
"Ai, ai, ai, carrapato não tem pai"
Faleceu hoje, no Rio de Janeiro, com 90 anos e em atividade, o palhaço Carequinha. Carequinha faz parte da infância da minha geração, adorava quando ele escondia a cara na imensa gola que movimentava para cima e para baixo. Aos 90 anos, Carequinha não era idoso, Carequinha era palhaço. É estranho falar de sentimentos de criança por um grande artista, então abro esse espaço para publicar o que foi escrito hoje a respeito do "maior palhaço do mundo".
George Savalla Gomes nasceu a 18 de julho de 1915 na cidade de Rio Bonito, no interior do Estado do Rio de Janeiro. Filho do casal de trapezistas Elisa Savalla e Lázaro Gomes, sua mãe teve as dores do parto em cena e ele nasceu ali mesmo, no Circo Peruano, de propriedade de seu avô, José Rosa Savalla. O pai morreu quando ele tinha dois anos e foi o segundo marido da mãe, Ozório Portilho, que o levou ao picadeiro pela primeira vez quando tinha cinco anos e lhe deu o nome artístico. Colocou nele uma peruca de careca e lhe disse que, daquele dia em diante, seria o palhaço Carequinha.
Carequinha cresceu nos picadeiros do Circo Peruano e em outros, como o Circo Ocidental, do padastro, até chegar ao Circo Alemão Sarrazani, no Rio de Janeiro, em 1951. No Sarrazani ele fazia papel de palhaço na primeira parte do espetáculo e de galã na segunda parte, quando eram encenadas peças de teatro. Um dos atores era um alfaiate, Fred Vilar, que fazia o palhaço Fred e viria a ser seu companheiro fiel de palco.
Em busca de outros públicos, Carequinha levou seu show para fora dos picadeiros, apresentando-se em aniversários e clubes, além de representar o Brasil quatro vezes no exterior. Ele venceu um concurso da Itália do palhaço mais moderno do mundo, representando o Brasil no 1º Festival Internacional de Clowns. Ele foi o primeiro palhaço da televisão brasileira, entrando para a TV Tupi em 1951, o ano seguinte à inauguração da emissora, a primeira do país. Lé ele fez o Circo Brombril que ficou 16 anos no ar.
Ele gravou 26 discos e suas músicas eram muito populares entre as crianças em tempos mais inocentes que os atuais. Sua primeira gravação ocorreu em 1957, a marcha de Miguel Gustavo "Fanzoca so rádio", que fez bastante sucesso. Ele teve grandes êxitos como "O bom menino" ("o bom menino não faz xixi na cama, o bom menino não faz malcriação..."), "A marcha do carrapato" ("ai, ai, ai, carrapato não tem pai..."), "Parabéns parabéns" e cancões de roda tradicionais como "Escravos de Jó", "Ciranda cirandinha", "Carneirinho carneirão" e "O cravo brigou com a rosa".
Nos anos 80, apresentou um programa infantil na TV Manchete, até ser tirado do ae para que entrasse o programa da Xuxa, que começou naquela emissora sua carreira artística. Ele se apresentou para vários presidentes brasileiros, entre eles Getúlio Vargas e Juscelino Kubstchek, além de ser condecorado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso.
Carequinha estava radicado em São Gonçalo há mais de 60 anos. Ele teve cinco filhos e pelo menos sete netos e bisnetos. Mas a tradição da família acabou com ele. Ninguém quis seguir a carreira de palhaço.
Recentemente, ele havia se emocionado com a história do ex-menino do tráfico que quer ser palhaço, mostrado no documentário Falcão, Meninos do Tráfico, exibido no Fantástico. Beto Carrero, inclusive, havia contactado Carequinha para dar aulas de circo para que o rapaz, hoje cumprindo pena, pudesse, no futuro, trabalhar em seu circo.
George Savalla Gomes, o palhaço Carequinha, de 90 anos, morreu na manhã desta quarta-feira na sua residência, em São Gonçalo. Carequinha sentiu-se mal de madrugada, reclamando de falta de ar e dores no peito. Foi medicado na sua residência e seria internado para exames no Hospital das Clínicas, que fica em frente à sua casa, mas não resistiu.
fonte: Globo Online