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sexta-feira, 27 de abril de 2007

Livro medieval revela comentário antigo sobre Aristóteles

Especialistas descobriram comentários sobre uma das obras mais importantes de Aristóteles em um pergaminho medieval.

Uma equipe internacional analisou um livro de orações no qual já havia sido encontrado um trabalho do matemático Arquimedes e do político Hipérides, um político ateniense do século 4 a.C.

O livro é conhecido como Palimpsesto de Arquimedes. O palimpsesto é um antigo material de escrita, um tipo de pergaminho. Devido à escassez deste material, ou ao seu alto preço, ele era usado duas ou três vezes, depois de passar por uma raspagem do texto anterior.

Os dois textos foram encontrados no livro de oração medieval em 2002. Agora, com uso de tecnologia mais avançada, os especialistas encontraram o terceiro texto, um comentário mais antigo do que os outros dois a respeito da obra de Aristóteles.

A obra comentada é Categorias, considerada como fundação para o estudo da lógica na história ocidental e foi encontrada devido a uma série de pistas, como um nome importante na margem de uma página.

Reciclagem no século 13

O livro de orações foi escrito no século 13 por um copiador chamado John Myronas. Ao invés de usar pergaminhos novos para o trabalho, ele usou páginas de cinco livros já existentes.

"É um processo brutal, mas significava que era possível reaproveitar um pergaminho se o material estivesse em falta. Tira-se o livro da prateleira, o texto é esfregado até apagar, os livros são cortados e aí você tem um novo livro", disse William Noel, diretor do projeto.

Noel também é curador dos manuscritos no museu americano Walters Art e co-autor de um futuro livro sobre o Palimpsesto de Arquimedes.

Em 1906, foi descoberto que um dos livros reciclados para formar o manuscrito medieval continha um trabalho único de Arquimedes.

"Você imagina que conseguir encontrar um palimpsesto é muita sorte, encontrar dois é surpreendente. Mas algo ainda mais extraordinário aconteceu", afirmou o pesquisador.

Um dos livros reciclados era de leitura extremamente difícil, de acordo com Roger Easton, professor de ciência de imagem no Instituto de Tecnologia Rochester, nos Estados Unidos.

"Estávamos usando uma técnica chamada imagem multiespectral", disse.

A técnica de imagem digital usa fotografias tiradas em diferentes extensões de onda para destacar características particulares de uma área analisada. Ajustes sutis deste método permitiram que as palavras escondidas fossem reveladas. "Mesmo não entendendo grego antigo, apenas o fato de que eu podia ver as palavras me deu arrepios", disse Easton.

Tradução

Estudos mais detalhados revelaram que o autor mais provável destes comentários da obra de Aristóteles é Alexandre de Afrodisias, segundo o professor Robert Sharples do University College de Londres.

Se isso for verdade, segundo o professor, o manuscrito "nos dá parte de um comentário que pensávamos estar perdido, feito por um dos mais importantes comentaristas da obra de Aristóteles na Antigüidade".

Uma tradução temporária está sendo feita e revela o debate sobre alguns aspectos da teoria de classificação de Aristóteles como: se a expressão "que tem pés" pode ser usada para classificar algo mais, como uma cama.

"Pois como 'pé' é ambíguo quando aplicado a um animal e para uma cama, assim como 'com pés' e 'sem pés'. Então, por 'em espécies' aqui (Aristóteles) está afirmando 'em fórmula'."

"Pois se alguma vez acontece que o mesmo nome indica a diferença de gêneros que são diferentes e não subordinados um ao outro, eles não são, em qualquer classificação, a mesma fórmula."


Segundo o professor William Noel, "não existe um filósofo mais importante no mundo do que Aristóteles". "Temos um livro que contém três textos do mundo antigo que são absolutamente centrais para nosso entendimento de matemática, política e, agora, filosofia".


fonte:BBC Brasil

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Devolução dos mármores de Elgin

British Museum estuda empréstimo de mármores à Grécia


O devolvo/não devolvo já vem desde o ano passado, e agora a idéia é de um emprétimo! O British Museum de Londres considera a possibilidade de devolver à Grécia os mármores de Elgin do Parthenon, levados para a Inglaterra no começo do século 19.



