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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O encantador






Era um sonhador compulsivo, acreditava tanto em seus sonhos que conseguia seguidores que financiassem suas loucuras que duravam pouco. Havia estrelas em seus olhos, sol em sua boca e como um encantador de sonhos, também se encantava consigo próprio. Mas havia quem acreditasse... tantas estrelas e sóis saindo daquela pessoa faziam distraídos entrarem em transe.

Seu último sonho foi a contrução de uma fábrica de guarda-sóis no norte da Nova Zelândia. Foi visto no aeroporto apenas com uma malinha de mão.


terça-feira, 22 de março de 2011

Juntando os cacos






Você sabia que era uma cilada perigosa mesmo antes de começar. Agora não reclame depois de cair como uma jaca, espatifar no chão e partir os ossos. Junte os pedaços e leve na boa à espera da bonança.

fonte:CacaoCocoa

quarta-feira, 16 de março de 2011

Alice





Alice ajeitava as meias nas pernas que teimavam em cair por conta do elástico que havia perdido a validade. Era dia de prova e eram as meias da sorte, diferentes em cada perna, porque Alice não era uma menina comum. Na perna direita, listras finas rosa pink e laranja e na esquerda, outra de bolinhas verdes e azuis.

Alice tinha alguns amigos invisíveis com os quais conversava constantemente, soltando sonoras gargalhadas na maioria das vezes, mas nunca foi motivo de piada na escola, descrevia seus amigos com tantos detalhes que havia coleguinhas que juravam tê-los visto perambulando pela escola. A melhor amiga invisível de Alice era Gabriela, ou Gabi.

Quem não gostava do jeito, digamos, bizarro de Alice, era a diretora da escola, uma mulher alta, gorda que parecia amassar barro enquanto andava, de tão pesada que era. Suas bochechas eram tão gordas e flácidas que balançavam enquanto ela andava ao mesmo tempo que diminuíam a boca de lábios muito finos. E tinha o cabelo tão negro amarrado num coque mal penteado que o conjunto a tornava uma figura assustadora.

O melhor amigo de Alice era Pedrinho, um menino hiperativo que vivia com as maçãs do rosto rosadas de tanto que corria de um lado pro outro, Pedrinho não sabia o que era andar, só corria. Seu cabelo cor-de-fogo, contrastava com a pele muito branca, mas tão branca que Alice dizia que ele era transparente.

No dia da prova, Alice chegou correndo à escola - atrasada como sempre - por culpa das ditas meias da sorte, já velhas. Pedrinho a ultrapassou na corrida, e olhando pra trás, riu e fez uma careta. Alice não aguentou e mandou bem alto...: - Você chega antes de mim, mas não antes da Gabi (a amiguinha invisível). Pedrinho era o único que morria de medo dos invisíveis porque uma vez, Alice disse que se ele não acreditasse eles puxariam a perna dele enquanto estivesse dormindo e isso aconteceria sempre às sexta-feiras. Nem é preciso dizer que depois disso, Pedrinho nunca mais dormiu tranquilo às sextas-feiras.

A prova era de português e Dona Conceição, a diretora, também era a professora de português dos dois. Alice, como evitava confusão com a "Dona Grande Panetone" (apelido que ela deu à professora), gostava de sentar no fim da sala e Pedrinho sentava sempre na primeira carteira, de cara com a mesa da professora, bem longe de Alice.

Alice que vinha atrasada, com as meias arriadas ao tornozelo e em altos papos com Gabi, nem reparou no taco solto logo à entrada da sala de prova e caiu redonda fazendo um imenso barulho. A gargalhada foi geral e ela viu sair dos olhos de Dona Grande Panetone várias facas minúsculas enquanto das narinas saía uma fumaça idêntica ao que o vapor velho que passava na fazenda dos avós, soltava.

Alice levou o maior sermão da professora e foi resmungando para o fim da sala enquanto Gabi puxava suas tranças.

A prova poderia ter corrido bem se Alice não achasse que devia se lembrar da matéria que estudou em voz alta com a amiga invisível, Gabi. Mas Alice tinha um mundo tão próprio quando apareciam seus amigos invisíveis, que esquecia que nem sempre podia se comunicar com eles em voz alta, e a professora já cansada de chamar várias vezes a sua atenção por falar durante a prova, rumou decidida ao encontro de Alice, enquanto seus pés batiam no chão fazendo barulho.

- Me dê a sua prova, Alice, acabou!
- Acabou o quê, professora?
- Acabou a sua prova.
- Mas de jeito nenhum, nem cheguei na metade. (respondeu alice com o nariz em pé que Deus fisicamente lhe deu)
- Não vou aturar mais o barulho que você está fazendo... me dê a prova já!

