Voltava do trabalho, no ônibus habitual, com motorista e trocador já conhecidos. O ônibus não estava cheio e pude ouvir com atenção a conversa entre o passageiro, um homem de 59 anos, que durante anos trabalhou em obra e criou 3 filhos, nenhum deles bandido (palavras dele) mesmo vivendo num morro e o trocador, um rapaz de seus 35 anos, poderia ter menos, que fez questão de dizer que não havia nascido no Rio de Janeiro, mas sabia apontar os problemas da cidade, e o assunto continuou e enveredou sobre política.
O trocador falava de assuntos antigos sobre a nossa política explicando ao outro onde estavam os problemas e se expressava muito bem, o que me chamou bastante a atenção. Ele lê (e muito), pensei, sorrindo por dentro. Por outro lado, fiquei triste pensando na falta de oportunidade que aquele rapaz teve, e que o levou a ser um trocador de ônibus quando ele poderia ter cursado uma faculdade e que pelo seu interesse daria, inclusive, um ótimo juiz ou promotor de justiça. Me lembrei do recente caso de estudantes de medicina que pagavam 80.000 reais para passarem no vestibular e me entristeci mais uma vez pela certeza de não vivermos num país justo. Em pleno século 21, a oportunidade ainda está nas mãos de quem tem dinheiro.

























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