchavam o vidro;
respirei o fumo dessas salas onde as suas
vozes se amontoavam como cadeiras num fim
de festa. Vi-os partir, um a um,
na secura das despedidas.

E ouvi os queixumes dessas
a quem roubaram a vida.
Recolhi as suas palavras em versos
feitos de lágrimas e silêncios.
Encostei-me à palidez dos seus rostos,
perguntando por eles - os amantes luminosos da noite.
O sol limpava-lhes as olheiras;
uma saudade marítima caía-lhes dos ombros nus.
Amei-as sem nada lhes dizer - nem do amor,
nem do destino desses que elas amaram.

Conheci tipos que viveram muito - os que nunca souberam nada da própria vida.



Nuno Júdice

segunda-feira, 5 de julho de 2010

...






Contam que se entrega aos ventos favoráveis
do amor. Estátua de mármores nocturnos,
assistiu a uma debandada de desejos
na pele dos amantes. No olhar calcinado
pela espera, derrama-se o fogo já frio
das vésperas inúteis. Para que lhe servem os braços,
agora que todos partiram, e só uma corrente
de silêncio a prende ao leito?

No entanto, deito-me com ela. Um degelo
de pálpebras limpa-nos de uma cinza
de solidão. E diz-me: «Quero perder-me
numa encruzilhada de abraços; afogar-me
num poço de gemidos; esquecer-me de mim
no fundo da tua memória.» Deixo-a
entregue a si própria; e pergunto o que fazer
do calor dos seus lábios, da ânsia
que os seus dedos soltam, do tempo
que estremece no seu corpo?


Nuno Júdice
foto:Monika Baginska

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009


Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite...



Nuno Júdice
foto: Geoffroy Demarquet

sexta-feira, 1 de agosto de 2008



Nem os dias longos me separam da tua imagem.
Abro-a no espelho de um céu monótono, ou
deixo que a tarde a prolongue no tédio dos
horizontes. O perfil cinzento da montanha,
para norte, e a linha azul do mar, a sul,
dão-lhe a moldura cujo centro se esvazia
quando, ao dizer o teu nome, a realidade do
som apaga a ilusão de um rosto. Então, desejo
o silêncio para que dele possas renascer,
sombra, e dessa presença possa abstrair a
tua memória.


Nnuno Júdice
foto: Nicola Novotny

domingo, 13 de julho de 2008



Este pássaro que nasceu não sei de onde,
que atravessa com o seu voo a imprecisão
da minha noite, que rasga com a lâmina
das suas asas a mortalha da insónia,
foi apanhado por um caçador de furtivos
silêncios. Agora, debate-se na gaiola
do esquecimento; recusa o poleiro para
que o cansaço o empurra; despeja
o bebedouro do tédio que lhe trazem
com a alpista das palavras. Já não canta;
e os seus olhos reflectem um horizonte
cego, como se tivesse perdido o rumo
das migrações. Mas não morre; e
ouço-o debater-se dentro de mim, quando
lhe aceno com o azul, e uma esperança
de céu o obriga a sonhar.


Nuno Júdice
foto: Monica Antonelli

domingo, 1 de junho de 2008


Plano



Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago.
No fundo, como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos.
Volto, então, à primeira hipótese. O amor.
Mas sem o gastar de uma vez, esperando
que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.


Nuno Júdice
foto: Elena Retfalvi

segunda-feira, 26 de novembro de 2007


Plano


Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor que se despeja no copo da vida, até meio,
como se o pudéssemos beber de um trago.
No fundo, como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na boca.
Pergunto onde está a transparência do vidro, a pureza do líquido inicial,
a energia de quem procura esvaziar a garrafa;
e a resposta são estes cacos que nos cortam as mãos,
a mesa da alma suja de restos, palavras espalhadas num cansaço de sentidos.
Volto, então, à primeira hipótese. O amor.
Mas sem o gastar de uma vez, esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.


Nuno Júdice
imagem: Amoureux-de-Vence, de Marc Chagall

sábado, 4 de agosto de 2007


O amor, um dever de passagem


Fui envenenado pela dor obscura do Futuro,
Eu sabia já que algo se preparava contra o meu corpo,
agora torço-me de agonia nos versos deste poema.
Esta é a terra outrora fértil que os meus dedos dilaceram.
Os meus lábios são feitos desta terra,
são lama quente.
Vou partir pelo teu rosto para mais longe.
A minha fome é ter-te olhado e estar cego.
Agora eu sei que te abres para o fogo do relâmpago.
Tenho a convicção dos temporais.
Já não sei nem o que digo nem o que isso importa.
Guia dos meus cabelos rasos, da melancolia,
da vida efémera dos gestos.
Nesse dia fui melhor actor do que a minha sinceridade.

A cesura enerva-me no estômago.
Cortei de manhã as pontas dos dedos mas sei já que
elas crescerão de novo a proteger as unhas.
Talvez a vida seja estranha.
talvez a vida seja simples,
talvez a vida seja outra vida.
A linha branca da Beleza é a minha atitude que se transforma.
A violência do sono sobe
sobre o meu conhecimento.

Fui algures um horizonte na secessão das pálpebras.


Nuno Júdice
foto:Sweetcharade

n.r.:Voltei!!!

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