quinta-feira, 1 de junho de 2006

Prêmio Nobel de Literatura diz que leitura é para minoria

Saramago diz que leitura é para minoria e dispara críticas


O escritor português José Saramago, Prêmio Nobel da Literatura, questionou a utilidade de o Estado estimular a leitura, afirmando que "voluntarismos" não valem a pena no que "sempre foi e será coisa de uma minoria".

Saramago está na lista de cem personalidades - que inclui nomes como o jogador de futebol Luís Figo e o presidente do Grupo Sonae, Belmiro de Azevedo - que aceitaram integrar a Comissão de Honra do Plano Nacional de Leitura, iniciativa dos ministérios portugueses da Cultura e da Educação que será apresentado ao público hoje.

Em debate na Biblioteca Municipal de Oeiras, distrito de Lisboa, Saramago afirmou ontem que não sabe o que será o Plano Nacional de Leitura, dizendo que "há dinheiro para gastar", mas que resta "esperar para ver que resultados vai ter". "Não vale a pena o voluntarismo, é inútil, ler sempre foi e sempre será coisa de uma minoria. Não vamos exigir a todo mundo a paixão pela leitura", afirmou. Ele explicou que o fato de pertencer à comissão do plano é "uma fatalidade, como as bexigas" - referindo-se à comemoração de quando recebeu o Nobel, em 1998.

"O estímulo à leitura é uma coisa estranha, não deveria ter que haver outro estímulo além da necessidade de um instrumento que permita conhecer", opinou. "Mal vão as coisas quando é preciso estimular. Ninguém precisa de estímulos para se entusiasmar com o futebol", disse, lembrando que por trás do esporte há uma "operação de propaganda fabulosa".

Instrução x educação

Segundo Saramago, atualmente se confunde a "instrução", ligada ao conhecimento, com a "educação", ligada aos valores. "Onde está a educação na escola em que os professores são agredidos, humilhados, desprezados", questionou, dizendo que eles "são os heróis do nosso tempo". No entanto, lembrou que há "professores incompetentes", que trabalham "sem vocação". E fez uma recomendação: a leitura em voz alta deve ser encorajada na sala de aula.

O Nobel da Literatura também criticou a linha de ensino que prega que a correção ortográfica não é importante. "Qualquer operário sabe que tem que ter suas ferramentas limpas e em condições de serem usadas. A língua é a ferramenta por excelência".


Entendo perfeitamente a "desconfiança" de Saramago nessa iniciativa, e estou totalmente de acordo quando diz que a leitura "é coisa de minoria", mas também acho que Saramago se confunde um pouco achando desnecessário o estímulo à leitura.

Acredito que em alguns países de Primeiro Mundo, comprar um livro para um bebê é tão natural quanto comprar um brinquedo e pelo menos aqui no Brasil, nas classes mais altas, é possível perceber que o mesmo acontece, neste caso não parece ser necessário estimular o prazer pela leitura na fase adulta. E acho ainda que se engana muito dando como exemplo o futebol, se ele dá como exemplo apenas Portugal. Lembrando que Saramago vive na Espanha.

Em Portugal, na maioria das vezes, quando o bebezinho sai da maternidade, é frequente ver o pai exibir orgulhoso a carteira de sócio de seu filho recém-nascido, inscrito no clube de sua paixão, aos amigos. A coisa vai além: compra-se o uniforme completo do time, em tamanho minúsculo - obviamente - e vestem o filhotinho tal qual miniatura de um jogador de futebol. E isto não é estímulo? Eu acho que é!

Imagine, se ao contrário, este pai comprasse um livro para a idade de seu pimpolho, um livro colorido, cheio de objetos macios e que fazem barulho - porque existe há muito tempo livros para diversas faixas de idade -, e continuasse comprando livros na mesma intensidade com que compra bolas e mais camisas e bonés e cachecóis de seu time. Isto seria um estímulo ?

Acho que sim.É perfeitamente possível conciliar a paixão pelo futebol com o gosto da leitura. "Alguns" políticos portugueses não gostam de futebol, enquanto outros não gostam que o povo leia muito, não é o caso de José Saramago, mas o que "eles" pensam, agora não tem importância nenhuma.

Pode-se aprender a gostar de coisas novas a partir de qualquer idade, não é possível gostar do que não é conhecido. É possível ser prático, sem ser utópico, tendo a consciência que nada se altera de uma hora para a outra, levará tempo. E abaixar os preços dos livros ajudaria muito também.

A continuidade é que faz com que a coisa se torne hábito, pode atrair alguns mais e outros menos. Daí, é que resolvem tornar a coisa parte constante de sua vida. Mas independentemente de ser o futebol ou a leitura a única ou principal escolha, pelo menos foi dado ao cidadão o direito de escolher.

Porque é o hábito de ler que faz o indivíduo pensar e não aceitar qualquer idéia alheia como verdade absoluta. É a cultura que nos mantêm longe das ditaduras.

Ontem vi pelo Jornal da Noite (SIC) que a Feira do Livro de Lisboa - Parque Eduardo VII - está dando descontos de 50%. Nestes tempos de grana curta, descontos fazem bem à alma.

Aqui neste link e também no título há mais de Saramago sobre o assunto.


fonte: Lusa

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