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terça-feira, 3 de novembro de 2009

Mãos



Minhas mãos não são minhas mãos
são pássaros rasando a tua pele nua

são voos planados descobrindo céus
imagens loucas de total candura

Minhas mãos somente
inventam barcos e partem à procura
das tuas mãos nas minhas.


Bernadete Costa
foto: Tommy Edwards

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

I


trago no peito uma saudade antiga
eterno segredo de embalar a ternura num berço de névoa

tenho um pomar que não cheiro
e uma música que não decifro

lá fora mora o medo e uma guitarra despenhada

trago no peito a saudade citrina de amar.


Isabel Mendes Ferreira
foto: Tommy Edwards

sexta-feira, 3 de abril de 2009



... Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

... subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo...
...Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se...


Daniel Filipe
foto: Tommy Edwards

terça-feira, 16 de dezembro de 2008



hoje, acordei
menina

mulher
me cobri com uma pele de tigre
esperando-te numa toca
entre nuvens de algodão
o corpo acomodado
num colchão de mar
onde desagua o teu rio
distante

tocas-me
com as tuas palavras
com os teus sussurros

toco-te
com as minhas palavras
os meus gritos


e os dedos entrelaçados em nós
de redes invisíveis
crispam-se em volta da lua
que tem a forma do teu coração



O'Sanji in Planoalto2
foto: Tommy Edwards

segunda-feira, 27 de outubro de 2008



Entraste devagarinho dentro de mim. E eu deixei.
Inundaste-me com a alegria de um menino. E eu sorri.
Dançámos todas as danças que havia para inventar. Estremeci
e o teu coração bateu forte, apressado.
No vai e vem das marés andámos por caminhos proibidos. E tu sabias.
Demos as mãos com a ternura do amor primeiro. O nosso.
Pintámos esse amor com o vermelho da paixão. Vivido.
Das palavras que nos dissemos só uma ficou acordada. Falo da saudade
Todas as outras adormeceram no tempo no dia na hora que não escolhemos
Vejo os teus olhos que me sorriem e tu não me vês.
Dou-te um abraço apertado que tu não sentes.
Beijo-te o corpo sem te tocar e amo-te!
Mantenho o teu cheiro, que guardo com todos os sentidos.
Vives rente ao meu coração que ainda bate descompassado, por ti.
Agora sou eu que quero sair de dentro de mim.
Estilhaçar-me em mil pedaços.
… e não consigo…


Maria in O Cheiro da Ilha
foto: Tommy Edwards

quarta-feira, 24 de setembro de 2008



Preciso amar-te por isso digo fica
esta noite...
... Fica esta noite, ainda
outra, o tempo que demorar a cumprir
a decisão de amar-te...
... apenas vou precisar amar-te, depressa.


Helder Moura Pereira
foto: Tommy Edwards

terça-feira, 15 de janeiro de 2008



Tinhas a pele arrepiada pelo sentimento. Os olhos rasos de contentamento. A vida trazias nas mãos abertas. E o fruto do nosso encontro era uma alma cheia de presente, sem medo do futuro e sem necessidade de olhar o passado.
Querias-me assim como eu te queria. Eternamente. Que era o mesmo que dizer, enquanto durasse. O nosso eterno era o momento, pleno, e não havia promessas feitas ao entardecer. O que dávamos estava em todos os gestos, em todos os olhares, no encontrar dos corpos. Nada de planos para o futuro, nada de palavras vãs para encher o vazio. Não existia o vazio.
Mas quando olhávamos para nós sentimo-nos cheios de mais. A sonhar o que não podíamos ter uma vida inteira. Não acreditávamos que a vida se desse assim, como uma fruta fresca em pleno verão. Estranho o destino humano. Tudo o que é bom demais faz-nos afastar, evitar. Nem sequer tocamos com o medo de estragar. Para que nada mude, não chegamos a viver tudo o que se oferece aos nossos olhos. E partimos antes mesmo de chegar.

Ana Teresa Silva


fonte:Plan(o)alto
foto: Tommy Edwards

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