quarta-feira, 16 de março de 2011

Alice





Alice ajeitava as meias nas pernas que teimavam em cair por conta do elástico que havia perdido a validade. Era dia de prova e eram as meias da sorte, diferentes em cada perna, porque Alice não era uma menina comum. Na perna direita, listras finas rosa pink e laranja e na esquerda, outra de bolinhas verdes e azuis.

Alice tinha alguns amigos invisíveis com os quais conversava constantemente, soltando sonoras gargalhadas na maioria das vezes, mas nunca foi motivo de piada na escola, descrevia seus amigos com tantos detalhes que havia coleguinhas que juravam tê-los visto perambulando pela escola. A melhor amiga invisível de Alice era Gabriela, ou Gabi.

Quem não gostava do jeito, digamos, bizarro de Alice, era a diretora da escola, uma mulher alta, gorda que parecia amassar barro enquanto andava, de tão pesada que era. Suas bochechas eram tão gordas e flácidas que balançavam enquanto ela andava ao mesmo tempo que diminuíam a boca de lábios muito finos. E tinha o cabelo tão negro amarrado num coque mal penteado que o conjunto a tornava uma figura assustadora.

O melhor amigo de Alice era Pedrinho, um menino hiperativo que vivia com as maçãs do rosto rosadas de tanto que corria de um lado pro outro, Pedrinho não sabia o que era andar, só corria. Seu cabelo cor-de-fogo, contrastava com a pele muito branca, mas tão branca que Alice dizia que ele era transparente.

No dia da prova, Alice chegou correndo à escola - atrasada como sempre - por culpa das ditas meias da sorte, já velhas. Pedrinho a ultrapassou na corrida, e olhando pra trás, riu e fez uma careta. Alice não aguentou e mandou bem alto...: - Você chega antes de mim, mas não antes da Gabi (a amiguinha invisível). Pedrinho era o único que morria de medo dos invisíveis porque uma vez, Alice disse que se ele não acreditasse eles puxariam a perna dele enquanto estivesse dormindo e isso aconteceria sempre às sexta-feiras. Nem é preciso dizer que depois disso, Pedrinho nunca mais dormiu tranquilo às sextas-feiras.

A prova era de português e Dona Conceição, a diretora, também era a professora de português dos dois. Alice, como evitava confusão com a "Dona Grande Panetone" (apelido que ela deu à professora), gostava de sentar no fim da sala e Pedrinho sentava sempre na primeira carteira, de cara com a mesa da professora, bem longe de Alice.

Alice que vinha atrasada, com as meias arriadas ao tornozelo e em altos papos com Gabi, nem reparou no taco solto logo à entrada da sala de prova e caiu redonda fazendo um imenso barulho. A gargalhada foi geral e ela viu sair dos olhos de Dona Grande Panetone várias facas minúsculas enquanto das narinas saía uma fumaça idêntica ao que o vapor velho que passava na fazenda dos avós, soltava.

Alice levou o maior sermão da professora e foi resmungando para o fim da sala enquanto Gabi puxava suas tranças.

A prova poderia ter corrido bem se Alice não achasse que devia se lembrar da matéria que estudou em voz alta com a amiga invisível, Gabi. Mas Alice tinha um mundo tão próprio quando apareciam seus amigos invisíveis, que esquecia que nem sempre podia se comunicar com eles em voz alta, e a professora já cansada de chamar várias vezes a sua atenção por falar durante a prova, rumou decidida ao encontro de Alice, enquanto seus pés batiam no chão fazendo barulho.

- Me dê a sua prova, Alice, acabou!
- Acabou o quê, professora?
- Acabou a sua prova.
- Mas de jeito nenhum, nem cheguei na metade. (respondeu alice com o nariz em pé que Deus fisicamente lhe deu)
- Não vou aturar mais o barulho que você está fazendo... me dê a prova já!

E começou o puxa-puxa da prova...

Enquanto a professora puxava a prova de um lado, Alice e Gabi puxavam do outro e nesse vai-não-vai, Alice vê a sua mãe que puxava o lençol tentando fazê-la acordar. Alice deu um salto da cama e eufórica sentou encostada à cabeceira, enquanto puxava pra cima de si o lençol porque sentia frio naquela manhã de julho, e começou a contar o sonho para a mãe:
- Deixa te contar o sonho mega bizarro que tive.
- Agora não, Lili, você precisa levantar e se arrumar, porque hoje é dia de prova.
- Mas mãe, é rapidinho...
- Alice (a mãe só lhe chamava assim quando precisava mostrar autoridade), conheço seus sonhos, são autênticas novelas e você vai se atrasar.
- Mas mãaaaaaae, só um pouquinho...
- Já disse que não, e como as suas meias da sorte rasgaram, quer dizer se desmancharam....
- Aaaaaaaaaaaaaaah, não, mãaaaaaaaaaaae!!! E agora, como eu vou fazer prova, como eu vou passar, como vai ser, por quê você rasgou, como aconteceu, como...????
E numa enchurrada de comos e porquês, a mãe dá uma risada e diz:
- Comprei uma coisa que tenho certeza que vai te dar sorte.
E a mãe, correndo toda serelepe até o armário de Alice, tira uma caixa que estava escondida no fundo de uma gaveta.
- O que é?
- Abre, ora!
Alice que já tinha um sorriso que rasgava de um lado ao outro do rosto, solta um grito: Gabi!!!
- Hein?
- É a Gabi! Minha amiga invisível do sonho...
- Tá bem, Lili, o nome da boneca é Gabi, agora vamos, sai já, já dessa cama.
- Mãe, cê não tá entendendo, a amiga invísivel do sonho...
Nisso, a mãe de Alice já foi saindo do quarto balançando a cabeça.
Alice levanta da cama e quando vai pegar a boneca, esta lhe pisca o olho.
- Ok, Gabi... entendi, é segredo!


Cris Caetano

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