Não foi sem motivo - foi por um baita desânimo - que não comentei sobre o terror qua aconteceu há uma semana. Dá uma imensa tristeza ver a cidade que não pára, como é conhecida São Paulo, ficar refém do terror, parecia que assitia pela TV à uma guerra civil. Pessoas assassinadas viravam números que iam se atualizando pelos meios de comunicação.
No meio do susto, me atravessava uma melancolia por ouvir os discursos habituais de vários representantes do Estado e especialistas em violência urbana. Estes, que sempre sabem tudo o que deveria e poderia ter sido feito por governos anteriores ao longo de muitos anos, como transformações na educação de nossas crianças, projetos disso e daquilo e blá-blá-blá. Enquanto isso, soluções que precisariam ser imediatamente tomadas, tal qual estratégia de guerra, ficavam para ser negociadas em outra hora, e mais pessoas continuavam sendo números, a cada momento que crescia a quantidade de mortos. Enquanto todo esse horror acontecia ao mesmo tempo, o Sr. Governador do Estado de São Paulo aparecia para dar entrevistas comunicando que tinha a situação sob controle e sob o controle da polícia de São Paulo. A mesma que ia caindo morta a cada esquina. Ah, só como "detalhe", o domingo da matança foi O Dia das Mães aqui no Brasil.
É muito chato ficar falando de mortes. É cansativo viver falando mal, dia sim dia não dos governos. É insuportável estar sempre reclamando e olhando o tal lado negativo da "vida". Mas, talvez, quem sabe? Pura suposição minha. Acho que essa melancolia que provavelmente já toma conta do nosso inconsciente coletivo, levou Martha Medeiros, que escreve na Revista do Globo aos domingos, a ter a idéia de um texto super bacana que resolvi publicar aqui.
É muito chato ficar falando de mortes. É cansativo viver falando mal, dia sim dia não dos governos. É insuportável estar sempre reclamando e olhando o tal lado negativo da "vida". Mas, talvez, quem sabe? Pura suposição minha. Acho que essa melancolia que provavelmente já toma conta do nosso inconsciente coletivo, levou Martha Medeiros, que escreve na Revista do Globo aos domingos, a ter a idéia de um texto super bacana que resolvi publicar aqui.
As coisas que importam
"No mesmo dia em que o Parreira anunciava a lista de convocados para a Copa, os jornais totalizavam 86 mortos nos ataques a policiais em São Paulo e 66 ônibus urbanos queimados. Como escrevo esta coluna com quase uma semana de antecedência, os números podem estar muito aquém do total atualizado, mas são assustadores igualmente.
Então Rogério Ceni vai à Alemanha ficar na reserva do gol no lugar de Marcos e o Brasil é atacado por criminosos que dão ordens de dentro das penitenciárias, por celular. Um Brasil em busca de vitória, outro Brasil insuportavelmente derrotado. E o pior é que estamos perdendo pra gente mesmo.
Eu, que sempre gostei de futebol, desta vez não estou ligando a mínima para o Mundial. Não há gol que vá me tirar esta sensação de humilhação, de vergonha e de desânimo diante da situação em que nos encontramos. Qual é a nossa estratégia para vencer, para sermos campeões em alguma coisa que não seja no esporte? Não existe. Não há um Ronaldinho Gaúcho no Planalto. Não há um Kaká no Congresso. Não há craques que possam nos dar alguma esperança de sair deste atoleiro, desta zona do rebaixamento moral e ético.
De quatro em quatro anos, apostamos todas as nossas afichas nas palavrinhas "penta", "hexa", na ilusão de que elas nos façam sentir um pouquinho invencíveis, grandes em alguma coisa. Mas a barra anda tão pesada lá fora que não vou esperar que meia dúzia de jogos me reconciliem com o país. Melhor apostar imediatamente nas coisas que nunca nos desapontam. Nas coisas que importam.
O sol nasce no lado esquerdo do meu apartamento e entra pela minha janela. Minha filha mais moça leva uma foto minha dentro da mochila. Meu pai me deu um disco de Schubert que o emociona muito, sinal de que ele quer dividir sua emoção comigo. Tenho uma foto no meu escritório em que estou abraçada a uma amiga que mora na Suíça e a saudade é boa.
Água é a melhor bebida que existe. Fazer as pazes com quem a gente ama faz o coração relaxar. O mar é sempre bonito, esteja azul ou cinza, calmo ou agitado. Minha mãe ainda vive. Minha filha mais velha está apaixonada pela primeira vez. Solidão não é ausência de nada, é só a presença intensa de nós mesmos. A dois centímetros da minha boca, sei que ele vai me beijar.
Hoje dormi sem nenhum sobressalto. Andar de pés descalços na areia é melhor que massagem. Sublinhei diversas passagens de um livro que me capturou sem piedade. E um filme me mostrou que o desespero também tem a sua poesia. Amanhã vou comer peixe. Ainda lembro de quando eu era pequena e tinha medo de que tudo desse errado, mas não deu. Ainda estou aqui.
O amor ainda tem o poder de de unir duas pessoas que não se conhecem. Eu escuto música. O telefone me traz a voz dos amigos. O sofá da sala é confortável. Eu ando de meias pela casa. Um cálice de vinho tinto é obrigatório. Tenho muito tempo livre: todo o nosso tempo é livre. A lua fica cheia uma vez por mês. Tomo banho de sol da janela do meu quarto. Aquele mesmo sol que entra pelo lado esquerdo do meu apartamento.
Me rendo ao que parece pequeno, mas invencível. Só mesmo um pouco de ternura para neutralizar tanta violência.
E-mail: martha.medeiros@oglobo.com.br





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