quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Santé!

Champanhe, ou a arte de beber estrelas





O vinho continuava ácido. Quase um pecado. Foi quando o encarregado das adegas da Abadia de Hautvillers, o monge beneditino Dom Pérignon, depois de ter tentado tudo para lhe tornar aceitável, decidiu colocá-lo em garrafas de vidro para uma segunda fermentação – à época, uma heresia. Anos depois, provando o resultado de sua excentricidade, afinal compreendeu que havia sido perdoado pelos deuses: “Venham todos! Depressa! Venham! Estou bebendo estrelas!”

Corria o século 17 e estava começando a história do champanhe. Depois nosso Dom ainda teve que desvendar o mistério de estopas que teimavam em pular dos gargalos das garrafas. E acabou inventando a rolha de cortiça – na verdade, apenas adaptação de velho costume camponês da Península Ibérica; que, desde a colonização romana, já se usava ali essa cortiça extraída de sobreiros para fazer sapatos, cochos e tachos de cozinha. Mas as explosões noturnas – agora de rolhas – só findaram mesmo quando o velho monge inventou grampos de arame para prendê-las, conhecidos como muselet. Pena que Dom Pérignon tenha morrido sem compreender a razão pela qual a bebida que inventou era, na adega, tão diferente das outras. Porque só um século depois Pasteur desvendaria o segredo das leveduras, na fermentação; e Lavoisier explicaria como essa fermentação transformava açúcar em álcool e gás carbônico – de quebra ainda formulando o primeiro princípio da química moderna, “nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Mas essas são outras histórias.

Passa o tempo. E o champanhe está hoje fortemente associado às grandes comemorações. Especialmente Natal e Ano Novo. Mas nem sempre foi assim. Remontando a origem dessas festas à celebração romana do solstício de inverno, no hemisfério norte. Comemorado a pão e vinho – homenageando Saturno, deus da fartura. Tradição, depois, seguida pelos cristãos, com pão e vinho passando então a simbolizar o corpo e o sangue do próprio Cristo. Ano Novo foi criação pagã, do imperador Júlio César, prestigiando o calendário egípcio de sua Cleópatra. Mas Natal teve as bênçãos do papa Júlio I, que o instituiu em 350, fixando 25 de dezembro como data de nascimento do Salvador, aquele que veio ao mundo para redimir nossos pecados.
A região de Champagne, durante muito tempo, foi apenas passagem de invasores hostis.

Como Átila, rei dos Hunos – aquele que, segundo a lenda, sob as patas de seu cavalo nem grama nascia. Ou o Imperador Juliano – que não acreditou nessa lenda e ali plantou vinhedos. Depois, pouco a pouco, os muitos monastérios da região se encarregaram de fazer nascer os primeiros vinhedos – embora os vinhos que produziam fossem banais, sem muito futuro. Até que se difundiu a invenção de Dom Pérignon, e tudo mudou.

Mas nem só de acasos se fez o champanhe. Seu processo de fabricação obedece a regras rigorosíssimas. As uvas empregadas são, necessariamente, Pinot Noir, Pinot Meunier e Chardonnay – todas colhidas e manipuladas na própria região de Champagne. Com lei francesa de 1927 determinando só possa ser denominado de champanhe os vinhos ali produzidos. Razão pela qual, quando fabricado em outras regiões, ganha outros nomes: no resto da França, vin mousseux; na Itália, spumante ou prosecco; na Alemanha, sekt; na Espanha, cava; em Portugal e no Brasil, espumante.

Algumas marcas fizeram história. Como a Moet & Chandon, preferida de Napoleão, do Czar Alexandre I e de Madame Pompadour (amante de Louis XV), para quem “o champanhe é o único vinho que conserva uma mulher bela depois de bebê-lo”. A casa prestou inclusive homenagem ao inventor da bebida – que está enterrado na abadia de Hautvillers, dentro de sua propriedade – dando a um de seus melhores champanhes o nome de Cuvée Dom Perignon. Ou como a Veuve Clicquot Ponsardin, de Nicole Ponsardin, que com mãos de ferro assumiu a direção da casa aos 27 anos de idade, quando enviuvou – a “viúva Clicquot”.

Tendo ainda conseguido clarear a bebida, até então um vinho escuro e rústico por causa dos resíduos da uva, inventando, para isto, a remuage – método logo adotado por todos os outros fabricantes. Ou como a Cristal, fabricada desde 1876 pela casa Louis Roederer, inspirada em um de seus clientes, o Czar Alexandre II da Rússia – que recomendava fosse o champanhe colocado em garrafas de cristal verdadeiro. Faltando só lembrar que, no Brasil, nossos melhores espumantes são Chandon, De Greville, Casa Valdugo.

Uma última recomendação a quem se prepare para beber estrelas. Nunca balance a garrafa, para ver a rolha atirada longe. Isso só funciona em musicais americanos. Ou na Fórmula 1. Que, na vida real, esse chacoalhar dispersa o gás, alterando o sabor da bebida. E é prova de mau gosto.


fonte:Continente Online; Mônica Baeza

4 comentários:

Maria disse...

Nossa!!!! Que post!
Não gosto muito de champanhe, mas gostei da estória.
Sabes que por mim fico-me pelo vinho tinto e... por um copo de água!!!
;)

Beijinho, querida Cris.
(com saudades)

Cris Caetano disse...

Bacaninha, né? Tinha que postar. :) Também não sou uma fã de champagne, sou mais um tintinho e copo d'água é bem vindo... lololol

Beijão e abracinhos, também com saudades, amiga! :)

Luis Eme disse...

e esta?

mas também está longe de ser a minha bebida preferida.

(além de mau gosto dá direito a banho, o chocalhar da garrafa)

beijos Criz

Cris Caetano disse...

hahahahaha

Beijos, Luis

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