sábado, 22 de março de 2014

Vamos falar de coisa séria?



Não sou de vir ao Nuvens no fim de semana, mas hoje o dia merece um registro. 


Por mais estapafúrdio que pareça, no dia de hoje foi marcada uma manifestação em todo o Brasil, a "Marcha das Famílias com Deus pela Liberdade", um revival da mesma marcha que ocorreu em 1964, que antecedeu ao Golpe Militar. 

A marcha que foi uma resposta à "ameaça comunista" na época. Sim, pasmem, existem pessoas no Brasil que acreditam que vivemos sob ameaça comunista, há quem creia que vivemos numa Ditadura de Esquerda e há quem creia que uma intervenção militar é a solução para todos esses males que estaríamos vivendo no Brasil.

Este tipo de pensamento beira a linha tênue entre o horror e o patético. Eu fico imaginando que apenas viúvas da Ditadura e elementos da mesma é que podem sentir saudades daquela época.

Bem, de qualquer maneira, venho informar que a adesão foi ridícula, e que Deus não compareceria a uma manifestação em prol de torturadores e assassinos. No Rio de Janeiro, compareceram umas 100 pessoas, 200 em São Paulo, 40 em Brasília, 3 em Florianópolis e por aí vai. Abaixo segue o oportuno texto que Zuenir Ventura escreveu para o jornal O Globo, com relação à tal marcha e não só.

E só para complementar. foi muito bom descobrir que a imbecilidade não assola a grande maioria do povo brasileiro.


OS LIMITES DO PERMITIDO
, por Zuenir Ventura


Está marcada para hoje em SP a reedição da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, organizada pelos que, insatisfeitos com o presente, acham que a solução é a volta dos militares ao poder. Muita gente considera o ato uma provocação, no momento em que são reveladas as atrocidades cometidas pela ditadura implantada no país há meio século.

Como contrapartida, também está sendo convocada a Marcha Antifascista. São manifestações que fazem parte do jogo democrático, desde que realizadas dentro da ordem. No primeiro caso, ressalte-se a curiosa contradição: vão pedir o retorno de um regime que se caracterizou justamente pela proibição de protestar. É usar a democracia para tentar acabar com ela.

O pretexto é o mesmo do passado: temor de um golpe comunista, num país em que foi mais fácil pôr fim ao comunismo do que ao eterno anticomunismo. Há dias, o ex-ministro José Serra, presidente da UNE em 1964, escreveu que “nada mais fantasioso do que supor que o Brasil pudesse virar uma Cuba ou que a esquerda, em 63-64, estivesse armada”.

O mesmo poderia ser dito hoje. Mas, nas palestras e debates desse concorrido ciclo sobre os 50 anos do golpe, a democracia tem sido muito questionada, principalmente pelos jovens.

Há uma certa nostalgia de um tempo idealizado, não vivido, estimulada por aqueles mais velhos que acham que tudo piorou: a corrupção, a impunidade, a violência urbana, o crime organizado, a lentidão da Justiça, a banda podre da polícia, a inoperância enfim das instituições. Será que isso já não existia naquela época?

De uma maneira ou de outra, claro que sim, só que a opinião pública não sabia, a censura não deixava. Com a liberdade de imprensa e a disputa de mercado, sabe-se tudo. Se um veículo não publica, o concorrente escancara. E assim temos um país que às vezes cheira mal, tem aspecto ruim, mas é um nervo completamente exposto.

Essa superexposição, porém, não pode servir de álibi para não se corrigir as mazelas de um sistema imperfeito com cara de impotente. Não basta expor os defeitos, é preciso corrigi-los. Uma indignação resignada, feita de críticas e denúncias, está criando uma espécie de inconformismo conformado, sem poder de transformação.

Na política, a hipocrisia, em que se finge ser o que não se é, foi substituída pelo cinismo, em que se assume o que se é, mas trocando os sinais. O vício vira virtude e o culpado posa de vítima, como no caso dos mensaleiros.

A verdade é que há limites de permissividade sendo testados. Protestos rotineiros com ônibus incendiados e quebra-quebra por qualquer motivação são apenas um exemplo. O mais grave, no entanto, é a prática da justiça pelas próprias mãos. Num momento de confusão como o atual, é preciso ficar claro que democracia é tolerância, mas não leniência, é liberdade com lei, não anarquia.


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