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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Decidida



Não digas ao que vens. Deixa-me
adivinhar pelo pó nos teus cabelos
que vento te mandou. É longe a
tua casa? Dou-te a minha: leio nos

teus olhos o cansaço do dia que te
venceu; e, no teu rosto, as sombras
contam-me o resto da viagem. Anda,

vem repousar os martírios da estrada
nas curvas do meu corpo - é um
destino sem dor e sem memória. Tens

sede? Sobra da tarde apenas uma
fatia de laranja - morde-a na minha
boca sem pedires. Não, não me digas
quem és nem ao que vens. Decido eu.


Maria do Rosário Pedreira
foto: Elena Platonova

quinta-feira, 7 de maio de 2009



De muitas formas se diz a minha luz
De muitos modos me visita o meu anjo
Vem devagarinho
por dentro me rasga com navalhas de cristal;
veste-me de âncoras na turbulência dos abismos;
molda-me com esperas na voraz negritude da cidade
Às vezes, na deriva repetida das pedras, na solidão dos bosques,
enfeita de estrelas os espelhos onde me deito

De muitas formas se diz a minha luz
vem comigo ao sussurrar das ondas, e aí, no janelo da tarde,
lê-me Nuno Júdice para que a minha tristeza não alastre;
desliza também nos palácios dos subúrbios,
nos espaços nevados de safiras e brilhantes,
onde a melancolia, redil de gestos impossíveis,
inventa reinos que só eu habito

De muitas formas se diz a minha luz
por fim, numa pausa de murmúrios, numa paleta de cheiros bem fortes
deixa o meu corpo feliz na alegria revolta da Terra


Victor Oliveira Mateus
foto: Elena Platonova

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