E começou o puxa-puxa da prova...

Enquanto a professora puxava a prova de um lado, Alice e Gabi puxavam do outro e nesse vai-não-vai, Alice vê a sua mãe que puxava o lençol tentando fazê-la acordar. Alice deu um salto da cama e eufórica sentou encostada à cabeceira, enquanto puxava pra cima de si o lençol porque sentia frio naquela manhã de julho, e começou a contar o sonho para a mãe:
- Deixa te contar o sonho mega bizarro que tive.
- Agora não, Lili, você precisa levantar e se arrumar, porque hoje é dia de prova.
- Mas mãe, é rapidinho...
- Alice (a mãe só lhe chamava assim quando precisava mostrar autoridade), conheço seus sonhos, são autênticas novelas e você vai se atrasar.
- Mas mãaaaaaae, só um pouquinho...
- Já disse que não, e como as suas meias da sorte rasgaram, quer dizer se desmancharam....
- Aaaaaaaaaaaaaaah, não, mãaaaaaaaaaaae!!! E agora, como eu vou fazer prova, como eu vou passar, como vai ser, por quê você rasgou, como aconteceu, como...????
E numa enchurrada de comos e porquês, a mãe dá uma risada e diz:
- Comprei uma coisa que tenho certeza que vai te dar sorte.
E a mãe, correndo toda serelepe até o armário de Alice, tira uma caixa que estava escondida no fundo de uma gaveta.
- O que é?
- Abre, ora!
Alice que já tinha um sorriso que rasgava de um lado ao outro do rosto, solta um grito: Gabi!!!
- Hein?
- É a Gabi! Minha amiga invisível do sonho...
- Tá bem, Lili, o nome da boneca é Gabi, agora vamos, sai já, já dessa cama.
- Mãe, cê não tá entendendo, a amiga invísivel do sonho...
Nisso, a mãe de Alice já foi saindo do quarto balançando a cabeça.
Alice levanta da cama e quando vai pegar a boneca, esta lhe pisca o olho.
- Ok, Gabi... entendi, é segredo!


Cris Caetano

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Histórias






Estou sem inspiração mesmo. Larguei há meses o gosto pela escrita por esse motivo mas também confesso que nem ao menos tentei voltar à escrita por total falta de vontade. Ontem, assim do nada, veio uma idéiazinha na cabeça e empolgada comecei a escrever achando que terminava um conto que escrevi há uns meses e novamente fiquei olhando para o monitor porque o final tinha cara de continuação e meu objetivo era outro e mais uma vez, travei.

É incrível como a vida pessoal pode influenciar na imaginação. E eu achava que ter mil coisas para pensar levavam a grandes criações... baaaah, nada disso, uma cabeça vazia sem conexões com qualquer acontecimento viaja muito mais facilmente. Mas eu chego lá, hoje quase saiu o final da história.

E a imagem é uma tentativa de encontrar minha fonte inspiradora: a fantasia.


fonte:FFFOUND!

