quarta-feira, 4 de abril de 2007

Festival de Montreux

O legendário Festival de Jazz de Montreux põe fim a uma época da história da música. A decisão de fechar definitivamente a sala do mítico Cassino de Montreux, assim como a de reduzir em 35% as apresentações, anuncia "novos tempos" depois de 40 anos em que soube conquistar o apelido de Olimpo dos Festivais.


O que têm em comum Tom Jobim, Astor Piazzolla, Tori Amos, Ornette Coleman, Elis Regina, Bill Evans, Paco de Lucía e Herbie Hancock, além de um talento musical incomum? Todos eles passaram em algum momento de suas carreiras pelo célebre palco do Cassino Barrière de Montreux, na Suíça, ponto de encontro dos amantes da melhor música popular das últimas décadas.

O pequeno auditório às margens do lago Leman viu passar alguns encontros musicais antológicos em suas quatro décadas. Mas a implacável lei do mercado, a feroz concorrência entre festivais europeus e vários anos de números vermelhos parecem ter conseguido acabar com uma das salas mais emblemáticas da cena mundial.

Provavelmente os leitores mais avisados e veteranos lembram da origem de um dos hinos históricos do rock: "Smoke on the Water", dos britânicos Deep Purple. Essa canção nasceu como lembrança da noite de 4 de dezembro de 1971, quando o antigo Cassino de Montreux queimou até os alicerces, sem que por sorte fosse necessário lamentar vítimas. As primeiras linhas da canção dizem assim: "Todos nós viemos a Montreux...", para continuar falando da "fumaça sobre a água e o fogo no céu", além de "funky Claude" e sua luta contra as chamas.

"Funky Claude" não é outro senão Claude Nobs, fundador e presidente do Montreux Jazz Festival. Nobs, que é considerado por seus compatriotas "o suíço vivo que mais fez pela promoção de seu país no exterior", anunciou à imprensa as novas medidas que afetarão a partir do verão deste ano a menina de seus olhos. Isto é: o fechamento do Cassino, a redução das apresentações entre 35% e 40%, a centralização de todos os concertos na Sala Miles Davis e Auditório Igor Stravinski do Palácio dos Congressos, o que implicará uma economia próxima de 400 mil euros, e o abandono do "jazz", a moeda oficial do festival há anos.

O "jazz" era uma das numerosas curiosidades desse festival quase incomensurável. Dentro do recinto a única moeda válida, tanto para comer uma salsicha como para comprar uma camiseta, era o "jazz". Os visitantes tinham de adquiri-la trocando em caixas habilitadas para isso o valor de um franco suíço - 60 centavos de euro - por "jazz". "Um verdadeiro estorvo", comentou a este jornal Mathieu Jaton, secretário-geral da Fundação do Festival. Jaton mostra-se otimista diante da nova etapa. "Creio que as mudanças são positivas, pois com a passagem do tempo percebemos que havia problemas demais e que o público era quase obrigado a escolher entre dois festivais paralelos", explica. Na opinião dele, "a oferta era tão enorme que confundia o público".



No fundo ele tem razão, já que muitas vezes era uma autêntica dor de cabeça ser obrigado a decidir em uma mesma noite entre Sting, Black Eyed Peas e Juliette Gréco, ou entre Simply Red, Tracy Chapman e Diana Krall... todos na mesma hora. Um verdadeiro martírio para os amantes da música. Mathieu Jaton continua explicando as mudanças: "Passaremos de 120 concertos em três salas para 80 em duas salas, o que sem dúvida facilitará muito a vida do público".

Já no último verão, Claude Nobs comentou irritado que "ver-se reduzido a vender salsichas aos 70 anos para arredondar os orçamentos é intolerável".

De fato, as bebidas e comidas rápidas são uma das principais fontes de renda do festival, e seus custos vão diminuir, já que as queixas sobre os preços eram comuns. Diante do preço de algumas apresentações extraordinárias, como a de Sting no verão passado, a 200 euros, Montreux nunca foi considerado um evento popular.

Para o próximo verão, a Jaton já anuncia "surpresas como Van Morrison Project, os Beastie Boys, o novo projeto de Medeski, Martin & Scofield ou a eletrônica de The Good, The Bad & The Queen". O orçamento do festival para 2007 será de 11 milhões de euros, distribuídos por duas semanas. Sem dúvida, o sonho de muitos promotores de espetáculos.


fonte:El País

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