sexta-feira, 19 de dezembro de 2008



Todos os comboios te trazem até mim,
pequena luz do meu desassossego,
num sussurro de promessa inconfessada,
num desafio de pergunta sufocante.
Vais e voltas, audaz e indefesa,
na migração branda de todos os afectos
e é instinto que me dá do teu nome
o timbre e o tom das revelações que embriagam.
Nunca a distância pôs tão perto
a mão que treme e a tentação do lume.
Vais e voltas e sem que o saibas
é por mim que vens e é por ti que parto,
que o sentimento que sustenta estes dias
é volátil e breve como um pássaro de névoa,
como uma serpente de jade, como um fumo
de ópio num encontro contra o tempo,
contra a pressa com que o tempo se disfarça e aniquila.
Vais e voltas e é de mim que te apartas
nesse fogo de quereres estar não estando,
nessa inquietude de seres gare e cais
quando tudo em ti pede que sejas apenas casa e corpo.
E como eu te imito, te repito e sigo
nesse assombro de acordarmos em nós
o sobressalto da lava que faz do enlace
uma extrema e indefinível comoção.



José Jorge Letria
foto: Christian Coigny

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