sábado, 27 de janeiro de 2007

Tolerância Intolerável

por Cássia Almeida


"Com uma regularidade quase diária, os jornais estampam notícias sobre assassinatos e agressões contra mulheres, praticados por maridos, ex-maridos, amantes, ex-amantes, namorados, ex-namorados. Diante da tanta violência que já levou à morte mais de 300 mulheres em Pernambuco no ano passado, a ponto de provocar uma manifestação que tomou as ruas de Recife, o que mais me espanta é a indulgência da sociedade em pleno século XXI, com esse tipo de crime. Nas palavras, a condenação aparece fortemente, mas nas atitudes ainda se percebe a tolerância. Nos últimos meses, três casos chamaram a atenção.

Vendo pela TV, em tempo real, o camelô André Luís Ribeiro da Silva espancar em praça pública sua ex-mulher, acusando-a de adultério, dava para perceber como a sociedade é benevolente com os crimes passionais. Parecia que o seqüestrador do ônibus 499 não representava um risco para a população, somente para a vítima, apesar dele ter feito 55 reféns. Quando os passageiros do ônibus seqüestrado deram seu testemunho na Justiça essa impressão ficou clara com água.
- A agressão foi só no começo, depois ele ficou mais calmo e liberou a saída de todo mundo, mas a gente preferiu ficar para ele não morrer. O André errou, vai pagar, mas não é nenhum monstro. Fez tudo por amor - disse uma testemunha.



Por amor, ele quebrou a golpes de revólver a mandíbula da mulher, depois de já tê-la mantido em cárcere privado, provocando um trauma profundo na mãe de seus três filhos, de 9, 7 e 5 anos. A decisão da testemunha - uma mulher, que parece ser bem intencionada e contra a violência - de permanecer no ônibus foi para ele não ser morto pela polícia. Nesse caso, a única vítima era a mulher.

A sociedade apenas assistia.

Fica a sensação que ainda prevalece, apesar da rejeição à violência, a cultura de que a mulher é propriedade do homem, portanto, ele pode impor sua vontade. Quando é desobedecido, a agressão é a resposta. Uma cultura tão arraigada que atos de violência ainda são considerados, por muitos, um ato de amor. E escuta-se, com frequência indesejada, que o comportamento da vítima justificou a agressão.

Esse foi o caso da manicure Anglais Pereira de Oliveira, assassinada em Botafogo. Em dezembro, a manicure foi morta a facadas pelo ex-marido, de quem já estava separada há dois anos. Ter ido ao baile e estar com outra pessoa foi o motivo dado pelo assassino para matar a mãe de dois filhos seus. "Se você não ficou comigo, não ficará com mais ninguém", teria dito o ex-marido. Uma colega de trabalho de Anglais se revoltou quando escutou de outro colega a declaração:
- Não estou defendendo ele, mas, se ela sabia que tinha problemas, tinha de ficar em casa e não ficar procurando problemas, e também parece que ela arranjou um namorado.

A culpa de ter levado quatro facadas, duas quando já estava no chão, era da própria vítima naquela cabeça machista.

No último dia 16, foi a vez de Rosilene Miranda dos Santos encontrar a morte no revólver do também ex-marido.
- Eu matei porque fui traído - alegou o assassino.



Eu poderia relacionar mais uma dezena de casos, inclusive mais recentes. Na maioria, o crime foi apenas ousar mudar de vida. Ainda hoje, as mulheres se envergonham de apanhar dos maridos, como se a culpa da violência fosse delas. Uma visão truncada que certamente toda a sociedade ajudou a construir. Casos se sucedem como uma rotina cruel, e ainda não conseguimos considerar esse crime como hediondo em nossos corações.

Homens que matam suas mulheres são, sim, ameaça para toda a sociedade. Podem matar nossas irmãs, filhas, mães, qualquer mulher ou criança que passe pela vida deles e resolva enfrentá-los. A covardia sempre marca esse tipo de agressão.

Não existe amor nessa violência, só sensação de propriedade, de poder masculino que todas as conquistas da mulher no mercado de trabalho, na educação, não conseguiram extirpar da sociedade brasileira."

Jornal "O Globo", 27 de janeiro de 2007.



É inadmissível que a sociedade continue encontrando desculpas que justifique a violência de um homem contra uma mulher e muito mais nojento, porque o fato me causa asco, que mulheres de diferentes classes econômicas e idades, incluindo as que possuem um elevado nível de cultura, possam, ainda, fazer parte de um número grande de pessoas que justificam a covardia machista.
Quando Cássia Almeida se refere a uma manifestação que houve nas ruas de Recife, fica mais fácil imaginar a quantidade de casos que não vem à público.
Nenhum ser humano merece apanhar, nem sofrer algum tipo de violência psicológica, não há que ter tolerância quanto ao fato, não há que ter desculpas, nada é justificável. A atitude da sociedade têm de ser mudada, principalmente a das mulheres que precisam gritar ao mundo esse tipo de agressão que vêm sofrendo há anos. Os homens que batem em mulheres, ex-mulheres, filhas, namoradas e ex-namoradas são misóginos, um bando de doentes, e na maioria dos casos se tornam assassinos. Têm de ser punidos severamente por leis, que não precisariam ser específicas, já que o parentesco ou a "amizade" não podem influenciar na pena a ser imposta a um covarde que agride. Essa indignação não é ideológica e não pode ser confundida com uma luta feminista. Não tenho ódio de homens, nem posso considerá-los todos iguais, porque obviamente, não são. Não é possível continuar ouvindo que essas agressões são apenas um erro passageiro, como se tratasse de um tropeção que não irá se repetir, esses covardes arranjam motivos para agredir novamente. Não sou capaz de explicar em palavras o que sinto ao ouvir uma mulher ser condescendente com um homem que é agressor. Se o contrário - mulher agredir um homem - fosse tão corriqueiro, minha indignação seria a mesma. Mas os homens têm sempre maior força física do que as mulheres. Portanto insisto na covardia. E para as/os mais flexíveis, não custa nada tentá-los recordar que em nenhum esporte um homem ou um grupo deles é visto competindo com mulheres. Denunciem!




Cássia Almeida é jornalista
fotos:*evil stuff, de Calvato

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