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quinta-feira, 7 de maio de 2009



De muitas formas se diz a minha luz
De muitos modos me visita o meu anjo
Vem devagarinho
por dentro me rasga com navalhas de cristal;
veste-me de âncoras na turbulência dos abismos;
molda-me com esperas na voraz negritude da cidade
Às vezes, na deriva repetida das pedras, na solidão dos bosques,
enfeita de estrelas os espelhos onde me deito

De muitas formas se diz a minha luz
vem comigo ao sussurrar das ondas, e aí, no janelo da tarde,
lê-me Nuno Júdice para que a minha tristeza não alastre;
desliza também nos palácios dos subúrbios,
nos espaços nevados de safiras e brilhantes,
onde a melancolia, redil de gestos impossíveis,
inventa reinos que só eu habito

De muitas formas se diz a minha luz
por fim, numa pausa de murmúrios, numa paleta de cheiros bem fortes
deixa o meu corpo feliz na alegria revolta da Terra


Victor Oliveira Mateus
foto: Elena Platonova

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009



Morre-se de tanta coisa
Quanto a mim
morro-me de ausência ...
morro-me com todo este céu a cair-me por entre os dedos;
pedacinhos de memória pendurados...
morro-me também...
da melancolia,...
quando tu, sem eu saber
porquê, nem te aproximas nem acenas
ah sim, também se morre de silêncio


fonte:Victor Oliveira Mateus
foto: Lilya Cornely

terça-feira, 26 de agosto de 2008



Querer-te é sentar-me na praça, logo de manhã, só para te ver passar
Querer-te é os teus olhos, o teu sorriso cúmplice, as tuas palavras
Querer-te é também não me veres, se por acaso alguém está perto
Querer-te é haver sol e vento e estrelas. É o verde das acácias e das
palmeiras e as rosas de Jericó alinhadas até à ponta das dunas
Querer-te é o castanho doce dos figos sobre a mesa, as tâmaras, a voz
da grande Kolthoum vinda de uma janela num cântico apaixonado
ao Nilo
Querer-te é haver noite - ah, sobretudo a noite! E é o teu corpo nu,
exausto, branco como um templo, porque todos os corpos são um
templo no solo consagrado que há
Querer-te é o sorriso no rosto das crianças, o grácil e dançante
caminhar das mulheres, a fonte, as águas
Querer-te é tudo, até o meu desejo de te não querer


Victor Oliveira Mateus
foto: Elena Retfalvi

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