segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Xingamento



Resolvi partilhar isto hoje porque concordo totalmente com o Gregorio Duvivier, e me aproveitando do fato dele fazer essa matéria a respeito dos comentários que as pessoas fazem, confesso que gostava de ler os comentários sobre as notícias, basicamente porque achava que poderia aparecer algum que fosse inteligente e me acrescentasse algum conhecimento, mas perdi esse hábito pelos constantes xingamentos que lia usualmente, e me sentia incomodada também ao ler uma mulher ser xingada, mas defendê-la seria virar a próxima vítima.


Da primeira vez que fiz um comentário - já não me lembro sobre o quê - numa publicação de jornal, fui acusada de ser evangélica, como se o que eu tivesse escrito fosse uma atitude típica (e reprovável) de uma evangélica (acho que ser evangélico virou defeito depois de algumas personalidades políticas destilarem seus preconceitos, mas enfiar todo evangélico no mesmo saco é ser tão preconceituoso como essas pessoas). Além deste "defeito" também recebi outros adjetivos impublicáveis aqui. Não sou evangélica, nunca fui, sou espírita praticamente desde que nasci, então imagina a viagem que a pessoa faz ao tentar te ofender na internet. Provavelmente eu seria chamada de macumbeira se dissesse que era espírita, mas como não sou do candomblé ou umbanda e não faço oferendas, rebateria o adjetivo e se rebatesse, provavelmente eu receberia algum outro adjetivo também ofensivo e o preconceito e as ofensas não teriam fim; e este é um exemplo do comportamento na internet, triste não? Mas como não tenho a menor intenção de ficar me desgastando em bate-bocas, na altura não respondi e passei a ler apenas as notícias e abstrair dos comentários e comentar, nunca mais.

Muitas pessoas se sentem protegidas pelo distanciamento físico que a internet proporciona e com isso, aproveitam para destilarem suas frustrações em cima dos outros através de xingamentos... é triste, essas pessoas precisam de ajuda e não se dão conta disso. Bem, chega de blá blá e vamos ao texto do Gregorio, é logo aí abaixo.

 





por Gregorio Duvivier




Puta, piranha, vadia, vagabunda, quenga, rameira, devassa, rapariga, biscate, piriguete. Quando um homem odeia uma mulher — e quando uma mulher odeia uma mulher também — a culpa é sempre da devassidão sexual. Outro dia um amigo, revoltado com o aumento do IOF, proferiu: "Brother, essa Dilma é uma piranha". Não sou fã da Dilma. Mas fiquei mal. Brother: a Dilma não é uma piranha. A Dilma tem muitos defeitos. Mas certamente nenhum deles diz respeito à sua intensa vida sexual. Não que eu saiba. E mesmo que ela fosse uma piranha. Isso é defeito? O fato dela ter dado pra meio Planalto faria dela uma pessoa pior?

Recentemente anunciaram que uma mulher seria presidenta de uma estatal. Todos os comentários da notícia versavam sobre sua aparência: "Essa eu comeria fácil" ou "Até que não é tão baranga assim". O primeiro comentário sobre uma mulher é sempre esse: feia. Bonita. Gorda. Gostosa. Comeria. Não comeria. Só que ela não perguntou, em momento nenhum, se alguém queria comê-la. Não era isso que estava em julgamento (ou melhor: não deveria ser). Tinham que ensinar na escola: 1. Nem toda mulher está oferecendo o corpo. 2. As que estão não são pessoas piores.

Baranga, tilanga, canhão, dragão, tribufu, jaburu, mocreia. Nenhum dos xingamentos estéticos tem equivalente masculino. Nunca vi ninguém dizendo que o Lula é feio: "O Lula foi um bom presidente, mas no segundo mandato embarangou." Percebam que ele é gordinho, tem nariz adunco e orelhas de abano. Se fosse mulher, tava frito. Mas é homem. Não nasceu pra ser atraente. Nasceu pra mandar. Ele é xingado. Mas de outras coisas.

Filho da puta, filho de rapariga, corno, chifrudo. Até quando a gente quer bater no homem, é na mulher que a gente bate. A maior ofensa que se pode fazer a um homem não é um ataque a ele, mas à mãe — filho da puta- ou à esposa — corno. Nos dois casos, ele sai ileso: calhou de ser filho ou de casar com uma mulher da vida. Hijo de puta, son of a bitch, fils de pute, hurensohn. O xingamento mais universal do mundo é o que diz: sua mãe vende o corpo. 1. Não vende. 2. E se vendesse? E a sua, que vende esquemas de pirâmide? Isso não é pior?

Pobres putas. Pobres filhos da puta. Eles não têm nada a ver com isso. Deixem as putas e suas famílias em paz. Deixem as barangas e os viados em paz. Vamos lembrar (ou pelo menos tentar lembrar) de bater na pessoa em questão: crápula, escroto, mau-caráter, babaca, ladrão, pilantra, machista, corrupto, fascista. A mulher nem sempre tem culpa.



fonte: Folha de S.Paulo

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