domingo, 26 de novembro de 2006

Sabor português

Ana Cristina Reis é editora do caderno Ela, do jornal O Globo, onde escreve todos os sábados. Adoro. E Ana Cristina andou, há um tempo, em férias por terras lusas e tem escritos textos interessantíssimos sobre sua viagem, mas o de ontem tem um sabor diferente, um algo mais delicioso.
Não escondo a minha paixão, ou amor (tenho sentimentos calmos e intensos ao mesmo tempo) pelo Porto. Porque é cinza, porque é hospitaleira, porque come-se e bebe-se muito bem por lá, porque parte da minha família é de lá e porque morei lá muitos anos e fiz amigos. Não faltam motivos para eu gostar de Portugal e do Porto. O texto da jornalista é saboroso e remete a saudades, conheço todos estes cantinhos da cidade e essa gente maravilhosa. Para quem não conhece, vale a pena o encanto da turista.



Exageros em Portugal

Estava no Aeroporto Sá Carneiro, no Porto, esperando a hora de embarque para o Brasil, quando soube do regulamento europeu de bagagem de mão. Um repórter fazia entrevistas no saguão. Dona Maria Alcina Almeida, moradora de Ruivães, em Vila Nova de Famalicão (não faço idéia de onde fica, mas não perderia a chance de escrever Vila Nova de Famalicão), ia visitar o filho que mora em Paris.

Previdente, foi com o marido antes à agência de viagens, para se informar sobre as restrições. Nada de líquido, gel, pasta loção, aerosol e afins. Mas não avisaram o casal que havia limite para a bagagem de mão.
- Levo uns frangos e um bacalhau para o meu filho em Paris. Tive de pagar 98 euros por quatro quilos a mais. Tudo isso é um exagero! - reclamou dona Maria Alcina.

Carlos zevedo, embarcaria para Palma de Maiorca, também não estava gostando nada daquela história.
- Tem alguma coisa a ver com terrorismo levar umas sandes (sanduíches, em português de Portugal) para comer? É um exagero!

Quando o assunto é comida, os portugueses não são exagerados, são exageradíssimos.

Dias antes, eu jantava com amigos no Porto. Era na Ribeira, com vista para Vila Nova de Gaia e para o Rio Douro pontilhado com reflexos da Lua. Na verdade, eram as luzes da cidade, mas lembrança que se preza é sempre mais romântica.
- Por favor, esta sobremesa tem ovo?
- Ora, pois! Não tem um: tem 20, 30 ovos.
E extravagantemente detalhistas quanto ao alcance, entorno e consequência das refeições. Ninguém me contou; eu vi. O homem parecia um anúncio de Ralph Lauren: ondulados cabelos castanhos, olhos azuis, calça jeans desbotada, jaqueta de camurça cor de camelo e relógio cromado - o pacote completo. O restaurante era o Cafeína, na Foz (a Ipanema do Porto). O homem era primo de uma amiga brasileira.

Pensando na boa vizinhança das relações Brasil-Portugal - não queria ser óbvia, pedindo bacalhau - perguntei se ele me sugeriria um prato.
- Gosto imenso do bacalhau - respondeu o primo.
Com razão. O bacalhau com broa, brócolis e alho me apeteceu imenso. E ainda pensava nele, quando, no carro, o primo me ofereceu uma pastilha de hortelã.
- É por causa do alho. O ideal seria um grão de café, que elimina por completo o cheiro, mas não temos café aqui.

O português é deliciosamente exagerado quando é anfitrião. Como foi o doutor Eugénio Branco, dono da vinícola Quinta do Portal, e um fidalgo do Porto - uma redundância, porque nove entre dez portuenses são cavalheiros.
Doutor Eugénio nos recebeu com lombo de pescada branca, linguadinhos fritos, gambas (camarões, em português de Portugal), percebes (o mais feio crustáceo, parece um pé sujo e enrugado, mas o gosto é de mar limpo), sapateiras e santolas.

Sapateiras e santolas são aparentadas. A diferença entre esses tipos de caranguejos é, adivinhe?, exageradamente sutil. Mas sutilezas não floresciam entre os brasileiros naquele jantar. Embalados por vinhos, disputávamos lugares-comuns para descrever a diferença de sabores.
- A sapateira é fresca, gloriosa, tenra.
- A santola é mais acentuada, mais doce.
- A santola é onírica.
- Se não fosse estragá-la, comeria a sapateira com lágrima nos olhos.
- A santola é igual a beijo na boca.
- Ah, é? Pois a sapateira é um orgasmo!
- Não exagera!

Se é beijo ou orgasmo, você decide. Porque tenho alma generosa, divulgo aqui o endereço onde são servidas as melhores sapateiras portuguesas do mundo. É no Restaurante Rosinha: Avenida Serpa Pinto, 731, em Matosinhos. Telefone:229378281.

email: ana.reis@globo.com.br



n.r.:eu já sabia da proibição, mas não tinha pensado nos detalhes. Bacalhau, não digo, mas... uns queijitos da Serra e umas garrafinhas de azeite? É problema? Se for, mal, isto está muito mal, não tem graça nenhuma. Gente, será que diminuíram o peso da bagagem de mão?
Ah! E vale a pena dizer, que no Porto comemos muito bem e nem por isso somos todos gorduchos! E como há gente bonita...ai ai :)


fonte: Jornal O Globo
foto: a Ribeira, no Porto com a vista de Gaia.

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