quarta-feira, 4 de abril de 2007

Meu mundo por chocolate

Eles se autodefinem chocólatras e reconhecem a dependência


Na época da Páscoa geralmente as pessoas aproveitam para saciar a vontade de comer chocolate e se esbaldam comprando ovos, caixas de bombom e barras de chocolate. Mas para um grupo específico a tentação vem em qualquer dia, a qualquer hora. São os chamados “chocólatras”, viciados na iguaria, seja pelo prazer que ela proporciona, seja até mesmo pelos bons momentos a que ela remete.

A publicitária Patrícia Losano Khouri, de 31 anos, fez até promessa como demonstração de amor à iguaria. Ela come chocolate 325 dias por ano. Os outros 40 dias são de pura abstinência. “Não como chocolate durante a Quaresma (período entre o carnaval e a Páscoa). É um sacrifício que faço, uma penitência”, disse.

Como toda promessa, o cumprimento é feito a duras penas. “Estou sonhando com o domingo de Páscoa. Você sente o gosto do chocolate. É desesperador”, contou ela, que disse não tirar da cabeça a imagem de um outdoor que viu na rua com diferentes e deliciosos ovos de Páscoa.

A estudante Hanna Goldenstein, de 21 anos, não quis esperar o feriado. “Já comi um ovo”, admitiu ela, que recorre ao doce em momentos de aflição. “Quando estou nervosa, como chocolate. Ele me dá uma sensação de calmaria, me deixa relaxada”.

O privilégio não é só de Hanna. O psiquiatra Arthur Kaufman explicou que o chocolate está ligado a sensações de bem-estar. “Comer chocolate estimula a produção da endorfina, que dá a sensação de prazer, e da serotonina, neurotransmissor responsável pelo humor”, disse ele, que trabalha no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo (HC).

O médico explicou que, como pessoas depressivas têm a taxa de serotonina baixa, acabam usando o chocolate como antidepressivo. Até porque, na maioria dos casos, o doce traz boas lembranças. “O chocolate está presente em todos os melhores momentos da vida. Remete a festas, bolo, brigadeiro”, disse Kaufman.

Se a intensidade de alegria de uma pessoa estivesse condicionada à quantidade de chocolate que ela come, Kaufman não teria ouvido histórias de gente que sofre por gostar tanto da sobremesa.

“Alguns pacientes diziam que era tortura. Uma professora mudava seu caminho de rotina para não encontrar pessoas e dividir o chocolate que comia. E uma avó contava que escondia o chocolate dos netos quando estava com eles”, disse o psiquiatra, que coordena o Projeto de Atendimento ao Obeso (Prato), do HC.

Apesar disso, os especialistas concordam que não existe um tratamento específico para quem se diz chocólatra, como existe com os dependentes químicos. “Se tivesse algum tratamento, seria com o uso de antidepressivos”, disse Kaufman.

Para o terapeuta comportamental Florival Scheroki, no entanto, é um exagero dizer que as pessoas são viciadas em chocolate. “Ele não tem substâncias que gerem crise de abstinência, mas aquelas que comem todo dia e cortam de repente sentem desconforto”.

Doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo, Scheroki explicou que as pessoas são incentivadas desde pequenas a gostar do doce. “O ambiente é importante no comportamento alimentar. Comer chocolate não remete a uma atitude punitiva”.

Para a atriz Daniela de Souza Lobo Stirbulov, de 20 anos, a vontade de comer o doce derivado do cacau é algo "compulsivo". "Como pratico esportes, posso comer bastante. Como chocolate todo dia. Dependendo da fase, se estou de TPM (tensão pré-menstrual), como até mais."

Esse "mais" da jovem pode ser devorar uma caixa de bombom ou um ovo de Páscoa inteiro sozinha. "Na Páscoa, piora. Abro os ovos e não páro de comer", admitiu. É consenso entre os chocólatras que a melhor hora para degustar um chocolate é qualquer hora.

A paixão pela iguaria fez com que a paulistana Cristiane Spezzaferro criasse uma comunidade no site de relacionamentos Orkut chamada “Associação dos Chocólatras Anônimos”, que tem 2.013 membros. Existem pelo menos outras 100 comunidades semelhantes.

A relação dela com o doce começou na cozinha de casa. “Minha mãe faz ovo de Páscoa. Sempre tive barras para comer. Não tenho hora. Se pudesse, comia o dia inteiro”, disse ela, cujo consumo diário é de seis bombons.

Consumo um tanto exagerado na opinião da nutricionista Anita Sachs, chefe do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Para ela, o máximo recomendado é comer 50g diariamente. “Se a pessoa não precisa controlar o peso”, alerta.

De acordo com Anita, 100g de chocolate correspondem a 550 calorias, o mesmo presente em uma refeição com arroz, feijão, carne, hortaliça refogada e um copo de suco.

Para quem quer curtir a Páscoa sem culpa, a nutricionista dá uma dica: “Antes de comer chocolate, a pessoa pode tomar três copos de água para se sentir saciada”. Quem não abre mão de abusar dos ovos no feriado, pode compensar com dieta ou exercícios físicos. “O chocolate é altamente calórico”. Tente convencer um chocólatra disso.


n.r.: eu faço aqui um mea culpa na boa, mas sou uma chocólatra com algum auto-controle, que quer dizer que agüento um mês direto sem chocolate. Mas a Páscoa é A perdição, venho ganhando ovinhos e bombonzinhos de amigas e um ovo pré-Páscoa que venho consumindo há algumas semanas. Tenho certeza que Deus perdoa!


fonte:G1
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