quinta-feira, 9 de julho de 2009

A minha fé

Vou tentar ser objetiva, sempre que escrevo a cabeça dá voltas e uma coisa puxa a outra e acabo por ter devaneios incontroláveis no meio de um texto, culpa de quem inventou a vírgula, mas tentarei.

Quero falar da minha fé, aliás é uma promessa que eu fiz, e não faz mal que soe piegas. Bem, tenho mesmo fé, aliás, descobri isso há muito pouco tempo, foi uma amiga que sem saber me deu um abanão, eu não tinha noção, e mesmo acreditando desde sempre em Deus, ter fé é outro assunto.

Fui criada no catolicismo e estudei num colégio de padres com idéias modernas, onde os padres eram, na época da ditadura, considerados padres-melancias (comunistas), mas mesmo assim, um colégio católico, e desde cedo percebi que a religiosidade não é condição fundamental para tornar uma pessoa boa, com ética, caráter ou respeito pelo próximo, mas isso deu alguns nós na minha cabeça porque por mais zangada que eu ficasse, não conseguia desacreditar Nele (mas tentei), e esses nós só se desfizeram depois que percebi que a minha espiritualidade e a minha crença em Deus, independiam de qualquer religião cheia de regras que eu via não serem seguidas e era inevitável a comparação com pessoas (algumas melhores que católicos praticantes) que não tinham nenhuma, e acabei saindo deste colégio e fui parar em outro, ecumênico. Mas cada um é cada um, como já diz a sabedoria popular e é possível ser feliz e bom, acreditando ou não em Deus. Não tenho nada contra quem tem religião, apenas para mim ela é desnecessária. Pode soar a sacrilégio para os mais sensíveis ou até contraditório acreditar em Deus, conversar com alguns santos da igreja católica e não ser católica, mas achei que é necessário também falar disso para falar da minha fé, pois continuo achando que crer é totalmente pessoal, e a minha não se baseia na fé pregada pelo catolicismo. E não consigo mesmo seguir uma coisa na qual não acredito e que me impõe regras e comportamentos que não concordo, enquanto que, não seguindo, consigo ter uma relação maravilhosa de amizade e parceria com Deus e o melhor, sem culpa.

E não é fácil ter fé, é bem mais fácil não tê-la. Como ter certeza sobre o desconhecido? Como ser tão positiva a respeito de uma coisa que queremos muito que aconteça mas não temos certeza de que vai acontecer? Além disso, todo mundo tem um diabinho dentro de si pra puxar o negativo pra cima, não é? E aí fazemos o quê? Cada um tem seu jeito, outros não têm e eu tenho o meu. Tenho a mania de ser lógica, então baseio tudo em possibilidades, que tendem normalmente a pesar mais de um lado do que de outro, nesse caso não há um equilíbrio da balança, após isso entra o pedido, sempre entra, para ter força, para dar mesmo tudo certo naquilo que acredito que dará, aí converso com um ou outro santo da igreja católica, aliás tenho simpatia mesmo apenas por três e peço mesmo para me darem uma forcinha "superior" no que eu quero que corra para melhor.

Mas não me acho assim tão centrada ou perfeita, não acredito quando a Bíblia diz que a fé pode tudo, pode quase tudo, não pôde (vou manter o acento até quando for possível) manter meus avós nem meu pai vivos até hoje, ninguém fica pra semente, logo a fé não pode tudo, então para mim, o único jeito de ter fé é ter os pés bem assentes no chão e usar o cérebro para encontrá-la.



