O dia em que choveram estrelas
Ninguém vira na noite mais triste os estranhos sinais no céu.
Nem os cientistas com os seus olhos telescópios que vêem a aparência dos astros e dos planetas, nem os poetas que buscam na lua palavras e magia, nem o casal de namorados que contava do amor à estrela mais brilhante, para que o brilho ficasse e o amor fosse brilho e eterno.
Ninguém notara como a lua estava triste nessa noite.
Tão cheia de tão triste. Tão cheia de tão sozinha.
Ninguém reparara que os raios da lua eram brilhantes e transparentes como lágrimas.
Raios, lágrimas da lua. A lua chorando iluminava a terra.
Só a lua guardaria para sempre a história da última noite.
A noite em que as estrelas de tão cansadas se esqueceram do nascer do dia, se esqueceram que era chegada a hora de brilhar no outro lado do mundo, no lado escuro do mundo, onde a noite as protegia do sol que lhes invejava o brilho e o tentava roubar na primeira hora de cada dia, como sempre fizera desde o principio do tempo, desde o principio dos dias.
Só a lua sabia da tristeza das estrelas. Só ela sabia que quando uma cansada se apagava, os sonhos e segredos passavam para as outras estrelas, e que estas os guardavam e os carregavam, para que não se apagasse nos homens a esperança nos sonhos, e nunca deixassem de sonhar.
Durante milhões e milhões de noites, milhões e milhões de homens, fecharam os olhos e respiraram na terra para que esta contasse às estrelas, sonho e segredos.
Mas, na terra que guardava o homem não existia espaço para as vidas vividas, e as outras vidas que os homens queriam viver.
Por isso durante milhões e milhões de noites, sonhos e segredos foram guardados pelas estrelas.
E assim céu e terra eram outro e o mesmo mundo.
Mas era já tão grande o peso de tanta esperança, de tantas vidas, de tantos sonhos que as estrelas guardavam que as mais pequenas e as mais antigas não suportavam o peso e caíam e tornavam-se estrelas cadentes. Caindo apagavam-se e desapareciam no escuro do firmamento, e tornavam-se escuro, deixando um pequenino rasto de luz que as outras estrelas recolhiam e guardavam.
E cada vez existiam menos estrelas e mais sonhos.
E na terra, os homens, quanto mais tristes mais sonhavam.
Até que naquela noite, a noite mais triste, a noite última, as estrelas cansadas adormeceram e esqueceram-se do sol e da hora e do dia, e dos homens que no lado escuro do mundo as esperavam e ficaram paradas no céu, onde o sol ao nascer as encontrou, e para ser ainda mais brilhante lhes roubou a luz que as prendia, e sem luz, uma a uma, começaram a cair.
Quem primeiro viu a chuva de estrelas foi um menino que se tinha levantado bem cedo e da janela espreitava o dia.
Da janela viu o pó fino e brilhante que caía com sons de risos e de vozes.
Ao tocar a terra o pó fino e brilhante tornava-se pó igual ao outro, silencioso, apagado e triste.
O menino estendeu as mãos para apanhar as estrelas que choviam, e nos olhos guardou o brilho e nas mãos guardou os sonhos.
E a lua, que vivera a noite mais triste que alguma vez existira e que sozinha partia para a outra metade do mundo sorriu, e apagou os raios molhados de lágrimas.
A lua sabia agora, que mesmo sem estrelas no céu, nas mãos do menino os sonhos continuariam a brilhar e a existir.
Encandescente
Candido Portinari - "Meninos Soltando Pipas"





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