Neil MacGregor, diretor da instituição londrina, disse que é possível que os mármores sejam enviados para Atenas "de forma provisória" - contanto que as autoridades gregas "reconheçam" que as obras "são de propriedade britânica".

A Grécia defende que ocorreu uma apropriação ilegal e que as peças devem ser devolvidas. "Não há razão alguma para que qualquer objeto do British Museum, sempre que estiver em boas condições para viajar, não passe três ou seis meses em algum país do mundo", destacou o diretor.

Mármores de Elgin é o nome popular dado a uma extensa coleção de mármores procedentes do Parthenon grego. A posse desses mármores antigos foi motivo de disputa desde que foram retirados da Acrópole, entre 1803 e 1812. Essas esculturas foram levadas para a Inglaterra por Thomas Bruce, o lorde Elgin, na época embaixador britânico no império Otomano, e foram vendidas ao governo do Reino Unido em 1916. Desde então, a Grécia pede insistentemente a devolução das peças que datam de 432 a.C..

"A dificuldade de emprestar esses mármores para a Grécia é que as autoridades desse país negaram recentemente que a propriedade dos mármores seja do British Museum", acrescentou MacGregor. Cerca de metade das esculturas estão no Parthenon, e Atenas espera poder reunir o restante para inaugurar o museu da Acrópole.

No total, a coleção do British Museum representa mais da metade das esculturas decorativas do Parthenon. As apropriações de Elgin incluíram peças de outros edifícios da Acrópole de Atenas: o Erectéion, reduzido a ruínas durante a guerra da Independência Grega (1821- 1823), os Propileos e o Templo de Atenea Niké.

Os mármores de Elgin incluem algumas estátuas, os painéis de Métopa e o piso do Parthenon, que decorava a parte interna do templo.

n.r.: ainda bem que nos dias atuais, no Egito, é proibido sair do país qualquer descoberta arqueológica, quanto mais o que já foi descoberto.


fonte:Folha Online

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Museu do Sal da Sicília

Na Estrada do Sal da Sicília, uma arte bem antiga resiste ao teste do tempo


por Stephen Heuser


Há milhares de anos, antes de a Sicília se tornar famosa como terra natal da Máfia; antes de perder a distinção de ser conhecida pelas laranjas mais perfeitas do mundo; antes de ser conquistada pelos italianos ou pelos sarracenos ou antes mesmo dos tempos da Roma antiga, esta vasta ilha no Mediterrâneo era concorrida e famosa por sua safra anual de sal. Quando ninguém poderia imaginar algo como uma geladeira, o sal era a maneira mais eficaz de se preservar os alimentos. Era transportado pelo mar, usado como dinheiro, misturado em pastas e esculpido em jóias.

Os sicilianos que viviam ao longo da suave costa ocidental, abençoados pela água salobra e pelos quentes e ventilados verões, encontraram uma fonte de riqueza quase inestimável. Refinaram a técnica de extrair sal da água do mar evaporada, transformando a costa em uma enorme salina, com seus pequenos lagos, canais e montes brancos de valor quase inestimável.

Dois mil anos mais tarde, agora o sal custa um dólar por lata nos supermercados do mundo. E nos últimos cinqüenta anos o maior item de exportação da Sicília tem sido sua própria gente.



A modernidade criou contradições profundas - os turistas chegam aos bandos às extraordinárias ruínas gregas e aos hotéis de quatro estrelas cheios de varandas na costa leste da ilha. Há um resort de esqui vulcânico em pleno monte Etna, com seus mais de 3.000 metros de altura. Mas atrás dessa fachada turística, a ilha ainda é um aglomerado de fazendas e de pobres aldeias que lutam para se erguer e se livrar dos efeitos do passado feudal corrupto.

