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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Momentos





...Continuo sempre me inaugurando, abrindo e fechando
círculos de vida, jogando-os de lado, murchos, cheios de passado.
...Momentos tão intensos, vermelhos, condensados neles
mesmos que não precisavam de passado nem de futuro para existir...


Clarice Lispector
foto: Denis Olivier

quarta-feira, 7 de abril de 2010

...






O corpo não espera. Não.
Por nós ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sêde, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.


Jorge de Sena
foto:Denis Olivier

sexta-feira, 12 de março de 2010

Com silêncio dentro...



Onde fica o meu beijo? Onde fica o meu abraço?
No meio da noite e das tuas palavras encontro-me frente a ti, de corpo ardente e coração aberto. Sabes que te quero. Sabes que a minha vida sem ti não faz sentido. Sabes que a amizade é mais forte, às vezes, do que o amor. E sabes que o amor é tanto. Às vezes quase tudo...
Porque te abandonas na solidão, porque buscas o teu grito, que já voou...
Recolho a tua lágrima. Sou rio acostumado a beber-te as lágrimas. Que fatalmente irão desaguar no mar, numa maré de nós, com silêncio dentro...


Maria in O Cheiro da Ilha
foto:Denis Olivier

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Fome



A minha fome é insaciável. Também o é a minha sede.
Tenho fome das tuas mãos a percorrerem-me o corpo e da tua saliva a cobrir-me como uma segunda pele. Tenho fome dos teus beijos misturados com os meus e das palavras que as nossas línguas trocavam. Das noites das madrugadas do amor. Do teu calor. Do teu cheiro. A minha fome é do tamanho da Terra.
Tenho sede de todos os rios e de ser novamente fonte e descer montanhas e correr vales desenfreadamente rasgando a terra em busca do caminho até à foz. Tenho sede das margens que em mim fazias com o teu olhar. Da verdade que somos. Do futuro que seremos. A minha sede é do tamanho de todos os Mares.
Tenho fome do teu abraço. E tenho sede do teu sorriso...


Maria in O Cheiro da Ilha
foto: Denis Olivier

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