segunda-feira, 16 de janeiro de 2006


Cais

Meu querido
Não sei se receberás esta carta, ou se recebeste as outras que te escrevi antes desta desde o dia em que partiste.
No bilhete que deixaste em cima da cozinha escreveste só "vou-me embora", mas como dizias tantas vezes que te ias e voltavas sempre, eu pensei que era como nas outras vezes em que só dizias, mas não foi, e partiste e não voltaste.
Todos os dias te espero sentada na cadeira que era a tua, na cozinha, como se a cozinha fosse um cais de onde tivesses partido para a ilha deserta para onde dizias que irias quando te perguntava, "e partes para onde?" e tu respondias, "para longe daqui, para uma ilha deserta", e sento-me e releio o teu bilhete de ida e escrevo-te e espero que voltes ou me respondas mas nem tu chegas nem as tuas cartas, e eu aqui na cozinha, cais de espera, a estudar mapas e ilhas e a consultar aquele almanaque antigo onde vias as marés, o Borda D’Água, depois vou ao cais, ao outro, das partidas, e espero a hora certa, a onda certa e envio-te a carta fechada numa garrafa, pela maré certa, a que vai passar aí na ilha deserta onde estás e para onde partiste e vejo-a afastar-se e ir e não voltar.
Nenhuma carta retornou ao cais de onde as envio e tu também não, por isso acho que recebeste todas as cartas que te escrevi.

Encandescente
"Chair" - Bo Bartlett

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