Eu também ouvira falar que na remota costa ocidental ainda havia amplas e rasas salinas, e de algumas pessoas que passavam os meses aflitivos de verão na Sicília extraindo do lodo evaporado os tais montes de cristal branco. Parecia assim tão sem sentido, tão exaustivo, tão italiano. Claro que eu tinha que ver isso de perto.

A viagem para a Sicília já estava decidida. Minha esposa estuda arte antiga e planejamos uma viagem de duas semanas ao redor da ilha para conhecer os vestígios do domínio grego e romano. Para conhecer o sal teríamos que fazer pequeno desvio até chegar à cidade costeira de Trapani, capital extra-oficial da indústria das salinas.



Era março, bem antes da temporada turística. Em direção ao leste, os resorts mal começavam a desenrolar seus toldos. No coração montanhoso da ilha, ventos rigorosos traziam rajadas com flocos de neve. Os posters de aeroporto sempre fazem a Sicília parecer com a Costa Brava, balneário de vinhedos dourados e barracas de praia, mas isso não ocorre nesta época do ano. Eu guardei o calção de banho no fundo da mala e comprei um par de calças mais grossas.

Nós alugamos um Fiat branco com um bagageiro que mal comportava nossas malas e partimos em direção ao oeste, longe da capital Palermo e dos grandes resorts. Tinha sido alertado sobre os terrores ao volante na Sicília, mas nós praticamente flutuamos pelas amplas estradas, passando por morros verdes pontilhados por onipresentes apartamentos de concreto construídos pela metade. Nós nos divertíamos com o minúsculo motor do nosso carro e com seu pequenino nome -"Punto", o ponto - até que começamos a observar que havia outros Fiats Punto passando por nós a 180 quilômetros por hora, desafiando o tráfego.

Bem antes do que o esperado, talvez a apenas uma hora do aeroporto, já nos aproximávamos da Costa do Sal. Os vestígios da indústria de sal podem não estar entre os principais pontos de peregrinação turística no Mediterrâneo, mas nós não tivemos problemas em identificá-los. Placas na estrada identificavam a "Via del Sale", ou estrada do sal, que vai para o sul, de Trapani à próxima cidade costeira, Marsala.

Seguimos a estrada da cidade e vimos que o caminho passava por uma série de planas fazendas costeiras. Enquanto nos aproximávamos da costa, as fazendas davam lugar a algo meio estranho - imensos retângulos de água demarcada. As piscinas rasas interconectadas margeiam a costa por vários quilômetros, pontilhadas por moinhos de vento que só recentemente foram suplantados por meios mais modernos para se bombear água e extrair cristais de sal.

Nosso destino era o óbvio - o Museo delle Saline. O museu não tem propriamente um endereço, mas partimos esperançosos em direção a um vilarejo chamado Nubia. Nos confins de uma reserva natural aquática, sob mormaço e vento rigoroso, nós entramos em um terreno de estacionamento, que tinha singular casinha baixa de pedra.

O museu tem um restaurante para os visitantes ocasionais e uma loja de lembranças. Mas quando entramos o restaurante estava fechado. Na verdade, todo o terreno estava vazio, à exceção de um carro estacionado, estranhamente, bem em frente à entrada dianteira. Enquanto nos aproximávamos, uma mulher saiu do carro. "Museo?", perguntamos. Ela era a curadora. Nós éramos os únicos visitantes.

O museu do sal não é muito grande, mas como muitos museus especializados é intenso em relação a seu objeto de devoção. E eu que pensava que para se extrair o sal o processo poderia ser bem simples - você deixa um tanto de água do mar evaporando ao sol, e quando estiver crocante e branco, está pronto o cristal. Não é bem assim.

Se a evaporação for muito rápida ou muito lenta, outras substâncias - más substâncias - podem se cristalizar a partir da água salgada e você terminaria apenas com sal amargo, ou sal metálico, e algum príncipe fenício ou aragonês poderia lhe torturar até fazer você acertar a mão.

Produzir sal é uma arte - a água do mar flui em direção a uma lagoa gigante, e aí é bombeada para toda uma série hierarquizada de piscinas para evaporação, cada uma com suas específicas profundidade, temperatura e nomenclatura.

