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segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Ausência



Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.



Carlos Drummond de Andrade
foto: Christian Coigny

segunda-feira, 13 de abril de 2009



E por que haverias de querer minha alma

Na tua cama?

Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas

Obscenas, porque era assim que gostávamos.

Mas não menti gozo prazer lascívia

Nem omiti que a alma está além, buscando

Aquele Outro. E te repito: por que haverias

De querer minha alma na tua cama?

Jubila-te da memória de coitos e de acertos.

Ou tenta-me de novo. Obriga-me.


Hilda Hilst
foto: Christian Coigny

segunda-feira, 9 de março de 2009



Sinto falta de ti
do riso pelas tardes
(a tua boca um sol)
do sabor a maçã
(a tua língua um beijo)
do cheiro a malvasia
(o teu corpo um perfume)
do segredo de ficarmos calados
suspensos num olhar
a acender o rosto
a devorar a boca
a incendiar o corpo.


Maria Aurora de Carvalho Homem
foto: Christian Coigny

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009



..escrevo-te...
.....escrevo-te porque perdi a cabeça. não aguento mais nenhum dia sem te contar como têm sido os meus. claro que nunca te enviarei carta alguma! perco a cabeça apenas enquando te escrevo. enquanto penso em ti. mas não sou verdadeiramente louca! aliás, se queres saber, escrevo-te porque me desafiaram a fazê-lo. sempre aceitei todos os desafios. por isso te aceitei a ti. e por isso te escrevo.
.....ah, isso não posso! dizer-te quem me desafiou seria corromper a confiança que em mim depositaram. fiz uma promessa. e, apesar de incumprir tantas, esta vou cumpri-la.
....não comecei a carta com "querido X"... não podia! seria um atrevimento da minha parte. além disso tinha que, obrigatoriamente, iniciar o texto com a palavra que usei. uma regra imposta pelo desafio.
.....repetir-me-ia se te dissesse que o que mais me pesa são as saudades. em miúda via as saudades como algo que transportamos alegremente no coração. era tão feliz com as saudades de então! quis a existência ofertar-me outras. entre elas as saudades que tenho de ti. talvez em miúda eu não tivesse muitas saudades. grama aqui, grama ali e fui juntando toneladas.
.....já passou algum tempo. e o passar do tempo não ajuda nada. ou então não passou tempo suficiente e o meu recomeçar está ainda para vir. cada recomeço que tento é um virar de página. acontece que tenho o hábito de folhear os livros de trás para a frente. qual penélope, teço e desfaço o que teci. na espera de ti.
.....os negócios vão mal. a minha tristeza não atrai alegria. e a falta de alegria não atrai fortuna. atrai!!! todas as palavras me te devolvem. ou porque as usavas, ou porque as usavamos, ou porque me relembram deliciosos momentos, ou porque as tenho guardadas, ou... (privo-me) não direi mais nada! como assim... não vou enviar a carta.
.....eu gosto de escrever cartas. escrevi tantas!
.....podia acabar com a verdade. acho que não o faço pois posso um dia querer enviar-ta. mas deixo-te um beijo.



Luísa, aqui
foto: Christian Coigny

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009



Quero conhecer essa tua janela
abri-la, escancará-la de par em par
para que tu, ao abeirares-te dela
possas sorrir, talvez até cantar

Porque de janelas fechadas não gosto
e porque o sol e a lua devem entrar
deixarei que saboreies este mosto
que daqui a pouco começa a fermentar

Na janela de onde não vês o rio
deixarei o cheiro e o sabor a mar
sei que amanhã pode fazer frio
mas tens o meu braço pra te agasalhar


Maria
foto: Christian Coigny

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009



Se eu fosse mar deixaria que desaguasses em mim o rio que és.
Poderias então descansar de todas as cores no meu azul profundo.
Não sou mar.
Mas podes sempre descansar no meu regaço todos os cansaços da vida.
As tuas lágrimas. As chegadas e as partidas. A tua inquietação.
E repousar o corpo...


Maria - O Cheiro da Ilha
foto:Christian Coigny

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008



Todos os comboios te trazem até mim,
pequena luz do meu desassossego,
num sussurro de promessa inconfessada,
num desafio de pergunta sufocante.
Vais e voltas, audaz e indefesa,
na migração branda de todos os afectos
e é instinto que me dá do teu nome
o timbre e o tom das revelações que embriagam.
Nunca a distância pôs tão perto
a mão que treme e a tentação do lume.
Vais e voltas e sem que o saibas
é por mim que vens e é por ti que parto,
que o sentimento que sustenta estes dias
é volátil e breve como um pássaro de névoa,
como uma serpente de jade, como um fumo
de ópio num encontro contra o tempo,
contra a pressa com que o tempo se disfarça e aniquila.
Vais e voltas e é de mim que te apartas
nesse fogo de quereres estar não estando,
nessa inquietude de seres gare e cais
quando tudo em ti pede que sejas apenas casa e corpo.
E como eu te imito, te repito e sigo
nesse assombro de acordarmos em nós
o sobressalto da lava que faz do enlace
uma extrema e indefinível comoção.



José Jorge Letria
foto: Christian Coigny

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