segunda-feira, 17 de julho de 2006

Letônia - Criando identidade por meio das artes

por Anne Midgette

São duas da manhã em Riga, e as ruas calçadas de pedra da Cidade Velha estão lotadas. A loja de "pelmeni", onde você pode se encher de macarrão (a resposta ao ravióli da antiga república soviética) por US$ 1 ou US$ 2 (entre R$ 2,20 e R$ 4,40) está vendendo muito. Uma fila de adolescentes, bem humorados e ligeiramente barulhentos, serpenteia para fora do templo da música alternativa Pulkevedim Neviens Neraksta (Ninguém Escreve ao Coronel).


Prédio histórico restaurado em Riga, capital da Letônia

As janelas enquadram pessoas dançando com música alta: em um restaurante, fechado para uma festa privada; em uma boate que reservou um espaço na vitrine para suas dançarinas stripper; e mais estranhamente, em uma sala de chá, onde corpos exuberantes cavaram um espaço para dançar no meio das mesas redondas e tilintar de xícaras.

Regras? Que regras? Riga, culta, energética e jovem, as cria na medida em que avança. A Letônia é o país mais pobre da União Européia, mas Riga, sua capital, é a cidade mais cosmopolita do Báltico, com lojas elegantes, museus novos, hotéis e restaurantes modernos e apenas traços do que a Letônia hoje chama de ocupação soviética (termo que gerou certo esfriamento nas relações do país com a Rússia).

Empresários estão descobrindo como novas idéias podem dar dinheiro. Por que, por exemplo, um restaurante não pode virar uma boate à noite? Por que os chefes de cozinha da cidade devem continuar presos a peixe, pão preto de centeio e ervilhas cozidas com bacon - prato tradicional da Letônia - enquanto existem tantos novos ingredientes da cozinha de "fusão": lichia, jalapenos, molho hoisin e dim sum?

E por que, indagam os pais e mães da cidade (mulheres têm um grande papel nesta jovem sociedade), as instituições culturais de Riga devem continuar presas ao passado? A vida de concertos clássicos de Riga, que foi abruptamente cortada do sistema soviético, está em movimento, prestes a gerar outra orquestra; os curadores da cidade planejam a construção de um museu de arte contemporânea; e a ópera de Riga é reconhecida como uma das melhores do antigo Bloco Oriental.

A ópera é uma boa metáfora da nova Riga: sua fachada séria esconde uma exuberância subjacente. Pálida e neoclássica, fica na faixa de parque que divide as duas metades da cidade: a Cidade Velha, do mundo antigo, e a seção mais jovem que cresceu fora dos muros da velha fortaleza do século 19 e agora é conhecida como Centro, confundindo os visitantes.

O teatro foi restaurado ao seu esplendor de 1863, com piso de madeira resplandecente, detalhes folheados a ouro e reboco trabalhado; novas expansões deram mais espaço para ensaios e escritórios. A instituição foi dirigida nos últimos dez anos por um diretor carismático e pouco convencional, chamado Andrejs Zagars, que apresenta jovens diretores e cantores de vanguarda vindos de fora.

Zagars, do alto de seus 2 metros, com um olhar penetrante e mandíbula quadrada de astro de cinema e expressão de um gato satisfeito, traz ao cargo experiência artística e empresarial. Nos anos 80 e início dos anos 90, era ator de sucesso; depois do rompimento com a União Soviética, ele abriu e administrou uma série de restaurantes.

"Quero envenenar os letões com ópera", diz ele, falando em seu escritório antes da recente estréia da companhia de "Das Rheingold". "Quero criar um vício."


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fonte: The New York Times

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