quinta-feira, 29 de junho de 2006

Descaso com o patrimônio e a memória do Rio de Janeiro

Memória Nacional

Augusto César Malta de Campos, mais conhecido como Augusto Malta (1864-1957), nasceu em 14 de maio de 1864 em Mata Grande, Alagoas e com 24 anos veio para o Rio de Janeiro onde teve várias profissões. Aos 36 anos tornou-se fotógrafo amador. Apresentado ao prefeito Pereira Passos, acabou sendo nomeado fotógrafo oficial da Prefeitura do então Distrito Federal (Rio de Janeiro).

De 1903 a 1936, documentou um período de notáveis transformações urbanísticas e arquitetônicas na cidade, acompanhando as grandes remodelações do Rio de Janeiro de seu tempo, como o desmonte do Morro do Castelo, a abertura da Av. Central, a Exposição Nacional de 1908 e a Exposição Internacional de 1922, em comemoração ao Centenário da Independência do Brasil.

Malta também registrou a execução e a inauguração de obras públicas, monumentos, prédios históricos, carnavais antigos, os corsos e as batalhas de flores, flagrantes do momento, o surgimento das favelas, notícias e acontecimentos da época, em obra de inestimável valor histórico para a preservação da memória da cidade, muitas foram as cenas do dia-a-dia da nossa cidade, tendo acumulado mais de 80 mil chapas fotográficas em mais ou menos 50 anos de profissão. Compõem a Coleção, negativos de vidro e negativos panorâmicos.

Bem, esse seria o patrimônio de nosso passado, que nós, cidadãos da cidade do Rio de Janeiro tínhamos até duas semanas atrás. Mais uma vez roubaram nossos bens assim como destruíram muito da nossa memória, desta vez o roubo aconteceu no Arquivo Geral da Cidade. O fato há dias é de conhecimento público, mas a notícia que se segue saiu hoje numa das páginas do jornal O Globo:

"Arquivo não tem cópia de 300 fotos furtadas
por Cláudio Motta

Cerca de 20% das fotografias de Augusto Malta furtadas na semana passada do Arquivo Geral da Cidade podem ter sido completamente perdidas, segundo a diretora do arquivo, Beatriz Kushnir. Dos 15 mil retratos originais do acervo do fotógrafo, 1.500 foram levados. Há cópias de 80% dessas imagens, mas 300 podem ter sido apagadas da memória do Rio. Além das fotos, o Arquivo perdeu pelo menos 2.362 peças, incluindo cartões e aquarelas, descritas em sua página na internet. No total, os criminosos furtaram 3.862 itens do acervo, cuja descrição foi entregue à Polícia Federal.

- O levantamento do acervo furtado foi concluído na segunda-feira. Para isto, uma força-tarefa trabalhou de luto, superando a dor da perda. É fundamental que as pessoas saibam que esses originais têm marcações do Arquivo e isso dificulta sua venda. Ainda temos esperança de conseguir recuperar parte desse material. Apesar de todo esse trabalho, já estamos voltando a atender o público - disse Beatriz Kushnir.

Prefeito quer lista de acervo não recuperável

Além de mandar enumerar o material perdido, o prefeito Cesar Maia determinou que a lista fosse dividida entre o que pode ser recuperado, com cópias ou aquisição de outros exemplares, e o que não pode mais ser substituído. Esse levantamento, no entanto, ainda não foi concluído. Cesar Maia pediu, ainda, que a lista detalhada do patrimônio lesado fosse divulgado.

- Todas as pessoas devem saber exatamente o que foi furtado - disse Maia.

As fotografias de Malta estavam distribuídas em álbuns e, a grande maioria, em pastas do depósito. Por isto, apesar de 19 dos 27 álbuns terem sido furtados (cerca de 70% do total), foram perdidos 1.500 retratos de 15 mil, ou seja, 10% do acervo.

A Secretaria municipal das Culturas também instaurou um inquérito administrativo, mas não revelou se algum funcionário do Arquivo da Cidade foi afastado de seu cargo. A lista do acervo furtado e algumas imagens podem ser vistas em www.rio.rj.gov.br/arquivo

Delegada da PF assume investigação do furto

Segundo a Superintendência Regional da Polícia Federal no Rio de Janeiro, a responsabilidade pela investigação desse furto está desde anteontem com a delegada Isabelle Vasconcelos. Ela é da Delegacia de Repressão a Crimes Contra o Meio Ambiente e Patrimônio Histórico e ainda aguarda o resultado da perícia técnica. A polícia não informou se identificou suspeitos nem se o furto foi feito em mais de um dia.

O furto foi descoberto há dez dias, quando funcionários constataram que pelo menos uma foto desaparecera entre os dias 15 e 18 de junho, quando o arquivo esteve fechado ao público. O secretário municipal das Culturas, Ricardo Macieira, suspeita que o crime tenha sido praticado por uma quadrilha especializada."


Como carioca tentei me sentir profundamente emocionada ao saber que a força tarefa criada para agilizar o levantamento das imagens perdidas trabalhou em luto, mas sinto muito não ter lágrimas para derramar em comunhão com essas pessoas. A cultura do meu país é tratada com descaso, não foi a primeira vez que um prédio público, guardião de obras importantíssimas foi facilmente furtado em menos de um ano. Fica sempre constatado o óbvio, a inexistência de uma infraestrutura de segurança moderna e eficiente quando temos novamente notícia de um número imenso do nosso patrimônio furtado. É ingênuo considerar um carimbo do Arquivo como dificuldade para a venda dessas imagens. Dizer isso, é considerar a segurança de Museus como o Louvre ou do Museu do Prado, uma completa idiotice por eles guardarem obras de artistas mundialmente conhecidos.

Praça 11


Passeio Público


n.r.: As fotos são do site "Alma Carioca" (www.almacarioca.com.br). Não tenho nenhuma informação se estas fotos fazem parte das que foram roubadas.


fonte: Alma Carioca e O Globo

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