Quando meu cãozinho de 12 anos, minha pulguinha transgênica, foi fazer o exame anual de saúde e fez uma ultrassonografia foi um choque descobrir uma massa no seu baço e pior ainda receber a notícia de que deveria ser operado o mais rápido possível para fazer uma biopsia porque poderia ser um tumor (mas havia alguma possibilidade de não ser), se fosse e não o operasse corria o risco de ter uma hemorragia interna num dia qualquer, montes de riscos e possibilidades dos quais eu quis fugir. Além disso, eu não estava preparada para mais uma perda em tão pouco tempo e quase pirei, mas uma amiga me deu um abanão lembrando-me que eu tinha fé e foi aí que comecei a pensar, tive uma semana pra isso e comecei a reparar em sua rotina, que tivesse o que tivesse, continuava o mesmo nas brincadeiras e na sua alimentação, além disso, o veterinário de anos tem pacientes mais velhos do que ele, cardíacos também que foram operados em outras circunstâncias e continuam vivos, além disso pensei que se em 1 ano tinha aparecido essa massa, ainda podia ser cedo para ser tratado caso fosse mesmo um tumor e foi aí que fiquei bem depois de 2 dias desesperada (eu não sou tão perfeita assim), mas continuei preocupada, porque gosto dele, porque sabia que haveria um pós-operatório, mas calma, insuportavelmente calma, e comecei a trabalhar a minha fé, acreditando que tudo correria bem durante e após a cirurgia e que a tal massa não seria um tumor. E assim, calma fiquei, na sala de espera ouvindo música no meu MP3, confesso, agora nada envergonhada (a tal culpa de ter que sofrer ainda tinha alguns reflexos).

Mas pedi a Francisco de Assis e ao meu anjo da guarda que dessem uma olhadinha no meu baixinho durante a cirurgia e realmente acreditei que eles ficaram lá dando uma olhadinha pra ver se tudo corria bem e correu, e como prometi que se tudo corresse bem, falaria da minha fé, aqui estou eu, fazendo algo impensável, que é falar tanto dos meus sentimentos, mas acho que vale por todas as alegrias que esse cãozinho tem proporcionado à mim e à minha família.

Como a fé que tenho é uma fé raciocinada fica explicado no texto abaixo como descobri esse raciocínio, e não há nenhuma intenção da minha parte para quem leia isso, se torne um seguidor/a do espiritismo, PELAMORDEDEUS, eu própria não sigo. E foi lendo um dos muitos livros de Allan Kardec, o Evangelho Segundo o Espiritismo que vi que a minha mania de ser lógica tinha algum fundamento:
" Do ponto de vista religioso, a fé consiste na crença em dogmas especiais, que constituem as diferentes religiões.
Todas elas têm seus artigos de fé. Sob esse aspecto, pode a fé ser raciocinada ou cega. Nada examinando, a fé cega
aceita, sem verificação, assim o verdadeiro como o falso, e a cada passo se choca com a evidência e a razão. Levada ao
excesso, produz o fanatismo. Em assentando no erro, cedo ou tarde desmorona; somente a fé que se baseia na verdade
garante o futuro, porque nada tem a temer do progresso das luzes, dado que o que é verdadeiro na obscuridade, também
o é à luz meridiana. Cada religião pretende ter a posse exclusiva da verdade; preconizar alguém a fé cega sobre um
ponto de crença é confessar-se impotente para demonstrar que está com a razão.
Diz-se vulgarmente que a fé não se prescreve, donde resulta alegar muita gente que não lhe cabe a culpa de não
ter fé. Sem dúvida, a fé não se prescreve, nem, o que ainda é mais certo, se impõe. Não; ela se adquire e ninguém há
que esteja impedido de possuí-la, mesmo entre os mais refratários...

A fé necessita de uma base, base que é a inteligência perfeita daquilo em que se deve crer. E, para crer, não basta ver; é preciso, sobretudo, compreender. A fé cega já não é deste século, tanto assim que precisamente o dogma da fé cega é que produz hoje o maior número dos incrédulos, porque ela pretende impor-se, exigindo a abdicação de uma das mais preciosas prerrogativas do homem: o raciocínio e o livre-arbítrio. É principalmente contra essa fé que se levanta o incrédulo, e dela é que se pode, com verdade, dizer que não se prescreve. Não admitindo provas, ela deixa no espírito alguma coisa de vago, que dá nascimento à dúvida. A fé raciocinada, por se apoiar nos fatos e na lógica, nenhuma obscuridade deixa. A criatura então crê, porque tem certeza, e ninguém tem certeza senão porque compreendeu. Eis por que não se dobra. Fé inabalável só o é a que pode encarar de frente a razão, em todas as épocas da Humanidade."

Além de um pós-operatório excepcional, com recuperação rápida pra idade do meu Sasha, o resultado da biopsia deu negativo, não era um tumor.

E agradeço às pouquíssimas pessoas com quem dividi essa preocupação o carinho que recebi.




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