As paredes do museu eram cobertas com complexos diagramas e tabelas de salinidade, como se dissessem: "Nós sabemos que você pensava que fosse fácil". Enormes rodas de madeira maciça e parafusos de Arquimedes evocavam décadas de trabalho árduo. As piscinas de sal tinham também a sua hierarquia humana, com a água sendo provada com cuidado e monitorada por um empregado, cujo pai o havia ensinado a distinguir quando o sal estava no ponto. Tudo no museu - as paredes, as tabelas, o equipamento - parecia coberto por uma fina poeira branca. Encostei meu dedo na poeira e provei. Estava salgado.

O sal siciliano é conhecido pelo sabor mineral e por ser de rápida dissolução; seus defensores citam o índice elevado de magnésio como uma virtude culinária. Eu nunca poderia constatar a diferença. Para mim, aferir a consistência e o gosto do sal na Sicília era como beber uma taça de vinho num vinhedo - de alguma forma a substância tem um sabor melhor só porque você ocupa a faixa de terra que a produziu.

Na verdade nós estávamos lá no momento errado para ver a produção de sal. A estação da colheita não começaria até o meio do verão, quando o sal molhado flutua à superfície das últimas piscinas, como se fosse uma densa coroa de neve primaveril. Os trabalhadores sazonais limpam a lama, formam montes piramidais, e cobrem os montes de sal com telhas. Tudo o que podíamos ver era o restante da colheita do ano passado. Sob os tijolos vermelhos, as pilhas do sal pareciam montes íngremes desabitados, compartimentos construídos a partir de um simples condimento.

Nós seguimos pela costa abaixo, percorrendo a Estrada do Sal. Nós passamos por campos, cercas, pequenas sedes de fazendas; e eis que um beco sem saída nos levou a um moinho de vento. Pouco depois fomos parar nas docas da balsa que vai para a ilha particular de San Pantaleo e para outra espécie de museu do sal - uma mina em funcionamento, chamada de salina Ettore e Infersa.

A costa estava quente, silenciosa de dar sono. Lá por perto, um velhinho vendia em seu carro algumas relíquias fenícias falsificadas. Um café vendia expresso e suco de tangerina siciliana espremida a mão. Videiras balançavam ao sol. Uma vez mais, não havia quase ninguém por lá a não ser nós mesmos.

Hoje em dia, a Sicília precisa importar quase tudo, com exceção do sal. Naquela noite nós pernoitamos numa fazenda convertida em pousada, chamada Duca di Castelmonte. O sobrenome do nosso anfitrião, Curatolo, falava da história de uma família que ocupava o topo da hierarquia do sal, mas ele vive mesmo é da fazenda, da pousada, da produção de azeite de oliva e de um clube de futebol. Ele também estava dotado de um recurso que agora vale mais do que o sal - a melhor culinária da região, por milhas e milhas.

A razão de ser do sal, naturalmente, é servir de condimento para o alimento. Não digo que a comida estava carregada de sal, mas nosso primeiro jantar na sede da fazenda de Curatolo foi como nada que você poderia imaginar, com todos os pratos elaborados com ingredientes locais, temperados com o azeite de oliva da região. Uma límpida sopa de couve-flor; uma caponata de berinjela quentinha; steak processado flambado no azeite. O jantar terminou com um inusitado licor local feito de erva-doce.

Nós seríamos capazes de gastar outros 10 dias na Sicília, visitando recantos famosos e comendo de maneira espetacular - há também o inusitado pesto de amêndoa, queijo grelhado em fogo aberto, calamares fresquinhos vindos do mar.

Raramente víamos saleiros. Na mesa italiana, presume-se acima de tudo que o chef já acertou o ponto, de primeira. Quando pedíamos o saleiro, encarávamos o produto com cuidado. O sal havia brotado de lendários e desajeitados montes, e o sal marinho conservava características de umidade que remontam às antigas caçarolas. Mas quando o colocávamos sobre nossas línguas... bem, o sabor era normal, de puro sal.


n.r.: eu tive um Punto que voava...


fonte:The Boston Globe
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