terça-feira, 2 de março de 2010

Desculpas


Olhou para o vidro embaciado e fixou o olhar nas linhas que deslizavam na vidraça, sugestionadas pelo som do vento e pelos acordes da chuva, semelhantes às lágrimas que deslizavam tristes pela pele do seu rosto. Lá fora o frio e neve, no seu peito o frio e o gelo. Como acontecia quando era criança, e precisa de um peluche para adormecer, necessitou do seu afecto para naquela noite dormir melhor. Levantou-se descalça, semi-despida e foi invadir o seu habitáculo de papéis e relatórios, projectos e planificações. Entrou a medo, sentindo que profanava com o seu amor, a sua inocência, aquele templo sagrado. Beijou-lhe levemente o cabelo, na esperança que ele retribuísse o afecto e lhe desse um carinho que lhe restituísse a paz. O beijo não veio… a reacção ao toque dos seus lábios, também não. Recuou triste, passo a passo, com o olhar desiludido sobre aquela figura estranhamente humana que se afigurava à sua frente. Observou aquele homem que a cada instante se tornava mais irreconhecível apesar de dividir com ele a mesma casa, a mesma mesa, a mesma cama: envolto na névoa do fumo do cigarro, absorto pela imagem reflectida do computador, mão agitada sobre o rato, a outra esquecida no copo de Whisky (a combinação perfeita de todos os seus vícios). A cinza tomava conta do cigarro e os seus dedos deram dois pequenos toques mecânicos retirando o excesso para o cinzeiro de vidro, repleto de vestígios de outras horas e cigarros mortos. Levou novamente o cigarro à boca seca inalando com prazer o fumo e absorvendo todo o alcatrão e nicotina estimulante. Num suspiro deixou escapar o fumo numa nuvem entrecortada que o envolveu num abraço que deveria ser seu. Desolada com transparência a que era votada, recuou lentamente chocando com a estatueta de mármore. Um olhar irado fulminou-a com uma agressividade cortante de onde saíram palavras afiadas «-És mesmo desastrada, vai dormir.» Correu para o quarto, sem saber se fugia com medo de ser avassalada pela avalanche de lágrimas que se aproximava, se das farpas aguçadas daquela voz. Atirou-se para a cama, mergulhou os soluços que rebentavam na almofada e chorou… chorou pelos sonhos que nunca chegou a concretizar, por todos aqueles que se perderam, pela presença de um homem na sua vida que transformara num estranho, por tudo aquilo que abdicou em prol de uma história de amor. Perguntava a cada lágrima onde é que tinha errado, onde foi que o amor se transformou em indiferença, e quando é que de bestial passou a besta. A fonte das lágrimas secou no momento em que a exaustão se apoderou do trapo velho a que chamava corpo e adormeceu. Mais tarde também ele se entregou ao descanso de uns lençóis macios. Aproximou-se… devagarinho… lentamente… tentando, sem que desse por isso, absorver-lhe o calor. Olhou-a envergonhado, arrependido, e admirou uma vez mais a sua beleza. Deixou que o seu nariz, o perfume que brotava do seu corpo, autorizou os lábios a tocarem a sua boca levemente, numa carícia terna de quem quer dar mais e não sabe como, e sem dar autorização espaçou do mais íntimo de si um «-Desculpa». Os seus sentidos tinham-na avisado que ele chegara à cama, mas como não queria discutir uma vez mais, fingiu que dormia. Sentiu que o seu corpo frio a procurava, desejou ter correspondido ao seu beijo, mas os seus gestos tinham-na abandonado e não lhe obedeciam. Aquele pedido de desculpas apanhara-a incauta, acontecimento inédito, único, cuja probabilidade de se repetir era uma num milhão. O pouco que lhe dava era tanto, na vida qualquer coisa sabe melhor quando se sente a falta, por isso sorriu e rezou baixinho para que ao acordar, o homem que estava deitado ao seu lado, fosse o mesmo com que sonhava todas as noites, o mesmo que um dia conheceu, o mesmo que um dia a amou.


fonte:Blog As palavras que nunca te direi
foto: Alvin Booth

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

A Casa Amarela



Chovia, a janela batia forte pela força do vento, enquanto o cachorro latia, entrando ensopado pela varanda adentro assustando Charlotte. Romeu, que susto! Não vá se sacudir em cima de mim. E Romeu, muito pouco ligado nessa coisa de humanos, não deu ouvidos à Charlotte e deu uma boa sacudida no pelo, espirrando água em cima do que estava próximo. Cachorro vadio! Não sei porque te amo tanto, dizia Charlotte, que levantou deixando o tricô de lado pra pegar um pano pra secar a varanda e Romeu.
Teresa, alheia a tudo, lia no seu quarto que tinha papel de parede de bolinhas, que tinha escolhido com a avó, decoradora da maioria das casas da vila.
Vó Charlotte, não era uma avó comum, só tricotava em dias de chuva forte porque a relaxava e afastava o medo, tinha a ver com traumas da infância, quando num temporal, rezando ajoelhada perante os seus santinhos, a parede de cartão caiu e desmaiou pensando que seria soterrada. Não foi, mas aquilo causou o maior trauma em Charlotte que ficou gaga durante uns meses. Nunca mais rezou pra santo nenhum e pegou o maior medo de tempestades.
Charlotte e Teresa viviam numa casa amarela com janelas em madeira pintadas de roxo. Charlotte, além de ser uma mulher de vanguarda, adorava o roxo e todas as suas matizes, passou isso pra Teresa que não pestanejou em escolher o papel de parede do seu quarto na cor alfazema com bolinhas brancas.
A vida das duas transcorria na maior normalidade, Teresa com seus afazeres de criança, brincava, ia à escola e se divertia quando amigas invejavam a avó que tinha. Charlotte sempre levava e apanhava Teresa na escola montada num cavalo branco de manchas pretas, que tinha o nome de Tsunami porque era muito atrapalhado. Tsunami nem sempre gostava de obedecer e habitualmente, ao invés de tomar o caminho de casa nas rédeas de Charlotte, se embrenhava pela mata e ia parar no rio que margeava a vila. Era um rio tinhoso, que gostava de encher nas chuvas fortes e apavorava Charlotte.

continua...



quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Novidade do dia

Escrevi um conto, aqui.


fonte:Euzinha
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